quinta-feira, 24 de março de 2016

ANTES QUE SE ROMPA O CORDÃO DE PRATA...



PALAVRAS DE STEVE JOBS, ao se aproximar do fim (24/02/1955 – 05/10/2011) -Eu alcancei o auge do sucesso no negócio. Aos olhos dos outros, minha vida tem sido o símbolo de sucesso. No entanto, além do trabalho, tenho pouca alegria. Finalmente, a minha riqueza é simplesmente um fato a que estou acostumado. Agora eu estou na cama do hospital, lembrando toda a minha vida, e percebo que todos os elogios e a riqueza da qual estava tão orgulhoso, é insignificante para a iminência da minha morte. No escuro, quando eu vir a luz verde e ouvir o som do equipamento de respiração artificial, eu posso sentir o sopro da morte que se aproxima. Só agora eu entendo, uma vez que você acumulamos dinheiro suficiente para o resto de nossas vidas, devemos perseguir outros objetivos que não estão relacionadas com dinheiro. Tem que ser algo mais importante: por exemplo, histórias de amor, arte, sonhos de infância ... O não parar de perseguir a riqueza só pode fazer uma pessoa como eu. Deus fez um caminho para que possamos sentir o amor em seu coração, e, não ilusões construídas para a fama ou dinheiro como eu fiz na minha vida e as coisas que não posso levar comigo. Eu posso ter lembranças de amor, que me fortaleceram. Esta é a verdadeira riqueza que irá acompanhá-lo, dará força e luz para seguir em frente. O amor pode viajar milhares de quilômetros e assim a vida não tem limites. Vá para onde você quer ir. Esforce-se para alcançar seus objetivos. Tudo está em seu coração e em suas mãos. Qual é a cama mais caro do mundo? a cama de hospital. Se você tem dinheiro, você pode pagar alguém para conduzir o seu carro, mas você não pode pagar alguém para sentir sua doença. As coisas materiais perdidas podem ser encontradas. Só há algo que não pode ser encontrado quando se perdeu: a vida.”
ULTIMOS DESEJOS DE ALEXANDRE O GRANDE (20/07/356 – 10/06/323 AC) -: “Quando à beira da morte, Alexandre convoca seus generais e seu escriba e relata a estes seus três últimos desejos:  que seu caixão seja transportado pelas mãos dos mais reputados médicos da época; que seja espalhado no caminho até seu túmulo, seus tesouros conquistados (prata, ouro, pedras preciosas…); que suas duas mãos sejam deixadas balançando no ar, fora do caixão, a vista de todos. Um dos seus generais, admirado com esses desejos insólitos, pergunta a Alexandre a razão destes. Alexandre explica então: quero que os mais iminentes médicos carreguem meu caixão, para mostrar aos presentes que estes NÃO têm poder de cura nenhuma perante a morte; quero que o chão seja coberto pelos meus tesouros para que as pessoas possam ver que os bens materiais aqui conquistados, aqui permanecem; quero que minhas mãos balancem ao vento, para que as pessoas possam ver que de mãos vazias viemos, de mãos vazias partimos.”
QUANDO ESTAMOS DE FRENTE PARA A MORTE, nada mais tem importância.  Alguém já observou que, “quando os passageiros dos vôos da tragédia de 11 de setembro de 2001 em Nova York foram feitos reféns pelos terroristas, eles não usaram telefone celular para ver como os negócios estavam indo; apenas disseram “eu te amo” aos seus entes queridos”.
Estas expressões de desalento, que são como que um desabafo, daqueles que já foram considerados símbolos de sucesso e poder, bem como dos passageiros anônimos do vôo da morte, estão em sintonia com o autor de Eclesiastes citado no final.
ATÉ ENTÃO, pode-se imaginar, que caminhavam sem maiores preocupações com a finitude desta vida, ao ensejo em que fortaleciam naturalmente suas respectivas identidades. Por identidade, entende-se o “traço característico de cada ser, que distingue um individuo de outro; o homem constitui e modela sua identidade ao tomar contato com o mundo e com a cultura humana”. Alguns destaques na sua conformação:
Diferentemente dos demais animais, nascemos totalmente dependentes - normalmente dos pais - para sobreviver; logo passamos à dependência parcial, mas já buscando alcançar a independência, e, com ela, se possível a autosuficiência.
Também na infância somos o foco das atenções, e, parece que tudo é feito em prol de nós mesmos, com a motivação de nos agradar. Na idade adulta lutamos para alcançar e permanecer no centro das atenções. Finalmente, na velhice, nos resignamos em circular na periferia do centro de atenções.
Desenvolvemos crescentemente o amor próprio, juntamente com amor a alguns poucos mais próximos, com destaque para a família e amigos, e, simultaneamente o apego material às posses conquistadas. Mais recentemente, este amor próprio é conscientemente inflado com reforços buscados na farmacopeia da autoajuda - autoestima, autoconfiança, autosegurança, auto-expressão.  “É fundamental ter autoconfiança e auto-estima. No entanto, há um ponto em que esses traços de personalidade deixam de ser virtudes. É quando uma pessoa se sente mais importante do que as outras ou acima de quaisquer críticas. É aquela que sabe tudo e sente uma constante necessidade de se vangloriar. Em resumo, é o ponto em que as pessoas deixam de ser humildes” (Stephen Covey).
Do egoísmo  à soberba. O egoísmo é como um “buraco negro” que tudo absorve, e, nada deixa escapar. Soberba é uma manifestação negativa de orgulho, jactância, presunção, na pretensão de superioridade sobre as outras pessoas. É a arrogância, a altivez, a autoconfiança exagerada. Soberbo é aquele indivíduo considerado orgulhoso, altivo, que está dominado pela arrogância. É considerado um dos sete pecados capitais, e contra ela se prega a virtude da humildade, da modéstia; está entre as coisas que Deus mais odeia no homem (coisas que o Senhor odeia... Olhos altivos.,. - Provérbios 6:16-19.) Juntamente com a soberba, “atualmente, nota-se com maior clareza a tendência de ser exaltada uma certa agressividade, uma determinada confiança própria, justificando-se o uso que um indivíduo esteja fazendo de si mesmo e de sua personalidade, procurando colocar-se em posição de evidencia, ou, procurando impor-se.” (Lloyd-Jones)
Nossa identidade é ainda impactada pelo desenvolvimento da tecnologia moderna. “Estamos pagando um altíssimo preço para vencer no mundo egoísta e impessoal da ciência e da tecnologia... Nossa identidade profissional muitas vezes tem mais importância que nossas amizades. A carreira tende a ter prioridade sobre o caráter. A vida em família paga caro quando uma sociedade inteira acredita que a vida profissional reina suprema, e ambos, marido e mulher, pensam que precisam estar no mercado de trabalho para que a vida tenha mais sentido.” (James Houston)
LEMBRA-TE PORÉM!Memento homo quia pulvis est et in pulvere revertere” (lembra-te que és pó e ao pó voltarás). “Antes que se rompa o cordão de prata, e se quebre o copo de ouro, e se despedace o cântaro junto à fonte, e se quebre a roda junto ao poço, E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu. Vaidade de vaidades, diz o pregador, tudo é vaidade.” (Eclesiastes 12:6-8). “Fiz para mim obras magníficas; edifiquei para mim casas; ... também tive grandes possessões ..., mais do que todos os que houve antes de mim em Jerusalém. Amontoei também para mim prata e ouro, e tesouros dos reis e das províncias;... E fui engrandecido, e aumentei mais do que todos os que houve antes de mim em Jerusalém; perseverou também comigo a minha sabedoria. E tudo quanto desejaram os meus olhos não lhes neguei, nem privei o meu coração de alegria alguma; mas o meu coração se alegrou por todo o meu trabalho, e esta foi a minha porção de todo o meu trabalho. E olhei eu para todas as obras que fizeram as minhas mãos, como também para o trabalho que eu, trabalhando, tinha feito, e eis que tudo era vaidade e aflição de espírito, e que proveito nenhum havia debaixo do sol. (Eclesiastes 2:4-11)
O CAMINHO MAIS EXCELENTE DA HUMILDADE: SENHOR, o meu coração não se elevou nem os meus olhos se levantaram; não me exercito em grandes matérias, nem em coisas muito elevadas para mim. Certamente que me tenho portado e sossegado como uma criança desmamada de sua mãe; a minha alma está como uma criança desmamada.” (Salmos 131:1,2). Com o reconhecimento do CRIADOR: Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus; Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados; Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra; Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos; Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia; Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus; Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus; Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus; Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Mateus 5:3-11


