sexta-feira, 12 de abril de 2013

LEIS DA FÍSICA E LEIS DA VIDA



Na vida estudantil, e já vão muitos anos, sempre tive fascinação pelas grandes sínteses, tais como as Leis da Física, poucas e supersintéticas, consistentes, e de aplicação geral, capazes de explicar uma infinidade de fenômenos que interagem, e, bem assim, interligam coisas aparentemente tão distintas, como força, movimento, matéria, energia, e consciência. É como estivesse atingindo o essencial, de cada coisa, de cada fenômeno. Assim, na Física temos as leis da Mecânica, de Newton, que explicam o movimento dos corpos,  e as relações destes com as forças, causas destes movimentos. Por estas leis, entendemos a dinâmica do Universo, e, em particular, o movimento do nosso sistema solar,  consoante a lei de atração entre dois corpos celestes, e que se traduz na gravidade, quando envolve nosso planeta  Terra. Posteriormente Einstein, relativizou alguma dessas leis, e estabeleceu, genialmente, a famosa relação entre matéria e energia. Destaco ainda o  princípio da conservação de energia (a energia pode ser transformada de uma forma em outra, mas não pode ser criada nem destruída), e, o princípio da entropia crescente (que mede a degradação natural das formas de energia em calor). Num Universo como tal, a ordem é o menos provável e o caos o mais provável.
Ocorre que “enquanto o Universo como um todo, tende a deteriorar-se, existem,entretanto, enclaves locais, cuja direção parece ser oposta, e nos quais há uma tendência limitada e temporária ao incremento da organização. A vida encontra seu habitat em alguns desses vínculos”. Para um cientista contemporâneo, expoente da Física Quântica, “a vida parece ser dotada de um comportamento bem ordenado e regrado, não exclusivamente baseado na tendência desta, de passar da ordem para a desordem, mas antes, baseado parcialmente em uma ordem existente que é mantida, e assim escapar do decaimento da entropia”. Este é também o pensamento compartilhado por Teilhard de Chardin ( 1881 — 1955),  padre jesuíta, teólogo, filósofo, e paleontólogo francês, que buscou construir uma visão integradora entre ciência e teologia. Para Chardin, a “consciência” substitui a entropia, no seu valor de função física essencial do cosmo, e, a “energia espiritual”, substitui a energia material. E formulou, então, uma relação entre esta  “energia espiritual” e a consciência, uma espécie de lei da vida: “o mundo desenvolve-se no sentido de uma crescente complexidade. Este aumento de complexidade externa associa-se, nas últimas fases do processo evolutivo, a um aumento correspondente da consciência.  E, ainda uma lei de socialização, segundo a qual, ocorre, no plano social e humano, a unificação e integração cada vez maior dos indivíduos, num panorama progressivo expresso por um movimento de socialização. Ainda na Física, temos o Princípio Antrópico, que estabelece  que "a natureza é primorosamente ajustada para a possibilidade de vida no planeta Terra: se a força gravitacional fosse reduzida ou aumentada em 1%, o Universo não se formaria; por uma minúscula alteração na força eletromagnética, as moléculas orgânicas não se uniriam. Nas palavras do físico Freeman Dyson, parece que o 'Universo sabia que estávamos chegando'. O Universo não se assemelha a um lance de dados aleatório. Parece pura e simplesmente proposital”
Finalmente, faço referência à Lei Moral, objeto de reflexão pelo consagrado autor C.S.Lewis, em seu livro “Mero Cristianismo”, onde registra que “há dois tipos de Lei em operação: Lei Física é a Lei da Ação, e, a Lei Moral é a que determina a ação. A Lei Física é a lei da seqüência, da força, da imperiosidade automática. É, apenas, uma questão de causa efeito. Exclusivamente o ser humano está sujeito ainda a uma outra lei, Moral, a Lei da natureza humana, mas com uma grande diferença: um corpo material não pode escolher se obedece ou não à lei da gravidade, ao passo que o homem pode escolher se obedece ou não à lei da natureza Humana. É a regra do certo e do errado: existe um certo e um errado, reais e objetivos. A Lei Moral opera, apenas, na área do livre-arbítrio,  expressão usada para significar a vontade livre de escolha, as decisões livres. É a Lei da inteligência, da liberdade, da escolha responsável. Opera com base na persuasão, e não na coerção. Ela não obriga ninguém a nada, mas apresenta à razão humana os valores que devem ser preferidos, e as conseqüências das opções feitas. Ela opera através de motivações e governa por meio da razão.”
Todas estas leis e princípios, ainda me fascinam, como modelos para explicar resumidamente, como os fatos da realidade se relacionam; “propiciam também um caminho pelo qual nos situamos, e definimos as nossas responsabilidades no mundo, em função daquilo em que cremos, e por quê”. Particularmente, vejo em todas estas sínteses, as marcas mais profundas, deixadas por um Criador, passíveis, então, de serem também encontradas sob as lentes competentes da Ciência, destacando ainda a singularidade e importância conferida a nossa criação.

