domingo, 19 de julho de 2015

SOBRE CORRUPÇÃO E ÂNSIA DE VISIBILIDADE




Uma previsão feita há mais de 2.000 anos, descreve assim nossos dias: haverá  homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, traidores, obstinados, orgulhosos...”.
Eventualmente alguns, com estas disposições bem latentes na alma, encontrando oportunidades propícias, tornam-se corruptos, com destaque para as instâncias onde ocorre maior concentração de poder, envolvendo, dentre outros, o meio político,  a alta administração pública, e o seleto grupo do alto empresariado do País, como aqueles tristemente famosos da “Operação Lava-jato”.
Na mesma linha, “na cultura midiática brasileira, a Lei da Vantagem ou Lei de Gérson é um princípio em que determinada pessoa ou empresa deve obter vantagens de forma indiscriminada, sem se importar com questões éticas ou morais (princípio seguido por uma parcela de agências e publicitários, que recebem pagamento por anúncios ou premiações pelo trabalho realizado, mas não querem se responsabilizar caso o efeito da divulgação cause transtornos ou danos, eximindo-se de culpa e a transferindo para o anunciante ou para o público). A "Lei de Gérson" acabou sendo usada para exprimir traços bastante característicos e pouco lisonjeiros do caráter midiático nacional que passa a ser interpretado como caráter da população, associados à disseminação da corrupção e ao desrespeito a regras de convívio para a obtenção de vantagens.”
Também aquilo que se apelidou de “ética de conveniência”, muito em uso entre políticos conhecidos por “ficar em cima do muro”, e deliberadamente relativizar a verdade. Olhando por esta ótica parece não haver remédio, e, a corrupção é mesmo endêmica, apenas uma questão de chance.
Em artigo publicado na Ultimato jul-ago 2013, intitulado “A corrupção: causas e reações”, o renomado sociólogo cristão Paul Freston, comenta algumas causas da corrupção e como mitigá-las, do qual destacamos: “A corrupção do pecado é um estado teológico geral: está em todos nós e em todas as instituições... A corrupção se relaciona com as instituições, mas também com a cultura e as características das lideranças.... É impossível chegar à “corrupção zero”, porque existe a corrupção por necessidade e a corrupção por ganância. O governo pode combater a corrupção por necessidade com salários mais altos, porém o corrupto por ganância continuará corrupto mesmo com o salário mais alto do mundo (vide nossos Dirigentes corruptos da Estatal)... A corrupção quase nunca tem causa única. Por isso é necessário combatê-la em várias frentes ao mesmo tempo e durante muito tempo. Algumas medidas anticorrupção afetam as políticas e as prioridades do Estado... Algumas medidas que são aconselháveis no combate à corrupção são consideradas desaconselháveis por causa da ideologia do governo ou de outras prioridades adotadas por ele. Nem sempre a escolha é simples. Às vezes é necessário negociar para se adotar uma medida que reduza a corrupção, mas que, ao mesmo tempo, pode trazer prejuízos políticos.
Em outro artigo da mesma revista Ultimato, de julho/agosto 2015, a ex-senadora Marina Silva,  pondera sobre o sentimento afim, de ânsia por visibilidade, e destaca “reconhecer o trabalho e a atitude de pessoas que atuam sem alarde e persistem na integridade, no respeito, no compromisso é um importante aprendizado... Ansiosa busca por visibilidade e status é marcante em todos os ambientes de vida social em nossos dias. Na política e na gestão públicas essa ansiedade tóxica obscurece os fundamentos de todo serviço: a humildade e a disponibilidade para o outro. É nas menores transformações, nas melhorias de pequenas parcelas cumulativas, que podemos pacientemente produzir um resultado significativo ... Precisamos não de visibilidade espetacular, mas de firmeza de propósito e fidelidade a valores por parte dos que trabalham no serviço público em favor do bem comum, em lugar do querer se dar bem. É importante que aprendamos a reconhecer e a dar sequência ao trabalho e à atitude das pessoas que, em diversas posições na sociedade, trabalham sem alarde e persistem na integridade, no respeito ao outro, no compromisso ao que foi decidido. Desses singelos frutos colhidos no cotidiano de pessoas e povos é que nascerão as mudanças sociais, políticas, culturais e econômicas das nações. A dignidade espiritual desde as pequenas coisas, na humildade do serviço mais simples, é a base da elevação de todos.”
Na escala das realizações individuais, são muitos os exemplos cotidianos, de anônimos, sem quase visibilidade, que mostram uma outra realidade, do dia-a-dia do homem comum, vocacionado para o trabalho honesto, que lhe rende o pão de cada dia, seja no emprego com carteira assinada, seja na prestação de serviço avulso, desde o mais simples trabalhador ambulante pedindo por algum serviço que possa realizar - em vez de pedir esmolas – ou o professor abnegado de uma longínqua escola pública no interior, improvisando com parcos recursos, facilidades didáticas para quem não tem acesso, e, bem assim, as mais diversas iniciativas de voluntários engajados na promoção do próximo, etc.