P.S. posts afins: “Ensina-me a contar os dias” em 19.04.2015; “Remindo nosso tempo”, em 20.12.2012



sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

A FERA ADORMECIDA



A Fera Adormecida, que não tem nada de Bela Adormecida, sendo mesmo a antítese do belo, põe em evidencia o que de pior tem a humanidade, quando a fúria de uma multidão ensandecida emerge como protagonista de uma tragédia pública como num linchamento. A revista Veja de 10/02/2016, sob o título "MATARAM A MULHER?" A GÊNESE DO LINCHAMENTO QUE CHOCOU O BRASIL”, publicou uma matéria de André Petry, sobre a morte trágica de uma mulher, aos 33 anos, mãe de duas meninas, uma de 12 anos e a outra de apenas 1 ano, residente no Guarujá, vítima inocente da fúria assassina de uma turba enlouquecida, e transtornada. Alguns destaques da referida matéria publicada:
Um fato banal mas que se revelou fatal. “No dia em que seria espancada até a morte por uma multidão furiosa, Fabiane Maria de Jesus acordou ansiosa para estrear sua nova aparência. Cansada da longa cabeleira negra, mandara cortá-la à altura do pescoço e, na noite anterior, logo que o marido saiu para seu trabalho noturno, resolveu mudar a cor dos cabelos. Descoloriu-os com água oxigenada e pintou-os de loiro. Eles ganharam uma cor de fogo, entre o vermelho e o amarelo.” Esta nova aparência foi associada com aquela do boato que já circulava na comunidade em volta sobre a ação de “uma mulher que, diziam, andava sequestrando crianças para arrancar-lhes o coração em rituais de magia negra...
A força diabólica dos boatos e da credulidade apressada de uma população desamparada. “No dia 24 de abril, quinta-feira, apareceu um alerta tenso no Facebook, a rede social que Morrinhos inteiro conhece e acessa. A sequestradora fora vista num bairro ali perto. O perigo estava próximo...No dia seguinte, a página do serviço que havia tempos denunciava crimes e dava dicas de segurança no Facebook, informou que “uma mulher está raptando crianças para realizar magia negra... Durante toda essa semana recebemos diversas mensagens de seguidores sobre o fato. Se é boato ou não, devemos ficar alertas... O aviso provocou uma cascata interminável de reações de raiva, medo ou ameaça. Um usuário disse que pensava que a história da sequestradora era boato, mas interpretou o post como uma confirmação. Outro perguntou onde havia fotos “desse monstro”. Outro disse que se ela aparecesse em Morrinhos ia “tomar só rajada, essa cachorra”. Outro pediu uma foto “dessa bruxa” e avisou que “ela vai ter o que merece”. Outro disse que o caso estava deixando “pais e filhos assustados aqui no bairro”. Outro avisou que, se a mulher aparecesse no seu bairro, ela seria linchada, a “vagabunda”, “safada”, “essa pilantra”, “coração de pedra”, “sua possuída”. Outro avisou que a mulher era procurada no Paraná, onde havia tentado sequestrar “uma criança em uma creche em Pontal do Paraná”. Outro, com uma certeza cheia de pontos de exclamação, informou que “acabaram de sequestrar uma criança no bairro ... !!!!!!!”. Outro comentou que “tem que matar essa mulher”. Outro avisou que “falam que ela tem um Fox preto”. Outro aproveitou para dizer que uma mulher vestida de enfermeira andava espetando uma seringa nas pessoas para infectá-las com o vírus HIV. Outro disse que “na última terça-feira” tinham encontrado duas crianças mortas noutro bairro, “ambas sem o coração”. Outro garantiu que a sequestradora “pegou um menino daqui do nosso bairro”. As conversas se prolongaram... em algum momento, uma voz feminina gritou a senha para o massacre: ‘É eeeeeelaa!’. A multidão caiu em cima da vítima...”
A covardia extrema: de um lado a multidão, do outro uma vítima indefesa.Uma das testemunhas estima que havia entre 200 e 300 pessoas no ato de linchamento. Outras testemunhas estimam em 1.000 e até 3.000 pessoas...Nem todas ali tinham certeza de que a mulher linchada era a criminosa, mas contam-se nos dedos os que tentaram defende-la. Em sua defesa alguns alegam que nada podiam fazer, pois a multidão estava enraivecida, e, caso fossem fazer a defesa da mulher, com toda a certeza seriam agredidas.
A triste estatística: “A Justiça Popular no Brasi, calcula que, nos últimos sessenta anos, entre 1 milhão de brasileiros participaram de um linchamento ou tentativa de linchamento. E, o articulista pontifica: O linchamento não é só coisa de desordeiros. Também envolve gente que está numa busca desesperada por ordem e segurança, gente que está exausta com a incompetência do poder e das instituições para garantir a paz social”.
Agora desejamos continuar, destacando mais alguns pontos comuns neste tipo de violência:
Uma fúria incomum que não sabe nem por quem nem porquê. Foi mais um despertar da fera adormecida, ou besta de índole criminosa como sói acontecer em situações como esta. Impulsionado e escondido na multidão, pode ser identificada também em explosões de torcidas organizadas de futebol extrapolando os limites da empolgação; protestos públicos originalmente pacíficos, subitamente transtornados, por baderneiros mascarados infiltrados, e, em confronto com a Policia; etc.
Em todas, são elementos comuns:
Turba demagoga arrastada facilmente.Turba define-se como “multidão em movimento ou desordem, potencialmente violenta; turbamulta, turbilhão. Multidão desordenada, geralmente com a intenção de fazer justiça com as próprias mãos. A “turba” é um fenômeno social primitivo das cidades pré-capitalistas. Pode-se dizer que a “turba” era formada pelos pobres urbanos, assalariados ou não, que, em tumulto ou em rebelião, saíam pelas ruas fazendo arruaça e saques e reivindicando, na maioria das vezes, o restabelecimento de ordem anterior ou o cumprimento de normas preestabelecidas.” É sempre oportuno  destacar, que a estridência da turba não é a voz do povo, mas antes seu simulacro
Os muitos espectadores omissos. Em outra tragédia afim, na mesma reportagem, somos informados de que em N.Y. “uma jovem de 28 anos foi atacada por um desconhecido que lhe deu duas facadas nas costas e fugiu. Pouco depois, o criminoso voltou, encontrou a jovem no chão e esfaqueou-a de novo, estuprou-a e levou 49 dólares. ... 38 vizinhos ouviram seus gritos e nada fizeram. Posteriormente, pesquisadores, tentando entender o absurdo da falta de solidariedade, fizeram uma constatação surpreendente: quanto mais gente estiver no local de um crime ou acidente, menor a chance de a vítima ser socorrida. O paradoxo não decorre da indiferença humana ao sofrimento alheio, mas da redução de responsabilidade individual que todos nós sentimos quando estamos em multidão.
O caldeirão fatal: mistura de reações de raiva, de medo, e de defesa frente a uma ameaça aparente, que ao final irá se revelar falsa; açodamento em fazer justiça logo, e, com as próprias mãos; covardia inerente à turba; insensibilidade de outros (se não é comigo, não me atinge), que é também uma forma de indignidade; e, não por último os perigos de tentar se conformar e agradar às multidões, mesmo em suas marchas de insensatez, em detrimento da consciência pessoal. Não passa desapercerbido também, a expressão aparvalhada de alguns dos réus, como a demonstrar seu envolvimento circunstancial, não obstante, nem por isso menos grave. Finalmente, que, por trás de tudo isto, está o Mal (*), esta realidade transcendental, que se possessiona da turba,  consubstanciando o que aqui nos referimos aqui como despertar da fera adormecida, e, que uma vez desperta, só sossega com o derramamento de sangue.
Concluindo, junto com a revolta com este crime hediondo, remanesce o desejo de que a mão da justiça se faça pesar sobre os criminosos - incitadores e participantes diretos das agressões - identificados, e, sirva de alerta doravante, quando na iminência de novo despertar da besta adormecida; que o tribunal da consciência seja um justo juiz dos participantes anônimos e dos omissos;  e, não por último, que a memória de mais uma vítima, a cidadã brasileira Fabiane Maria de Jesus, cujo nome já define o nobre pertencimento, seja também um marco eficaz contra esta barbárie cruel e covarde  que envergonha toda uma Nação.