sábado, 23 de março de 2013

O ESSENCIAL É INVISÍVEL; O MAIS ESSENCIAL É INEFÁVEL



Pelo Dicionário encontramos que: Essencial - a natureza primeira das coisas que se opõe ao que nelas seja acidental / Inefável – que não se pode exprimir por palavras/ Admiração - assombro, espanto, estranheza, pasmo, surpresa / Reverência - acatamento, respeito, veneração às coisas sagradas / - crença inabalável, que não tende a razões ou argumentos. Fé divina: crença que se apoia na revelação. Fé humana: a que se assenta na autoridade dos homens. Na vida quotidiana, vivemos absorvidos pelo que não é essencial, não temos muito tempo para a admiração, exercitamos pouco a fé, a reverência está em baixa,e, praticamente não temos contato com o inefável. Parece ser que nossa razão comum tem o viés do que é visível, e exprimível, e, marcadamente na atualidade, “a maior parte da nossa atenção vai para a utilidade, para aquilo que nos traz vantagens”. Na contramão dessa tendência evoco, a seguir, o pensamento de dois autores inspirados, e, que muito prezo, destacando a vivência do  essencial, conquanto invisível, e, do inefável, capazes de despertar nossa admiração, reverência e fé.
O ESSENCIAL É INVISÍVEL, COM DESTAQUE PARA O AMOR.Eis o meu segredo: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos/ Quem ama vê além da aparência física e é isto que ama: a essência/ Só os caminhos invisíveis do amor libertam os homens/  O verdadeiro amor nunca se desgasta. Quanto mais se dá, mais se tem”. Estas afirmações são do livroO Pequeno Príncipe”, que foi escrito e ilustrado por Antoine de Saint-Exupéry um ano antes de sua morte, em 1944. Piloto de avião, durante a Segunda Grande Guerra, o autor se fez o narrador da história, que começa com uma aventura vivida no deserto depois de uma pane no meio do Saara. Certa manhã, é acordado pelo Pequeno Príncipe, que lhe pede: "Desenha-me um carneiro"? É aí que começa o relato das fantasias de uma criança como as outras, que questiona as coisas mais simples da vida, com pureza e ingenuidade. Em suas andanças pela Galáxia, encontrou diversos personagens a quem perscrutava para descobrir o segredo do que é realmente importante na vida: um rei que pensava que todos eram seus súditos, apesar de não haver ninguém por perto; um homem de negócios que se dizia muito sério e ocupado, mas não tinha tempo para sonhar; ... Assim, cada personagem mostra o quanto as “pessoas grandes” se preocupam com coisas inúteis e não dão valor ao que merece. Exupéry via os adultos como pessoas incapazes de entender o sentido da vida, pois haviam deixado de ser a criança que um dia foram.
O MAIS ESSENCIAL É INEFÁVEL, ENQUANTO DESPERTA ADMIRAÇÃO. Abraham Joshua Heschel foi um dos mais importantes teólogos judeus contemporâneos. O que ele disse - Sobre a admiração - Há 3 aspectos da natureza que se impõem à atenção do homem: a força, a beleza e a grandeza. A força ele explora; a beleza é para seu gozo; e a grandeza enche-o de reverente admiração/ O que nos enche de maravilhado assombro não é o que compreendemos e somos capazes de comunicar, mas o que se situa dentro do nosso alcance e ao mesmo tempo está além da nossa compreensão/ A admiração é um estado