Finalmente, o conselho consequente do apostolo Paulo, numa carta ao seu discípulo Timóteo, em relação ao prognóstico mencionado no inicio: Sabe, porém, isto: que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos. Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, Sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, Traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus, Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te”. 2 Timóteo 3:1-5

sexta-feira, 19 de junho de 2015

AMOR QUE COMOVE



Amor que comove é uma forma de amor que move à ação consequente; eventualmente objetiva-se com – comoção, e  + ação. Diferentemente do amor piegas, voltado quase que exclusivamente para si mesmo, o amor que comove, mira no próximo (aquele que necessita urgente de ajuda, e, que está ao nosso alcance poder ajudá-lo). Envolve gestos de compaixão, dar atenção, oferecer ajuda, e, se envolver na recuperação daquele que está em situação crítica padecendo necessidade. O amor que comove distingue-se do amor puro sentimento, em poder até prescindir do sentimento de satisfação  pelo reconhecimento do próximo, ou até dos outros circunstantes, não estando também sob a pressão da obrigação, e, muito menos  na expectativa de desdobramentos favoráveis; é antes pura doação unilateral, e, isto também é amor em sua essência.
Ao abordar o assunto, pensamos, s.m.j., que duas posturas deveriam ser evitadas: aquela  inata a todos nós, sempre que nos vemos como justos, íntegros, sábios, e santos, salvo se estejamos convencidos que em princípio não somos melhores, em nossa inclinação natural para  o egoísmo, injustiça, e estupidez . De outra parte a vitimização do próximo, ou fantasiá-lo como um coitadinho indefeso, e injustiçado.
O cuidado com o próximo, foi imortalizado na figura bíblica do “bom samaritano” (transcrita ao final).  Respondendo à uma indagação de “quem é o meu próximo?”, Jesus conta uma história de um estrangeiro, pertencente a um povo hostilizado pelos habitantes locais, e, que circunstancialmente, vê um dessas pessoas abandonada ao ermo, em situação de extrema necessidade. Na atualidade, costuma ser romantizada através de pinturas retratando a figura de um viajante insuspeito, que fora assaltado por bandidos, e, abandonado à beira da estrada longínqua; nada que os primeiros cuidados, e um bom banho não pudesse logo corrigir. Deixamos de ver, entretanto, a face nua e crua da miséria, de alguém caído na sarjeta, imerso voluntariamente, ainda que por força das circunstâncias, em uma situação de degradação, às vezes até, causando asco, pelas condições de maltrapilho,  fedendo, sujo, bêbado, e incômodo.
Por oportuno, recém vivenciamos uma experiência bem comum, dentro de um ônibus cheio, na ocasião em que entra um rapaz, aparentemente drogado, mal vestido e com capuz escondendo em parte o rosto, barba longa e desgrenhada, repetindo em alta voz frases desconexas, deixando todos circunstantes irritados, e em estado de atenção, se não seria um assaltante potencial, ou mais um perturbador da ordem. O primeiro desejo, imaginamos, de todos nós em volta, era pedir ao motorista para retirá-lo antes de dar partida. Quatro paradas à frente, apenas um jovem que ia descer, percebendo que o mesmo já dormia no assento, tocou no seu ombro buscando alertá-lo se não estaria no ponto de destino.