(*) Sobre o Mal, ver também em “O que há de errado com o mundo?” (post em 19 set 2015). 

sábado, 23 de janeiro de 2016

POR UMA FÉ DESCOMPLICADA




O senso comum que se tem de fé, é de uma forma de acreditar no que não vemos, ou, acreditar contra toda a probabilidade, como por exemplo, a crença numa cura milagrosa. Também a religião se definiria como a crença na existência de um poder ou princípio superior, sobrenatural, do qual depende o destino do ser humano e ao qual se deve respeito e obediência.
Dentre os céticos, a fé é um tipo de conhecimento menos verdadeiro, que aquele decorrente da razão, este corroborado pelo exame objetivo, como definido pela ciência. Por fim, há aqueles que propugnam pelo poder de exercitar a fé na Fé, assim como em “O Segredo” (“Você exerce um poder de atração sobre tudo o que acontece em sua vida. Os acontecimentos não vêm por acaso, mas como produto de causa e efeito. Portanto, o que você é e o que você faz atuam como um imã na sua vida, que atrai tanto coisas boas quanto coisas ruins”).
A fé cristã transcende o senso comum.  Uma forma descomplicada de entendê-la, é comparando-a com as etapas envolvidas no estabelecimento de uma relação significativa de amizade entre duas pessoas: 
1) primeiro, a pessoa adquire confiança e passa a acreditar de que vale a pena conhecer uma outra que lhe é ainda estranha, em particular graças aos esforços de quem conhece ambos, e, dá testemunho que o contato será proveitoso. Todos somos testemunhas de como facilita quando se é apresentado por um terceiro, amigo comum, ensejando oportunidade para baixamos a guarda da desconfiança natural do desconhecido;
2) na sequência, alguns relacionamentos desdobram-se em compromissos de confiança e lealdade para experimentar, juntas, desdobramentos afins da vida. Neste sentido, é essencial que haja mútua receptividade que levam a baixar as barreiras impostas pela falta de conhecimento até então. Este acontecimento pode, inclusive, envolver uma dolorosa ruptura de ilusões, porque a simulação e o fingimento devem ficar de lado, para que floresça a confiança mútua, e, tudo isto leva tempo. Ademais, as relação mais profundas nunca se ganham pelo esforço, senão, que são o resultado de um compartilhar mútuo que é espontâneo.
3)a partir daí, quando duas pessoas avançam para a comunhão, a distinção entre elas é mantida, mas há também um compartilhamento profundo de seus pensamentos, sentimentos e objetivos. Cada uma reconhece o pensamento ou sentimento como seu, embora saiba, com alegria, que o outro sente ou pensa da mesma forma. Mas quando a comunhão progride para a união, o sentido de “meu” e “teu”, com frequência, desaparece. O que passa a existir é apenas o “nosso” e, embora o “meu” continue significando o meu, ele já não implica “não teu”. Esta condição pode ser vista no casamento, quando os cônjugues se tornaram verdadeiramente um. Por isso, ainda, o casamento pode ser usado como imagem da relação entre Cristo e sua Igreja, e entre  a alma e Deus. “(Dallas Willard).
De forma similar, quando vista em sua totalidade, a fé pode ser descrita como o processo pelo qual formamos uma relação autêntica – pessoal - com Jesus Cristo, e, inclui os seguintes passos:
1) adquire-se confiança ao se crer que as asseverações de Cristo são acreditáveis, principalmente devido à qualidade do testemunho acerca delas do passado. A fé como confiança nos informes sobre Jesus Cristo, pode ser vista assim como a primeira etapa na fé, e inclui a disposição para ouvir o Evangelho, e escutar o testemunho daqueles que já entraram numa relação, dita salvífica, com Jesus Cristo.
2) sobre essa base, uma pessoa se compromete doravante, a confiar nEle nas várias situações da vida. Uma coisa é afirmar que as asseverações de Cristo durante os últimos dois mil anos são válidas, mas é algo muito distinto, dizer que eu confiarei nele, de hoje em diante, passe o que passar. Jesus estava confiante de que seu Pai amoroso providenciaria para as necessidades de seus filhos (Aqueles que têm pequena fé vivem em ansiedade, mas os que confiam em Deus têm a garantia de que Deus proverá para suas necessidades - Mt 6.25-34). Agora chegamos a uma segunda etapa crucial na qual nossa decisão é seguir sozinhos ou viver a vida com Cristo, escolher uma existência centrada em nós mesmos, ou, em Cristo.  Não há outra maneira de entrar numa relação significativa com outras pessoas a não ser que abramos espaço para elas dentro de nossas vidas; com Deus é o mesmo. “Uma vez que formamos uma relação sem reservas, nosso compromisso incondicional abre possibilidades enormes de crescimento. Quando este crescimento aberto começa a levar-se a cabo, seu fruto é a intimidade. A verdadeira intimidade é a meta mais alta de cada relação interpessoal significativa. Lográ-la não é questão de quanto tempo nem quanto têm compartido duas pessoas, senão de quão profundamente satisfazem as necessidades uma da outra. Não é uma questão de sentimentalismo senão de intensidade.”
3) da comunhão que resulta quando se põe a vida em Suas mãos, chega-se a uma identificação com Cristo, assim como expresso pelo apostolo Paulo:  ... e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim”. Gálatas 2:20.  Uma comunhão com Ele em amor que molda a estrutura mesma da personalidade, que permite que Ele viva através de nós no presente. É a essa união que vai além da comunhão, a que Paulo se refere quando afirma que os redimidos possuem a mente de Cristo, assim como quando nos exorta a termos essa mesma mente. Jesus orou, pedindo que os fiéis experimentassem essa união: “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um”. João 17:22.
Conclusão. Quando vista em sua totalidade, a fé pode ser descrita como o processo pelo qual formamos uma relação autêntica – pessoal, honesta e crescente - com Jesus Cristo; inclui: a fé como confiança nos informes sobre Jesus Cristo; a fé como compromisso com a veracidade de Cristo; a fé como comunhão com a realidade de Cristo.
A fé pode ser vista ainda como nossa inclinação para Deus, como resposta à  inclinação amorosa de Deus para nós, que é graça.
A fé inscreve-se no propósito central da criação do homem, a saber, que fomos criados para sermos amigos de Deus e seus companheiros de trabalho (“Vocês mostram que são meus amigos quando fazem o que mando. Não os chamo de empregados, porque os empregados não entendem o que o patrão pensa ou planeja. Eu os chamo de amigos porque contei a vocês tudo que ouvi de meu Pai”. João 15:14,15; “Porque nós somos cooperadores de Deus...” 1 Coríntios 3:9).