da mente em que não olhamos a realidade através da treliça de nosso conhecimento memorizado; um estado em que nada se supõe conhecido/ A admiração é a bússola que pode dirigir-nos ao pólo do sentido das coisas . Sobre o inefável - A pureza sobre a qual nunca deixamos de sonhar, as coisas tácitas que amamos insaciavelmente, a visão do bem pelo qual morremos ou nos entregamos vivos – são realidades que nenhuma razão consegue dominar. É o inefável, do qual haurimos o gosto do sagrado, a felicidade do imperecível / O inefável habita naquilo que é maravilhoso como no que é comum, tanto nos fatos grandiosos, como nos insignificantes/ A música, a poesia, a religião, todas iniciam a alma no encontro com um aspecto da realidade para o qual a razão não tem conceitos e a língua não tem palavras/ O inefável é concebível apesar de ser incognoscível/. O conselho: Deixe de lado idéias preconcebidas; abandone sua tendência de repetir e de conhecer antes de ver; tente ver o mundo pela primeira vez com olhos não ofuscados pela memória ou pela volição. E, a constatação: “quando tentamos encontrar-nos com a realidade face a face, sem a ajuda de palavras nem de conceitos, percebemos que o que é inteligível à nossa mente é somente uma tênue superfície de uma realidade profundamente oculta”. O sobrenatural de Deus inscreve-se no essencial, e no inefável, e, desperta a reverência e a fé -  “Perscrutamos os fenômenos tangíveis com a razão, e com o sentido do inefável auscultamos o sagrado e indemonstrável/ A fé nasce naquele que suspira apaixonadamente pelo sentido supremo das coisas/  A existência de Deus nunca poderá ser provada por pensamento humano. Todas as provas são meras demonstrações da nossa sede dele. Acaso um homem com sede tem necessidade de uma prova de sua sede?/ Não ter fé é insensibilidade; ter fé sem discernimento é superstição”.
Contra a cultura da pressa, e o culto da velocidade, estou aderindo à filosofia do “devagar”, mais atento para escutar os ecos do essencial, e do inefável. Discernir entre o que é essencial e o acessório, é o meu propósito, mas não tem sido fácil; vêm muito misturados, o que requer atenção e oportuno distanciamento. Por outro lado, a experiência do inefável independe da minha vontade, é incontrolável. Posso apenas colocar-me em posições mais favoráveis à sua ocorrência. Imagino que sejam nichos apropriados, as expressões compartilhadas de valorização da vida, mais comuns no ambiente familiar, e dos amigos; as oportunidades aproveitadas de ajuda ao próximo; uma boa leitura seletiva com  insights edificantes; a emoção renovada trazida por um filme, preferencialmente em preto e branco, embalando uma história comum de amor, ou de superação; a escuta de uma canção popular melodiosa, que marcou época, e, o puro som da Natureza, dentre outros. Nestes contextos, coisas que, corriqueiramente, deixariam apenas impressões comuns, e, passariam desapercebidas, como irrelevâncias, não obstante, são passíveis de serem encantadas pelo toque do inefável. Finalmente, peço a Deus que me ajude a abrir os olhos da fé, para contemplar o sobrenatural, que, creio, possa estar tão próximo como a distância da palma da mão, e, em todo lugar.