O teólogo Julio de Andrade Ferreira compartilha uma interpretação livre da história bíblica citada acima, como “Parabola do Adolescente”, que transcrevemos: Certo adolescente caminhava pela estrada pedregosa que leva da infância à idade adulta, quando caiu nas mãos de exploradores. Estes tiraram dele a inocência e o induziram ao vício, deixando-o inseguro e insatisfeito. Casualmente encontrou-o um ministro de religião e afirmou não ter tempo de conversar, pois seu expediente estava muito apertado. Igualmente, o orientador educacional, vendo-o, alegou não poder atende-lo. Certo negociante, porém, um estrangeiro, viu-o com olhar inquieto e tristonho. Teve pena do rapaz e procurou acercar-se dele. Conversou com o garoto, deu-lhe interessante literatura, e, pondo-o no seu carro, convidou-o para ir até um acampamento para recuperação de viciados. No dia seguinte, disse ao encarregado: Preciso voltar às minhas tarefas; deixo aqui recursos para o custeio deste tratamento, por algum tempo. Peço que  o rapaz seja orientado e cuidado. Voltarei para acertar contas e conversar com ele. Quem dentre todos, te parece que se fez próximo do rapaz desorientado?”
Hoje em dia, ações coletivas desta natureza, são executadas por várias Igrejas, de diferentes credos, e entidades afins, que atuam neste difícil ministério, em paralelo com a ação governamental na execução de politicas públicas específicas.
O “Amor que Comove” também “é um dos principais ramos de ação social da I Igreja Presbiteriana de Curitiba voltado para alcançar e ajudar pessoas largadas nas ruas.  Pode ser descrito como “grupo evangelístico para pessoas em situação de rua, carrinheiros, alcoólatras e drogaditos de Curitiba, com entrega de alimentos, acompanhamentos, triagens para casas terapêuticas e principalmente, propagação da palavra de Deus. Tendo sido criado por membros no início do segundo semestre de 2012, o ministério tem como objetivo prestar auxílio a moradores de rua e formar a linha de frente no resgate social de dependentes químicos. A equipe é formada exclusivamente por voluntários, pessoas com muita energia e vontade de fazer a diferença em seu meio social. Embora o trabalho proposto tenha se provado bastante desafiador, o apoio extensivo da comunidade cristã possibilitou que o ministério crescesse com o tempo. Hoje, temos diversas frentes de atuação que abrangem desde saídas rotineiras às ruas para estabelecer novos contatos até a prestação de auxílio direto a dependentes sendo tratados em casas de acolhimento”. Dentre os casos assistidos por este ministério, registramos aqui a mobilização até a última hora, e o conforto final, testemunhado pela avó, única presença familiar por ocasião do enterro de um drogadito: “André vivia nas ruas desde os 16 anos de idade. Era dependente de drogas e álcool e seu lugar preferido de abrigo era a calçada da Igreja, onde mendigava e dormia ao relento. Expulso de casa pelos frequentes furtos e problemas que trazia para dentro do lar, André foi renegado pela família, que já não o aceitava mais e não o queria por perto. Ele vivia sozinho, sem ninguém para apoiá-lo, embora sempre encontrasse gente disposta a estender a mão. Ao final a cirrose e o câncer resultaram na sua morte no final de abril deste ano. Abandonado pela família, este morador de rua teve seu último desejo atendido pelo ministério Amor que Comove, “Ele não queria ser enterrado como indigente!”. Ainda sobre o caso, guardei a expressão de realização de minha colega, participante ativa deste ministério, pelo fato de que, pelo menos, o André tenha sido enterrado decentemente com um mínimo de honra que não teve enquanto vivo.
Comemoramos a existência destes  bons samaritanos da atualidade, ao ensejo em que convidamos para conhecerem e participarem, mesmo à distância, deste tocante ministério (www.amorquecomove.org). Destacamos  finalmente o reconhecimento do mérito (para aqueles que são salvos, assim cremos), feito por ninguém menos do que o próprio Jesus Cristo :  Então dirá ... : Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver. Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te? E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes”. Mateus 25:34-40


P.S. Quem é meu próximo?