P.S. A fé diz respeito à necessidade mais profunda da natureza humana: nem a ânsia de prazer (Freud), nem a ânsia de poder (Adler), nem ainda a ânsia de significado (Viktor Frankl), senão a ânsia de relacionar-se. Toda nossa fome de afeto, de reconhecimento, de significado, somente se satisfazem através da relação e, ao fazer que a fé seja central, essa é justamente a maneira com que as Escrituras dizem que podemos ser salvos. Podemos estar unidos ou não com a família ou os amigos, mas o evangelho declara que, com toda certeza, podemos estar unidos com Cristo. “


Fonte: La experiência cistiana de la salvacion, de William Hull.

domingo, 20 de dezembro de 2015

JESUS CRISTO - REI DOS REIS, E SENHOR DOS SENHORES - É A PERSONALIDADE DE TODOS OS TEMPOS



Mais que a Personalidade do Ano, ou do século, ou mesmo do milênio, Jesus Cristo é a personalidade de todas as épocas, e, Senhor  do Universo!
Nasceu numa humilde manjedoura e morreu numa rude cruz. Quando você pensa em biografias de pessoas importantes, quer artistas, atletas, cientistas ou políticos, nunca há qualquer sugestão de que eles nasceram para morrer...Jesus veio para morrer. Essa é a razão por que cada um dos evangelhos retrata Jesus insistindo em que viera com este propósito. Entretanto Jesus acrescentou: “não morrerei como um mártir. Ninguém pode tirar a minha vida de mim. Eu mesmo a entrego. Tenho autoridade para entrega-la e tenho poder de reavê-la”. Ele não se classificou como um mártir, e sim como um sacrifício. Ele não era apenas a vítima de uma conspiração perniciosa ou de um erro histórico. Ele era um sacrifício voluntário. Além disso, nas biografias comuns, uma vez que as pessoas foram colocadas tranquilamente no sepulcro, elas permanecem lá. Jesus, porém, veio para morrer e ressuscitar. Esses  dois acontecimentos, a morte e a ressurreição de Jesus , são centrais para tudo que a Biblia diz sobre ele e para todo o propósito de sua vinda... “ (de “O Deus presente”, de D.A. Carson)
Nasceu para ser Rei. “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu: O GOVERNO ESTÁ SOBRE OS SEUS OMBROS; e o seu nome será: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz; e PARA QUE SE AUMENTE O SEU GOVERNO e venha paz sem fim sobre o trono de Davi E SOBRE O SEU REINO, para o estabelecer e o firmar mediante o juízo e a justiça, desde agora e para sempre”. “A revelação deste Reino poderia ser feita de duas maneiras: uma seria inaugurá-lo com grandes demonstrações de poder, com trovões e relâmpagos anunciando sua chegada, e exigências, o que  deixaria os homens atemorizados, e, para quem só havia uma opção: obedeça, ou, de outra forma... Isso contudo poderia criar não homens livres, mas escravos, ou robôs. O outro caminho seria Deus esconder o Seu Reino em fatos da natureza e da vida e gradualmente revelá-lo quando o homem se desenvolvesse suficientemente  para vê-lo e adotá-lo como seu próprio. Então na plenitude do tempo, quando Deus pudesse encontrar um povo ou nação mais provável para ser aquele que  aceitasse esse reino e o fizesse seu , Ele revelaria abertamente a natureza e as implicações desse reino, de forma compreensível – forma humana e nas relações humanas. Nós pensamos que Deus escolheu o segundo caminho; Ele se escondeu na forma disfarçada – como o Bebê, o Menino, o Carpinteiro, o Profeta, o Filho do Homem, o Redentor, o Crucificado, o Ressuscitado e Vivo Redentor, Aquele que está sentado à mão direita do poder ultimo do universo –  então Ele revelou o Reino de Deus numa Pessoa. Poderia o homem tomar esse reino desta forma? Alguns o fizeram, e foram transformados e mostraram uma qualidade de vida e poder muito além do ordinário. Mas muitos não o fizeram, e como consequência vivem  vidas pela metade (na penumbra), ou tateando e tropeçando na escuridão”. (de Stanley Jones, adaptado)
Com o rei Jesus Cristo começa o Reino de Deus (RD). O RD é essencialmente, o governo de Deus; consiste na implantação da vontade divina no coração dos homens. Jesus tornou isso claro quando, na Oração Dominical, disse: “Venha o teu Reino; seja feita a tua vontade...”, o que Ele mesmo realizou, de modo pleno, colocando acima de tudo fazer a vontade do Pai. Nesse sentido o Reino se fez presente nEle. O RD é uma vida cotidiana com Cristo; é receber a Sua justiça pela fé; é experimentar aquela paz interior que somente Cristo pode dar. É desfrutar da alegria no Espírito Santo”.
O RD começa como uma semente pequenina, que progressivamente desenvolve-se tornando-se uma árvore frondosa; de outra forma, está escondido como um tesouro, ou uma pérola muito preciosa, e que enseja tanta alegria para quem o encontrou, que ele é capaz de vender tudo que tem para poder tê-lo.
A questão básica do poder no Reino de Deus. “O problema do poder afeta todos os relacionamentos humanos, dos pais dominadores ao chefe intimidante, ao cônjugue manipulativo e ao pastor que brinca de Deus. A sedução do poder pode separar o mais resoluto dos cristãos da verdadeira natureza da liderança cristã, que é servir a outros. É difícil permanecer em pé num pedestal e lavar os pés dos que estão embaixo. Foi essa mesma tentação do poder que levou ao primeiro pecado. O pecado do Jardim foi o pecado do poder. No processo de anunciar o reino e oferecer redenção da Queda, Jesus pôs de ponta cabeça as visões convencionais de poder. Quando os discípulos arguiram sobre quem era o maior, Jesus reprovou-os dizendo “.. o maior entre vós seja como o menor; e aquele que dirige seja como o que serve”. Jesus foi tão bom quanto suas palavras. Lavou os pés empoeirados dos seus discípulos, uma tarefa reservada para os servos mais humildes, na Palestina do primeiro século. Um rei servindo as necessidades mais mundanas dos seus súditos? incompreensível. Mas é isso; a liderança do servo é o âmago dos ensinos de Cristo “ .. quem quiser ser o primeiro dentre vós, será servo de todos”. O entendimento cristão de poder é de que este é encontrado mais frequentemente na fraqueza. O apostolo Paulo escreveu: “ o poder se aperfeiçoa na fraqueza” e concluiu “porque quando sou fraco então é que sou forte”. Através das Escrituras Deus revela especial compaixão pelos que não têm poder: viúvas, órfãos, prisioneiros e estrangeiros. Indivíduos fortes confiam em seus próprios recursos – que, em última instância, jamais serão suficientes – mas a pessoa chamada fraca, conhece seus próprios limites e necessidades e, assim, depende totalmente de Deus. Talvez seja por isso que Deus tão frequentemente confunda a sabedoria do mundo realizando seus propósitos através dos não poderosos, e fazendo seus mais poderosos trabalhos através da fraqueza humana. (de “A ilusão do poder”, por Charles Colson; foi assistente especial do ex-presidente dos EUA, Richard Nixon).
Impacto do cristianismo na História. História é a aventura geral do ser humano e o seu esforço no sentido de racionalizá-la. A fé é a área da relação imediata com Deus, ao passo que a história é encadeamento de causas e efeitos da evolução humana. A fé é o instante do encontro com Deus e a revelação do sentido último do fim da história. A história, se não é a esfera que nos revela Deus, é, no entanto, o lugar onde devemos viver a fé. Se a história dá à fé o lugar onde exercer o amor, a fé dá à história um sentido de esperança, sem o que  a história seria simplesmente um caos de acidentes ou desenrolar indefinido que poderia chamar-se progresso, que todavia não teria nenhum significado. “ (André Dumas). E “Geoffrey Blainey (consagrado autor de best-sellers, como  “Uma Breve História do Mundo”, e “Uma breve História do século XX “) em seu livro “Uma breve História do Cristianismo” fazendo um balanço da influência do cristianismo, assim registrou:O cristianismo provavelmente foi a instituição mais importante do mundo nos últimos 2.000 anos. Muito do que nos parece admirável hoje resulta inteiramente ou em parte do cristianismo e de seus seguidores... Por muito tempo a Igreja representou a predecessora da assistência oficial, além de assumir o principal papel na educação em boa parte da Europa e de fundar a maioria das primeiras universidades. O cristianismo influenciou o papel social da mulher, o status da família e – dizem alguns historiadores – a ascensão do socialismo e do capitalismo. Além disso, tanto favoreceu como prejudicou o avanço da Ciência e das Ciências Sociais. A moderna democracia, muito diferente da versão praticada na antiga Atenas muito deve à declaração feita por Paulo, garantindo que todas as almas têm o mesmo valor aos olhos de Deus.“
O verdadeiro sentido do Natal é viver a plenitude do Reino de Deus na pessoa de Jesus Cristo, e, a boa notícia é que o Rei dos Reis, e Senhor dos Senhores está voltando, e, com Ele, o Reino de Deus, entrará em nova e definitiva fase de sua plenitude. Maranata!