quinta-feira, 7 de março de 2013

PRIMAZIA DA AÇÃO


Luz, câmera, ação ! assim funciona o Cinema; depois de um planejamento elaborado, segue-se a ação. Na vida real, contudo, temos muita dificuldade em nos transpor do conhecimento para a ação, destacando, nesta oportunidade, aquilo que consideramos como boa intenção. É verdade que esta é uma realidade mais pronunciada em nossa civilização ocidental, que privilegia a observação objetiva – base do pensamento dito racional -  em detrimento da ação concreta.
Um fazer para ser. Bem diferente, na matriz do pensamento oriental, vai-se da ação para o conhecimento. Neste, somos convidados a agir (a passar do pensamento a ação) antes de sermos convidados a pensar mais e mais; “somos estimulados a fazer mais do que compreendemos, para poder compreender mais o que se faz. Viver corretamente é um caminho para refletir corretamente. É nas ações que o homem toma consciência sobre o que sua vida é verdadeiramente. É quando usa a sua vontade, e não a reflexão, que ele encontra seu próprio ser, como ele é, não como gostaria que fosse. Se a filosofia pergunta o que é existir? o que significa ser? Por esta vertente se pondera: o que é realizar? o que significa fazer? qual é a relação entre quem faz e o feito? existe um propósito a ser cumprido em todos os momentos, uma tarefa a ser realizada? “. Afinal, não podemos esquecer que somos conhecidos pelo conjunto dos atos que realizamos, e não propriamente por aquilo que gostaríamos de ser.
Muita informação e pouca ação. Voltando à nossa realidade, diariamente, somos inundados por uma avalanche de informações, algumas, poucas, reais boas novas. Assim recebemos mensagens edificantes, mormente através das redes sociais, onde os amigos compartilham insights que certamente também lhes impactaram, dentre os quais, por sua vez, selecionamos um ou outro, que nos sensibilizaram mais, e, que, eventualmente intencionamos também experimentar. Aqui queremos destacar as “boas novas”, como uma forma de conhecimento que pode nos inspirar uma mudança de atitude e/ou ação proativa. É fácil constatar porém, que mesmo estas, muitas vezes morreram na praia das boas intenções, por assim dizer; vindo obrigações inadiáveis, caíram no esquecimento.
Uma ilustração das diferentes reações que podemos ter, compara-nos com diferentes tipos de solo onde é plantada a semente da boa nova: uma parte é semeada em meio a pedregulhos, onde não há terra bastante, e logo nasce, porque não tem terra funda; mas, vindo o sol, queima-se, e seca-se, porque não tem raiz. Esse é aquele que a ouve, e, instantaneamente a recebe com grande entusiasmo, mas ela não cria raízes, e, então quando aparece alguma dificuldade, ou quando passa o entusiasmo inicial, o assunto é esquecido, e não sobra nada. Outra parte das sementes cai no meio de espinheiros, e os espinhos crescem e sufocam-na. Este é o que ouve a boa nova, mas é vencido pela preocupação e pela ilusão de manter o que tem, e, de ganhar mais; a boa nova é sufocada, e não deixa memória. E, outra parte, cai em terra boa. Este é aquele que passou da superficialidade do mero entusiasmo inicial, e acolheu o assunto no solo profundo do coração, e, então converteu-o  em ação proativa; e, produz frutos: uns poucos, aproveitam cem por cento, outros menos, e, outros menos ainda; mas, de todo modo, valeu a pena!.”(versão adaptada da parábola do Semeador).

P.S. Versão original da “Parábola do Semeador”, contada por Jesus para ilustrar a boa notícia (Evangelho) da chegada do “Reino de Deus”,e as diferentes reações dos ouvintes:
“Eis que o semeador saiu a semear.E, quando semeava, uma parte da semente caiu ao pé do caminho, e vieram as aves, e comeram-na;E outra parte caiu em pedregais, onde não havia terra bastante, e logo nasceu, porque não tinha terra funda;Mas, vindo o sol, queimou-se, e secou-se, porque não tinha raiz.E outra caiu entre espinhos, e os espinhos cresceram e sufocaram-na.E outra caiu em boa terra, e deu fruto: um a cem, outro a sessenta e outro a trinta”. 
E, a sua explicação, dada pelo próprio Jesus:
“Ouvindo alguém a palavra do reino, e não a entendendo, vem o maligno, e arrebata o que foi semeado no seu coração; este é o que foi semeado ao pé do caminho.O que foi semeado em pedregais é o que ouve a palavra, e logo a recebe com alegria;Mas não tem raiz em si mesmo, antes é de pouca duração; e, chegada a angústia e a perseguição, por causa da palavra, logo se ofende;E o que foi semeado entre espinhos é o que ouve a palavra, mas os cuidados deste mundo, e a sedução das riquezas sufocam a palavra, e fica infrutífera;Mas, o que foi semeado em boa terra é o que ouve e compreende a palavra; e dá fruto, e um produz cem, outro sessenta, e outro trinta.” 

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

NÃO EXISTE “DIA COMUM” !