“... para testar Jesus, um líder religioso lhe perguntou: “Mestre, o que preciso fazer para ter a vida eterna?”. Ele responder: “O que está escrito na lei de Deus? Como você a interpreta?”. Ele disse: “Ame o Senhor seu Deus com toda a paixão, toda a fé, toda a inteligência e todas as forças; e ame o próximo como a você mesmo”. “Boa resposta!”, disse Jesus. “Faça isso e viverá.”. Querendo fugir da resposta, ele perguntou: ”Como saber que é o “próximo?”. Jesus respondeu com uma história: “Certa vez, um homem viajava de Jerusalém para Jericó. No caminho, foi atacado por ladrões. Eles o espancaram e fugiram com suas roupas, deixando-o quase morto. Pouco depois, um sacerdote passou por aquela estrada, mas, quando viu o homem, esquivou-se e simplesmente foi para o outro lado. Em seguida, surgiu um religioso levita. Ele também evitou o homem ferido. Um samaritano que viajava por aquela estrada aproximou-se do ferido. Quando viu o estado do homem, sentiu muita pena dele. Aplicou ao ferido os primeiros socorros, desinfetando os ferimentos e fazendo alguns curativos. Pôs o homem sobre o jumento em que viajava e levou-o até uma pensão. Na manhã seguinte, entregou duas moedas de prata ao dono da pensão e disse: “Cuide bem dele. Se custar mais, ponha na minha conta; pago quando voltar”. “O que você acha? Qual dos três é o próximo do homem atacado pelos ladrões”...Lucas 10:25-36. (Biblia em linguagem contemporânea)

terça-feira, 19 de maio de 2015

GENEROSIDADE E SOSSEGO



A alma desassossegada é fruto da incerteza e da incredulidade; vê sempre a frente o perigo, sente-se permanentemente ameaçada; desconfia que o pior está por acontecer, custa a acreditar que o estado de coisas vai melhorar. Seu desassossego inquieta a todos em redor, carregando o ambiente de ansiedade e medo. Que remédio há para este cenário? É possível reverter o quadro?”.
São muitos, e, diuturnos, os contextos que podem ensejar inquietação na alma: a chegada e permanência de situações adversas; o medo do que pode vir a acontecer; a raiva pelo ocorrido – “isto não poderia ter acontecido, não devia acontecer!” - todos agravados pela sua recorrência estressante na tela da consciência; e, eventualmente, a busca infrutífera por culpados, que pode tornar-se opressiva. Levados aos extremos podem, eventualmente gerar opressão e dor.
Na gênese deste desassossego, estão as perdas, acumuladas ao longo dos embates da vida, e que funcionam como águas estagnadas e poluídas, focos de mosquitos carregados com o vírus do desassossego e da intranquilidade
A doação é o oposto da perda. Na perda há tristeza, diretamente proporcional ao apego. Na doação há alegria pela oferta voluntária e prazerosa, para todos os lados. Perda é privação compulsória, de algo que, assim julgamos, nos é tirado indevidamente; na doação há gratidão, uma comemoração. A lógica da doação, está contida nas palavras de São Francisco de Assis, “pois é dando que se recebe”.Altruísmo, e solidariedade correm desta mesma fonte.
Ao lado das ameaças das perdas, estão também as oportunidades da generosidade; ambas fundamentam-se na riqueza de nossa interdependência intrínseca. “O mundo é assim. Ele não faz exceções a nenhum de nós. Somos entregues às nossa famílias, aos nossos semelhantes, aos nossos amigos, aos nossos inimigos – às nações. É assim que a criação funciona. Alguns de nós tentamos, desesperadamente, nos agarrar a nós mesmos, viver por nós mesmos. Ficamos tão denegridos e patéticos agindo assim pendurados à agência morta de uma conta bancária em busca de vida, temerosos de nos arriscar sobre as asas não experimentadas da doação. Não pensamos poder viver, generosamente, porque nunca tentamos.”(Eugene Peterson ).
A generosidade é a qualidade daquele que demonstra largueza de espírito em ajudar, em cooperar, em socorrer, sempre está à busca de uma causa onde possa expressar seu coração profundamente doador. O generoso está atento às necessidades e pronto a ser colaborador da primeira hora. Generosidade, necessariamente, passa pela ideia de oferecer algo, de abrir mão de alguma coisa, de efetivamente promover uma dádiva. O espírito de avareza não consegue admitir a generosidade, pois, sua marca é a retenção, o guardar, o jamais doar qualquer coisa.
Comumente associamos generosidade com um estado de espírito raro, que depende de se estar em paz e sossegado, e, bem assim abonado de recursos, suficientes para poder dispor de um pouco para ajudar outros necessitados. Não obstante a verdadeira fonte da generosidade e do sossego é outra, e, que foi apontada pelo sábio, em Salmos 116 :“Volta, minha alma, ao teu sossego pois o Senhor tem sido generoso para contigo”. O salmista desenha a fisionomia generosa do Senhor, convidando sua alma a voltar à serenidade, a tranquilizar-se, a sossegar. A fonte de toda a generosidade é o próprio Deus. Nossa generosidade não começa em nós, e sim, em Deus. Somos alvos deste atributo divino, e o passamos adiante como expressão de gratidão. A maior prova da generosidade de Deus encontramos na proclamação das boas novas, que são os Evangelhos: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele” (João 3:16,17).
Se você tem se resignado a pensar que Deus o abandonou, desassossegado,  tal incredulidade pessimista desonra a Deus ou ignora a grandeza dEle. Salmos 116 revela não obstante um Deus que conhece nossa fraqueza e se inclina para nos ajudar, que é compassivo e misericordioso, que nos livra da morte eterna, que enxuga a lágrima de nossa face, que impede o nosso abatimento. Em meio a este reconhecimento do agir divino, nós também fomos conformados para agir com generosidade. Na realidade nossa vida é para os outros.
Aqui retornamos à indagação inicial: “Que remédio há, para a alma desassossegada ? É possível reverter o quadro?” Sim ! podemos assim falar com Deus: “Senhor, meu Deus. Inquieta é minha alma e não encontra paz e sossego. Restitui-me a paz e serenidade, para que segundo Tua promessa, na tranquilidade e  na confiança esteja a minha força, e que nada me pode separar do teu cuidado amoroso, que é a fonte do meu sossego. Que eu, não perca a vontade de ajudar as pessoas, num espírito de generosidade, como expressão de gratidão, mesmo sabendo que muitas delas são incapazes de ver, reconhecer e retribuir a ajuda. Amplia minha visão, e dá-me a certeza de que teu amor me envolve, que um propósito maravilhoso que não pode ser derrotado está sendo realizado em minha vida. Amém”.
Fonte: boletim da I Igreja Presbiteriana de Curitiba