terça-feira, 17 de novembro de 2015

CONHECER PELA RAZÃO, PELO CORAÇÃO, E, PELA FÉ



A famosa alegoria da caverna de Platão mostra a situação dos prisioneiros acorrentados numa caverna, e, vendo unicamente umas sombras que julgaram ser a realidade, como simbolizando a ilusão em que vivem. Embora eventualmente liberte-se um preso de suas correntes, o caminho para a verdade se apresenta como uma aventura dolorosa. O que Platão quis dizer com o mito é que os seres humanos têm uma visão distorcida da realidade, e que há um difícil caminho em direção à verdade, que, não obstante, libertaria do erro.
Na Idade Média, esta caminhada tinha ainda o peso da tradição, dominada pela autoridade religiosa; “quem se afastasse da doutrina da Igreja, era perseguido como herege (caça às bruxas). O uso do poder para reivindicar o conhecimento verdadeiro, era exercido pelos sacerdotes, alegando terem Deus do seu lado”. A História registra a triste memória da Inquisição.
A virada veio com o Iluminismo no Seculo XVIII. Com Descartes estabelece-se o domínio absoluto da razão que inaugura uma nova era, chamada de Idade da Razão, e, que foi também uma reação à camisa de força imposta pelo autoritarismo da Igreja na Idade Média. É sintomática a célebre afirmação do Iluminismo de ter inaugurado um novo saeculum (“Novus ordo seclorum”, que posteriormente aparece na nota de dólar americano).  O conhecimento obtido pela razão é, doravante, considerado como o único conhecimento verdadeiro. Trata-se de um conhecimento conceitual, objetivo, impessoal, e atemporal;  desenvolve-se pelo raciocínio claro, e exige sempre uma objetividade que é desapego e abstração das condições do próprio sujeito, em detrimento das emoções, da imaginação, da espiritualidade, etc.
Neste interim, a Reforma Protestante, impulsionada pela Imprensa, recém descoberta, espalha a chama do livre exame da própria Biblia, até então monopólio da Igreja. Deslancham também os Descobrimentos, inclusive de outras Terras ainda não desbravadas pela civilização conhecida.
Os pontos fortes deste conhecimento pela razão, incluem a derrubada das  barreiras da superstição, da opinião infundada, e, do fanatismo. Seus pontos fracos decorrem dos exageros do Racionalismo extremado, que erigiu a razão em deusa. “O imperativo do racionalismo, sapere aude (ousa ser racional), conduziu o ser humano a considerar a razão como uma “deusa”  (Viktor Frankl), simbolicamente entronizada na Revolução Francesa
A reação ao  Racionalismo ocorre já no sec. XIX com uma corrente de pensamento que se denominou de Existencialismo. Kierkegaard (1813-1855), filósofo e teólogo dinamarquês, é considerado um dos pais do Existencialismo Cristão. Ele “critica o papel fundamental que a razão sempre exerceu sobre a consciência ocidental, a ponto de tornar-se a razão como equivalente da realidade” . Para ele, o pensamento não tem sentido sem a ação. São as origens do Existencialismo, corrente de pensamento que destaca antes o papel da existência, como fonte de conhecimento, vis-a-vis ao conhecimento conceitual.  
Ponto forte do Existencialismo é a valorização dos sentimentos; Pascal (1623 - 1662físico, matemático, filósofo moralista e teólogo francês, pontifica: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”. E, é o coração que sente Deus e não a razão”. Os pontos fracos ficam salientes nos exageros do emocionalismo em detrimento da razão, como na visão distorcida de Hitler sobre a essência e ação da propaganda: “Esta deveria ser antes de tudo popular, não devia dirigir-se às pessoas instruídas, mas unicamente e sempre à massa, e para ser eficiente, seria necessário, além disso, que se centrasse em alguns objetivos a serem repetidos, sempre, e sob a forma de slogans. Devia apelar sempre para os sentimentos, jamais à razão, e renunciar expressamente a toda a objetividade.”(Joachim Fest)
Para além do conhecimento ordinário, envolvendo mais bom senso  do que reflexão, “nos últimos séculos, e imbuídos de um tipo de positivismo implícito, usamos saber e conhecer para o que julgamos poder provar de alguma forma e acreditar para o que percebemos estar se degenerando em mera opinião pessoal, sem muito apoio no mundo mais amplo”. Verdade só através da Razão, e com o cientificismo, exigindo como condição sine qua non, objetividade e distanciamento do observador. Fica em segundo plano qualquer outro tipo de conhecimento, como a crença, a inspiração artística, etc.