Uma realidade na vida das crianças, parece ser, que “cada instante é um novo momento”, sempre vislumbrando oportunidades para se alegrar, mormente na companhia de outras crianças. Infelizmente, com a idade, e o aumento de conhecimento e da experiência – que não se confunde com aumento  da sabedoria – a verdade pode ser bem outra: “mais um dia, e, tudo continua o mesmo”. Nestas condições seria mesmo inimaginável, e indesejável que isto não tivesse um fim algum dia!...
Numa vida como tal, repetitiva, sem sabor, o que chamamos de rotina, seja de trabalho, seja de vida ociosa, poderíamos encontrar uma evidência de “um dia comum”. Aqui cabe a pergunta: afinal, por que mudaríamos, aparentemente para pior? Talvez pela cosmovisão individualista e materialista da vida, onde o único valor é o lugar comum do interesse objetivante, dito racional.
É aí, neste contexto, que aparecem então os dias comuns, sem brilho, tudo no compasso da rotina. Possivelmente isto explique, também, a identificação dos avós com os netos, com quem relembramos os tempos de criança, sem dias comuns. Na realidade, um dia comum não deveria existir, bastando abrir o olhos e ver que é a miopia de nosso egocentrismo que nos faz  enxergá-lo como tal. E, assim como o avô, que é contagiado pelo dia incomum do neto, o que lhe permite sonhar junto os sonhos de toda criança, assim também seríamos envolvidos pelo dia incomum do próximo, e, que uma vez compartilhado, é uma garantia contra a monotonia da rotina.
Sonho que o poeta aproveitou para fazer uma denúncia grave:
“O sonho de toda criança é ter a certeza
Que o lixo e a rua não é o seu lugar.
O sonho de toda criança é ver uma mão estendida
Dizendo pra casa nós vamos, nós vamos voltar.”
(Trecho da música “O Sonho de Toda Criança, da Comunidade de Nilópolis)
Propiciar um dia incomum para o próximo podemos vislumbrar, na parábola de Jesus sobre “O Semeador”, que teve a seguinte paródia: “Certa criança caminhava pela estrada pedregosa que leva da infância à idade adulta, quando caiu nas mãos de exploradores. Estes tiraram dele a inocência e o induziram ao vício, deixando-o inseguro e insatisfeito. Casualmente, encontrou-o um ministro religioso  que afirmou não ter tempo de conversar, pois seus compromissos na Igreja estavam muito apertados. Igualmente um burocrata do serviço público, que, vendo-o, alegou não poder atendê-lo, pois estava fora do expediente de trabalho. Certo negociante, porém, um estrangeiro, viu-o com olhar inquieto e tristonho. Teve pena da criança e procurou acercar-se dela. Conversou com o menino, deu-lhe uma boa literatura, e, pondo-o no seu carro, convidou-o para ir até um albergue para recuperação de viciados. No dia seguinte, disse ao encarregado: preciso voltar às minhas tarefas; deixo aqui recursos para o custeio desse tratamento, por algum tempo. Peço que o menino seja orientado e cuidado. Voltarei para acertar contas e conversar com ele.”E a pergunta que não quer calar: “Quem dentre todos , te parece que se fez próximo do menino desorientado?. Quem lhe fez vivenciar um dia incomum? (adaptação de Julio Andrade Ferreira, com pequenas modificações).