N.T. Wright pontua que “todo o projeto que conhecemos como modernidade, tendo os movimentos iluministas europeu e norte-americano como seus carros-chefes, estava baseados no epicurismo.  Os efeitos disso são visíveis não somente no debate entre ciência e religião, mas em muitas outras áreas da vida, principalmente a política”. (Epicuro, foi um filosofo grego do sec. III antes de Cristo, segundo o qual “os deuses não se preocupavam com nosso mundo, fosse para intervir nele ou para julgar seus habitantes após a morte”). Outras visões distorcidas da realidade, estão presentes na linguagem do dia a dia, e, refletem uma ética de conveniência (se é bom pra mim, tudo bem), o relativismo moral (não existem verdades absolutas, tudo é relativo), etc.
A RELAÇÃO CONHECIMENTO E FÉ, alguns destaques:
Jonathan Edwards (1703-1758),  pregador congregacionalteólogo calvinista e missionário aos índios americanos, considerado um dos maiores filósofos norte-americanos. Condenava um conhecimento apenas conceitual, em favor de um conhecimento pessoal, sentido, cognitivo e vivencial. Insistia que a fé humana não era uma questão de pertencer a uma Igreja, nem religiosidade socialmente aceitável, mas, sim, uma questão do coração ativado pela vontade. Segundo ele, as ações demonstram o verdadeiro cristianismo, praticar, não apenas ouvir, a Palavra.”
Martim Buber (1878-1965), filósofoescritor e pedagogo austríaco. Conhecimento relacional: “O relacionamento homem-homem segue uma das duas possibilidades: EU/TU e EU/ISSO. Se analiso outra pessoa, ou a utilizo como objeto, para mim ela é um simples isso. Se a deixo me influenciar com seu ser pleno através do diálogo, ela se torna um tu. Minhas próprias mudanças dependem deste relacionamento. Eu/tu é um encontro existencial, pessoas vivas se relacionando de modo a se conhecerem melhor, umas às outras. Este deveria ser, a rigor, o relacionamento entre homem e homem, mas também entre o homem e Deus. O homem deve encontrá-Lo existencialmente, e não apenas intelectualmente”.
Joshua Heschel  (1907-1972), rabino austro-americano. Conhecimento situacional. “Na procura da compreensão dos problemas religiosos, o rabino Joshua Heschel se coloca numa linha de conhecimento que chama de “situacional”, porque se ocupa com as situações, supõe uma experiência interior e procura, antes de tudo, compreender os problemas que envolvem a nossa existência real. O conhecimento situacional se distingue daquele que é predominantemente conceitual, que se desenvolve pelo raciocínio, procura um aumento de conhecimento do mundo exterior e exige sempre uma objetividade que é um desapego e abstração das condições do próprio sujeito. O inicio do conhecimento situacional não é a dúvida ou o desapego mas sim a admiração, o engajamento. Se não nos comprometermos pessoalmente, o problema não terá presença”.
Dr. Samuel Bergman (1883 –1975), filósofo. O conflito entre a fé e a razão, decorre de uma falsa compreensão da fé como uma origem especial da verdade, como uma fonte de conhecimento objetivo e complementar à razão humana, mantendo-se porém distinta desta e independente da mesma. A fé e o raciocínio foram assim concebidos como fontes separadas da verdade e do conhecimento. A fé é uma relação possuindo caráter imediato análogo ao existente entre o “eu” e o “tu”. O crente busca a Deus e o encontra. Sabe que Deus tem para ele a mão estendida. Fala a Deus e recebe uma resposta. Ora a Deus, com tanta certeza da sua existência, como da sua própria, a do seu próximo. Não exige provas para esta certeza suprema; porém se alguém lhe solicitasse provas, não poderia apresentar. Não pode fornecer evidência objetiva para  o que, em seu coração, conhece como absolutamente verdadeiro e real.”
N.T.Wright (1948 ), bispo anglicano. Conhecer pela Fé, pela Esperança, e pelo Amor. “O amor é a forma mais profunda de conhecimento. Todo conhecimento é um dom de Deus, tanto o histórico e científico como o de fé, esperança e amor, mas o maior destes é o amor; isto não significa que deixamos de acreditar em evidências e argumentos, ou, na história e na ciência. Significa apenas que eles foram superados pela realidade maior da qual se apropriaram, para a qual apontam, e na qual encontrarão um lar novo e maior. Esse é o modo de conhecimento necessário, se quisermos viver no novo mundo público, o mundo iniciado na Páscoa, o mundo em que Jesus é Senhor e César não é”.
Palavras de Jesus -Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. E, Eu sou o caminho a verdade e a vida.” Esta é a verdade que é possível discernir através do conhecimento pela Fé, pela Esperança e pelo Amor. O conhecimento alcançado pela Razão e pelo Coração podem, são insuficientes para a apreensão dessa verdade.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