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

EDIFICADOR DE PONTES


Alguém já disse, que muitas pessoas,  em boa parte do tempo, quando falam, estão apenas jogando palavras ao vento, sem nenhuma conseqüência, falando por falar, mas, na realidade, nada comunicando. Modernamente, com a participação da televisão, podemos acrescentar que estariam, apenas, repetindo chavões da mídia. O poder das palavras é, não obstante, destacado, quando se compara  a língua com um leme, capaz de dirigir um grande transatlântico, ou, com uma tocha de fogo capaz de incendiar uma floresta, assim como o autor bíblico: “... nós pomos freio nas bocas dos cavalos, para que nos obedeçam; e conseguimos dirigir todo o seu corpo.Vede também as naus que, sendo tão grandes, e levadas de impetuosos ventos, se viram com um bem pequeno leme para onde quer a vontade daquele que as governa... Vede quão grande bosque um pequeno fogo incendeia. A língua também é um fogo; ... “.
Aqui chamo de palavras grávidas aquelas que, juntamente com a expressão verbal, carregam subjacentes, pensamentos, sentimentos e emoções intencionadas, as quais, num espectro negativo são capazes de contaminar quem as pronuncia (“o que contamina o homem é o que sai da sua boca”), ou, por outro lado, positivamente, edificar aquele a quem é dirigida. Exemplos da primeira são a calúnia, as agressões verbais, que uma vez vocalizadas, são espalhadas pelo vento da discórdia, tornando praticamente impossível voltar-se atrás; e, da segunda uma palavra de estímulo, o elogio sincero. No dia-a-dia, todos já provamos o veneno de uma crítica injusta, na hora e no lugar errados, e, por outro lado, o bálsamo de uma palavra amiga, na hora e no lugar certos.
A dignidade das palavras é assinalada por Joshua Heschel (um de meus autores preferidos): “As palavras são mais que sinais, mais que combinação de letras. As letras são unidimensionais e só têm uma função: representar os sons. As palavras, pelo contrário, têm plenitude e profundidade, são multidimensionais. É verdade que usamos as palavras para representar as coisas ou como veículos de nosso pensamento e idéias, para nos comunicar com os outros...Distingamos entre substância e função, entre a natureza essencial de uma palavra e sua função, o modo de como nós a usarmos ...”.E destaca o uso das palavras na oração: “o caráter do ato da oração depende da relação recíproca entre a pessoa e a palavra. Não basta, por isso, articular uma palavra. A não ser que uma pessoa entenda que a palavra é mais forte que a vontade, a não ser que saibamos abordar a palavra com toda a alegria, toda a esperança e toda a tristeza que ela possui, dificilmente haverá oração. As palavras não devem cair de nossos lábios como folhas mortas de outono. Elas devem elevar-se como aves do nosso coração para o espaço infinito da eternidade. Quando o coração, cooperando com as forças da fé contra o tumulto e a ansiedade e o barulho exterior, consegue manter viva a tranqüilidade e a solidão interior, sentimos como as palavras podem ser grandes.”
Uma bela comparação para a importância das  palavras, encontro na imagem de um edificador de pontes; pontes pela qual transitamos ao nos comunicar. Por esta ponte das palavras, circulam além de pensamentos, as cargas das emoções e dos desejos associados. Ao compartilhá-la, o sábio pontifica: Tomo alguém pela mão e conduzo até a janela. Abro-a e aponto para fora. Não tenho ensinamento algum, mas conduzo um dialogo” (Martim Buber). Algumas palavras grávidas, depois,  passam a fazer parte do acervo comum da humanidade, tal como no discurso de Luther King: Eu tenho um sonho!”.
Finalmente, gostaria de também ser reconhecido, como prestador de serviço dentre os  edificadores de pontes, da amizade, da paz ( “felizes os pacificadores, porque assim, serão chamados filhos de Deus”).