PESSOAS INESQUECÍVEIS



Sobre pessoas inesquecíveis, compartilho o pensamento do meu caro amigo e médico, Dr. José Luiz Pires (*): Penso que cada ser humano é uma síntese constituída de milhares de pessoas que passam a fazer parte dele. Desses milhares, um certo número tem uma parte mais significativa nesse universo-síntese. Entre os que são contados nesse certo número, estão alguns que, por uma razão ou outra, nos alcançaram de modo mais direto. E nestes, que nos alcançaram de um modo mais direto, estão os que atuaram em diferentes áreas, épocas e aspectos da nossa vida.”
Somos em grande parte, moldados pelas interações com outras pessoas, desde a família, amigos, colegas de trabalho, professores, líderes espirituais, etc. isto sem contar de que desfrutamos crescentemente dos avanços tecnológicos propiciados por muitos outros, ao longo da história; em resumo nossa interdependência, mostra o quanto somos devedores a tantos,  em meios aos quais naturalmente destacamos aquelas pessoas inesquecíveis, que nos tocaram de forma diferenciada e marcante.
Esta multiplicidade de influências converge então para uma singularidade, que é a vida de cada ser humano consciente. Na composição de cada um entram ingredientes comuns, mas que, em medidas e condições diferenciadas, em função de circunstancias e do próprio desenvolvimento de cada um, no seu conjunto enseja um ser único; ninguém é exatamente igual ao outro. “Cada homem traz algo de novo ao mundo, algo que ainda não existia, algo sério e único. A obrigação de cada homem... é saber refletir sobre seu caráter único em seu modo de ser e sobre o fato de nunca ter existido ninguém igual sobre a terra. Se alguém igual já tivesse habitado a terra, não precisaria estar aqui.” Para Viktor Frankl, sábio criador da Logoterapia (corrente da Psicologia centrado na busca de sentido, põe ainda em evidência a importancia de cada um: “O ser humano é um acontecimento único em todo o cosmo, por esse motivo ele mesmo se constituiria como um valor em si mesmo e também seria portador de uma dignidade inalienável. Como um ser irrepetível, nescessita encontrar e realizar um sentido para a sua vida.”
Por sua vez, a singularidade desenvolve-se não de forma autocentrada, mas antes pela orientação para o outro: ainda Viktor Frankl,compreeende que a meta mais nobre do ser humano seria a autotranscedência, fenômeno especificamente humano que significa que quanto mais a pessoa encontra-se voltada para algo ou alguém, mais humana será”.  Frankl cita os ensinamentos de Hillel, que sintetizou uma profunda sabedoria de vida por meio de três perguntas: se eu não o faço, quem o fará? e se eu não o faço agora, quando se fará? e se só para mim o faço, o que é que eu sou afinal? Para ele, a primeira pergunta se remeteria à unicidade do sentido e da pessoa humana. Assim o sentido é intransferível, pois seria dado para um determinado sujeito. Já a segunda pergunta se relacionaria com a transitoriedade do sentido; se o ser o humano o realiza, realiza para sempre, salvando na perenidade do passado. Por fim, a última pergunta despertaria a autotranscedência do ser humano, desviando o olhar de qualquer vantagem pessoal”.
Isto destaca a insensatez do egoísta, que se imagina no centro de tudo, em detrimento dos demais, como um poço que só recebesse água. É típico do egoísta, o pensamento de que “tudo que tenho é meu, me pertence por direito, e, afinal não devo nada a ninguém.
Ser, ou, tornar-se também inesquecível para outros, faz parte afinal de nossa vocação comum, aquilo para o qual fomos feitos. Aponta para a transcendência de nossas ações, onde tudo afinal se resume no amor: “Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes.” Marcos 12:30,31. Neste resumo do próprio Deus, criador de tudo, podemos encontrar aqueles para os quais devemos nos tornar pessoas inesquecíveis: Deus, em primeiro lugar; em seguida, para com o nosso próximo, na mesma medida de nós mesmos.

(*) escreveu “Sob a Mão de Deus”, “um relato de casos vividos por um médico numa região pioneira do País. Tabalhando em condições precaríssimas, esse cristão no seu labor profissional, foi levado a experimentar, de modo muito real, a mão de Deus – sábia, poderosa e cheia de amor, repousando sobre a sua”.


Fonte: A presença não ignorada de Deus na obra de Viktor Frankl, de Thiago Antonio Avellar de Aquino.

sábado, 19 de setembro de 2015

O QUE HÁ DE ERRADO COM O MUNDO ?