sábado, 26 de janeiro de 2013

A INSATISFAÇÃO LATENTE E A ALEGRIA DETERMINADA



Passados poucos dias de comemorações do final de ano, oportunidade em que conjugamos em uníssono, votos de muita paz e alegria, dentre outros, e, já começa a desabrochar aqui e ali, raízes de uma insatisfação latente. Descontada a insatisfação com os outros (um risco inerente a qualquer relacionamento humano, mas que pode ser agravada se levado a termos muito pessoais), e, com as circunstâncias, remanescem raízes de uma insatisfação latente para conosco mesmo, que num  extremo, vem associado com uma baixa auto-estima, e pode levar a depressão. A esta se referia Pascal: “Nada é tão insuportável ao homem quanto estar em pleno repouso, sem paixões, sem afazeres, sem divertimentos, sem aplicação. Ele sente, então, o seu nada, o seu abandono, a sua dependência, a sua impotência, o seu vazio. Logo emergirá do fundo de seu ânimo o tédio, a obscuridade, a tristeza, a aflição, o desgosto, o desespero”. A insatisfação latente, até certo ponto é também fonte de criatividade, conforme destacou  na atualidade, o psicólogo e professor, Jesuíta Franco Imoda, que “além da privação de não se ter o que se quer, o indivíduo não apenas não possui aquilo que deseja, como não é aquele que quer ser (relação de tensão entre ser e dever ser, real e ideal, um mundo de aspirações infinitas e um mundo de dados e fatos)...A história humana, individual e coletiva ...  está toda marcada por este atributo de insatisfação que, fazendo experimentar a privação, impulsiona a procura por sempre mais. E faz parte da sabedoria popular a ponderação de que, quanto mais se tem, mais se quer ter, e de que não há limites para o desejo humano. A posse, o sucesso e a realização das mais altas metas humanas não põem fim à busca e à inquietude do coração”. Também C.S.Lewis, relaciona a insatisfação com a busca da verdade: “na religião, da mesma forma como na guerra e tudo o mais, satisfação é uma das coisas impossíveis de se conquistar enquanto procuramos por ela. Mas quando você busca a verdade, é possível que ache satisfação no final. Se você busca a satisfação, não encontrará nem a satisfação nem a verdade – só o que encontrará será um sabão escorregadio e falsas esperanças. Enfim, encontrará apenas desespero”. (de Mero Cristianismo). Santa insatisfação, é aquela que o apostolo Paulo identifica em si mesmo, uma raiz irrigada pelo conflito na alma, entre nossa velha natureza carnal, e a nova natureza redimida, e que ele colocou nos seguintes termos: o que eu faço - o que eu detesto,  o mal que não quero; o que eu não faço - o bem que eu prefiro.
Na contramão da insatisfação tem-se a alegria determinada. É uma santa alegria, aquela que o mesmo apostolo nos exortou: “alegrai-vos”! Até mesmo na adversidade, “tende por bom ânimo o sofrer aflições, pois a aflição produz perseverança....”. Vale ressaltar que ele o faz, em meio às inúmeras perseguições, acusações e prisões, que padeceu, e que assim resumiu: “Dos judeus recebi cinco vezes os quarenta golpes menos um. Fui flagelado três vezes; uma vez fui apedrejado”. Certamente que esta alegria não é uma emoção que devemos buscar, ou uma virtude a ser cultivada, e, não se reduz a um sentimento que vai e vem, de acordo com as circunstâncias. Assim as Escrituras não nos dão ordens quanto ao que devemos sentir. Nem sempre podemos decidir ter essa ou aquela emoção. Alegrar-se é assumir a postura de que vale a pena viver.” Deus não ordena que nos alegremos por todas as situações, mas em todas elas. A Biblia não diz “sinta-se feliz”, mas antes adote uma postura alegre de viver. Em vez de deixarmos nosso humor oscilar de acordo com as circunstâncias, precisamos reconhecer que Deus se acha por cima do que acontece, e está ao nosso lado e cuida de nós em meio a tudo por que passamos”. Em certa ocasião, Paulo afirmou que estava entristecido, mas sempre alegre. Alegria determinada é uma decisão, um testemunho, uma terapia, e um hábito que podemos cultivar”. É com este espírito que podemos celebrar cada amanhecer, repetindo com o salmista:Este é o dia que o Senhor fez; regozijemo-nos e alegremo-nos nele” .

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

“QUEM LÊ MUITO E ANDA MUITO, SABE MUITO E VIVE MUITO”



Antes só do que mal acompanhado”, é o dito popular. Mario Quintana, atualiza, “O livro traz a dupla felicidade de a gente poder estar só, e, ao mesmo tempo bem acompanhado”. Também Imanuel Kant, já antigamente, prescrevia: “uma leitura prazerosa é tão útil a saúde como o exercício do corpo”. E, Miguel de Cervantes, criador de Dom Quixote, o inolvidável cavaleiro, descrito sempre em movimento, enquanto desbrava horizontes, destaca “quem lê muito e anda muito, sabe muito e vive muito”. Como leitor compulsivo, desde a infância, e, mais recentemente um assíduo caminhante, torço para que, possa também desfrutar destes benefícios correlatos.
A importância do exercício é destacada se considerarmos que o corpo humano foi projetado para movimentar-se. Ao caminhar estamos desta forma valorizando o corpo, e, propiciando-lhe oportunidades de exercitar suas  funções,  na falta do que buscamos através de medicamentos, remediar funções danificadas pela falta de exercício. A falta de atenção ao corpo, ou seu mau uso, tem ensejado muitos problemas de saúde, sendo o estresse um dos que estão mais em evidência, na atualidade, e com o registro de que “a maioria de nós viverá tempo o bastante e bem o bastante para adoecer seriamente de uma enfermidade relacionada ao estresse. E, dado que a maioria de nós prefere que isso aconteça antes tarde do que cedo, vale a pena adquirir conhecimento sobre as ligações entre estresse e doença.” (de “O fim do estresse como nós o conhecemos”). Aprendi sobre a perfeição da fantástica fábrica do corpo humano, que devidamente exercitado, produz tudo o que a moderna industria farmacêutica posteriormente, copia e sintetiza, e, na melhor das hipótese reforça e/ou concorre para restabelecer seu equilíbrio original. Se, antes eu caminhava para manter as taxas de saúde no nível recomendado, atualmente, tenho consciência de estar antes, dando a devida atenção ao corpo. Assim também, estou valorizando o tempo, diariamente, dedicado para caminhar, para o que concorrem ainda as belezas dos parques em Curitiba, que são convidativas.
A oportunidade da leitura pode ser avaliada ao considerarmos que ela exercita a imaginação, fonte privilegiada de criatividade. Como subproduto, na companhia de um bom livro, podemos encontrar subsídios para ter um crescimento sustentado, ao assimilar regularmente verdadeiras pílulas de sabedoria, compartilhadas por quem entende, e, que também servem como placas de sinalização indicando-nos o caminho para uma vida mais verdadeira, e mais consciente. Alguém já disse que ler é como “caminhar sobre os ombros de gigantes”, do pensamento, que desta forma deixaram registrados suas melhores intuições da arte de viver Um bom livro é também como uma pérola de muito valor, a ser visto e revisto, com admiração e avidez. O hábito de ler, que obviamente não se limita a um gênero, mais inclui livros de arte, filosofia, ciências, etc., estimula a criatividade, misto da intuição e da razão, e, descrita como “a capacidade humana de escolher algumas dentre as várias possibilidades preexistentes e mesclá-las, criando algo inusitado”.
A concorrência da televisão. Se o hábito de ler, estimula a criatividade, seu concorrente moderno, cada dia mais difundido e absorvente, qual seja o hábito de ver televisão, que, quase dispensa ao telespectador seu concurso, e, quando levado ao extremo, pode mesmo conformar adictos de televisão. Um dos resultados de ver compulsivamente televisão é, que, crescentemente, nos flagramos,  apenas repetindo e retroalimentando-se de manchetes e chavões da mídia, consubstanciando uma mentalidade de rebanho, o meio funcionando como um “ópio das massas”, parodiando um dito famoso; e, como toda droga, vicia. Como agravante ainda, tem-se que “aquilo que ocupa com freqüência nossa mente, termina definindo quem somos”. Aqui cabe o conselho bíblico, “não vos conformeis com este mundo (tomar a forma naquilo que tem de vulgar) mas, antes, transformai-vos pela renovação da vossa mente “. Por oportuno, recebi algum tempo atrás, uma destas postagens, que circulam pela internet, sob o título “O estranho em nossa família” que relata uma parábola moderna, de como um estranho, vem viver dentro de nossas casa, e, que seguidamente se torna o principal narrador, e mesmo, instrutor, sendo a família apenas os reservas, do qual destaco: Mantinha-nos enfeitiçados por horas com aventuras, mistérios e comédias...Fazia-me rir, e me fazia chorar. O estranho nunca parava de falar...Meu pai dirigia nosso lar com certas convicções morais, mas o estranho nunca se sentia obrigado a honrá-las...Passaram-se mais de cinquenta anos desde que o estranho veio para nossa família.Seu nome? Nós o chamamos Televisor.” Também me incluo entre aqueles que estão crescentemente trocando horas de televisão, o que muitas vezes significa de mesmice, por horas de pura criatividade, ao ensejo em que imergimos no mundo da leitura. De quebra, livro-me ainda das propagandas consumistas, massificadoras e repetitivas ad náusea, que embalam programas televisivos.
Ler e caminhar, enfrentam as resistências naturais, consoante a lei maior da entropia crescente, ou, tendência para a mesmice, a inércia, e, popularmente distorcida como a lei do menor esforço, para não dizer da preguiça. Ler e caminhar, entretanto, muito além de opções saudáveis de ocupar o tempo, são necessidades para o desenvolvimento e/ou manutenção de uma “musculatura” saudável da mente e do corpo. Nestes primeiros dias do ano, congratulo-me com os amigos pelo presente comum da vida, que nos permite continuar caminhando e bebendo nas fontes de saber, consubstanciadas nos bons livros.