Uma foto que pesou mais do que milhões de palavras e discursos, mostra de forma inequívoca, que há algo de muito errado no mundo. A foto mostra o corpo sem vida de uma criança, boiando numa praia, após uma tentativa frustrada de sua família de fugir da morte, e das atrocidades de terroristas que assolam o País, e que impactou meio mundo, derretendo corações até então insensíveis, protegidos dentro das fronteiras de seus respectivos países, mais ou menos distantes do cenário onde se desenrola o drama dos refugiados sírios. Valeu a comoção pública mundial, ainda que tardia, pois revela que, por baixo desta camada de aparente insensibilidade e pragmatismo personalista, ainda há corações capazes de irem além das lágrimas!
Poderia ter sido mais um flash que acompanha as tristes estatísticas, infelizmente comuns e crescentes em nossos dias, objeto de noticiários que diariamente nos invadem a atenção e, que de tão frequentes, chegam quase a insensibilizar consciências, com o argumento que é mais um problema de outros, e, já temos os nossos. Neste contexto a reportagem da Veja destaca que somente neste ano, cerca de 2.600 pessoas morreram tentando chegar à Europa pelo mar, das mais de 300.000 que encararam a travessia. Nos últimos dias, as multidões atravessando fronteiras com pouco mais do que a roupa do corpo em trens,  a pé ou de bicicleta...” (1). Também a revista Ultimato, em sua edição de setembro/outubro de 2015, mostra o nº expressivo de pessoas deslocadas com guerra no Mundo, que, elevou-se de 37,5 milhões em 2005, para 43,7 milhões em 2010, 59,5 milhões em 2014.
Do outro lado, a recepção beligerante de alguns, nos países de destino almejado pelos refugiados, fruto de um raciocínio pragmático e frio: “Os que sobreviveram à travessia não são bem-vindos na Europa. Eles são muitos. São pobres. Muito diferentes. São até vistos como ameaça: “Os que estão chegando cresceram em outra religião e representam um cultura radicalmente diferente. A maioria deles não é cristã, mas muçulmana. A Europa tem uma identidade enraizada no cristianismo” (Viktor Orban, Primeiro-Ministro da Hungria) (1). Por oportuno, uma das bandeiras de um candidato em evidência nas pesquisas, para a próxima eleição presidencial nos EUA, é ostensivamente restritiva em relação aos imigrantes ditos ilegais, e que, se eleito, já “deixou claro que rescindirá as ordens executivas ... que impedem a expulsão tanto dos jovens imigrantes ilegais que chegaram ao país sendo crianças (os chamados "dreamers", ou "sonhadores"), como os pais de cidadãos americanos ou de filhos com status legal”.
Por fim uma ponderação nua e crua, do articulista, na referida revista: “Os europeus têm boas razões para reagir defensivamente. Os imigrantes não têm alternativa. A situação em que os dois lados de um conflito possuem razões legítimas e lutam para impô-las à força tem o nome de tragédia” (1). E aqui, complementamos, nesta situação onde aparentemente todos têm razão, e, por outro lado, ninguém é indesculpável, o Mal encontra terreno propício onde deita raízes.
A questão de fundo, que procura envolver Deus, e que também foi destaque na Capa da citada revista - “Deus, sendo bom, fez todas as coisas boas. De onde então vem o mal? (Santo Agostinho, nas Confissões). O mal (e o bem) vem do homem? (Czeslaw Milosz, Poeta Polonês ganhador do Nobel de Literatura) (1)
Teodiceia, palavra que se deriva de dois vocábulos gregos que significam “divindade” e “justiça”, diz respeito à discussão do problema da existência do  e de sua relação com a bondade de Deus. Ele pode ser expresso num dilema famoso: ou Deus é capaz de impedir o mal e não o quer, ou Ele quer impedi-lo e não é capaz. Se o anterior for verdade, Deus não é misericordioso; se o último, Ele não é onipotente. Outra versão similar: Se Deus é perfeitamente bom, Ele tem a vontade de remover o mal. Se Deus é perfeitamente poderoso, Ele é capaz de remover o mal. Mas, como o mal não tem sido removido, ou Deus não tem vontade ou é incapaz de remover o mal. Portanto, ou Deus não é perfeitamente bom, ou Ele não é perfeitamente poderoso”.
Alinhado com esta última, destacamos a concepção do escritor consagrado Harold Kushner, que “servindo como rabino de uma pequena cidade, sempre envolvido em levar consolo às pessoas visitadas pela dor e pelo sofrimento, no instante, em que soube que seu filho Aaron, de três anos de idade, morreria de uma doença rara no início da adolescência, ele se deparou com a mais importante e mais terrível questão que alguém pode enfrentar: “Por que coisas ruins acontecem às pessoas boas?”, e que ensejou seu livro bestseller (2). O que ele propõe é que, “Não é Deus que causa a tragédia, a doença, o sofrimento. Existe uma “aleatoriedade” no universo e a natureza é moralmente cega. Um terremoto não distingue entre pessoas boas e ruins. Nem o câncer. Nem o derrame cerebral. Nem a progéria. Não são “atos de Deus”.  Deus nos dá força, coragem e paciência para enfrentarmos os golpes da vida. Deus não é nosso adversário, mas sim nosso aliado. Deus é a fonte do nosso poder de suportar, nossa capacidade de superar e nossa determinação de continuar” (2).
Uma resposta fundamentada na Biblia, e que compartilhamos, tem como postulados: “Deus é absolutamente bom; Deus é absolutamente soberano; O Mal é absolutamente mau.
De onde vem então o mal? Como veio a existir o mal? Quais são suas origens primeiras? Porque existe o mal? tudo não poderia ser feito sem a possibilidade do mal? As respostas para tais questões não são encontradas na Biblia. O mistério permanece oculto. O mal não está lá para ser entendido, mas para ser resistido e, no final, expulso. O livro de Genesis (cap. 3) não nos fala sobre a origem do mal em si. Em vez disso, descreve a entrada do mal na vida e na experiência humana. O mal parece irromper na narrativa bíblica já estabelecido, sem explicações ou racionalização.
A Biblia nos compele então a aceitar o mistério da existência do Mal, um mistério que nós, seres humanos não podemos entender ou explicar. Temos que nos habituar com o entendimento de que Deus escolheu não explicar a origem do mal; em vez disso, escolheu chamar minha atenção para aquilo que Ele tem feito para lutar contra o mal e destrui-lo.
Será que devemos então simplesmente engolir perguntas desesperadas, aceitar que o mal é um mistério e calar a boca? Certamente que faremos mais do que isso:
  • Nós nos afligiremos; prantearemos, lamentaremos, protestaremos, gritaremos de dor e raiva, e clamaremos “até quando esse tipo de coisa vai continuar?
  • Lutaremos contra ele com lamento, aflição, raiva, desgosto, e protesto.
A Biblia permite que lamentemos, protestemos e fiquemos irados diante da ofensividade do mal. A Biblia nos determina a combatermos o mal, rejeitarmos o mal e resistirmos a ele. A Biblia nos ensina a orarmos para que Deus nos livre do mal.”
Se a causa primária, a origem do mal, não está ao nosso alcance conhecer já, não obstante, é bem conhecida a causa imediata dos males morais, isto é, daqueles que decorrem do mal uso do livre arbítrio (liberdade de fazer a nossa vontade):o pecado ou a rebelião contra Deus; pecado é essencialmente fazer algo em detrimento da vontade de Deus. Neste sentido, a maioria do sofrimento é resultado do pecado e da maldade humanos. Esta é a dimensão moral do mal, em que os seres humanos sofrem em termos e circunstâncias amplas porque são pecadores. O mal moral seria o sofrimento e a dor que encontramos no mundo, e que está de alguma forma relacionado com a maldade dos seres humanos, direta ou indiretamente. Esse é o mal visto em coisas que são ditas e feitas, coisas que são perpetradas, causadas ou empreendidas pela ação (ou falta de ação) no contexto da vida e da história da humanidade.” (3)
“Quando o jornal London Times solicitou a diversos escritores que mandassem ensaios sobre o assunto “O que há de errado com o mundo?”, Chesterton (4) respondeu mandando a carta mais curta e direta de todas:
“Prezados Senhores
Eu.
Atenciosamente G.K. Chesterton



(1) Veja, de 09 de setembro de 2015
(2) “Quando coisas ruins acontecem às pessoas boas”, de Harold Kushner.
(3) “O Deus que eu não entendo”, de Christopher J.H. Wright
(4) Chesterton, 1874-1936, renomado escritor, poeta, narrador, ensaísta, jornalista, historiador, biógrafo, teólogo, filósofo, desenhista e conferencista britânico