domingo, 19 de abril de 2015

“ENSINA-NOS A CONTAR OS NOSSOS DIAS”





“MEMENTO MORI” é um pensamento cristão, usado como saudação entre os monges trapistas, e significa, “lembra-te que hás de morrer”; também empregado em inscrições tumulares” tais como “Memento homo qui a pulvis est et in pulvere revertere” (lembra-te homem, que és pó, e ao pó retornarás), longe de ser um pensamento mórbido ou depressivo, trata-se de uma expressão de sabedoria conforme empregada pelo salmista no título acima.
A imprevisibilidade e a brevidade, são duas características inerentes à vida, e, que esporadicamente são acentuadas em determinadas circunstâncias críticas: como em cada parente e amigo que “se vai”, é como que um eloquente sinal de atenção, para se parar e refletir sobre o dom (presente) da vida. Assim vamos acumulando lembranças bem guardadas, com muito carinho, de pais e outros familiares, e, de amigos, que hoje já encerraram suas jornadas neste lado da vida (saudades da minha turma de engenharia de 1970, o primeiro passo para uma vida que se anunciava plena de desafios e vitórias no campo profissional; quantos sonhos foram realizados, quantos interrompidos ?). E o pensamento recorrente de que poderia também não estar mais deste lado da vida! E o que estaria (estariam) fazendo  agora? Por oportuno, considerar a “aposta de Pascal” (1). É quando na imaginação, ultrapassamos as barreiras do tempo e do espaço, para vislumbrar um instante da eternidade, trazendo de volta à vida, lembranças adormecidas com o sabor de emoções vividas. Também nas tragédias, como a ocorrida com o voo da Lufthansa, em um passado recente (dentre as vítimas, uma jovem doutora que era nossa amiga), e mais recente com o avião da Germanwings (2), de grande comoção mundial, são como que outdoors iluminados, com “Memento Mori”. Noticias de terríveis catástrofes, massacres, assassinatos nos chegam todos os dias, e, aparentemente, já não mais nos abalam mais, pois de tão continuados virou quase uma rotina trágica.
“Calcula-se que, desde seu aparecimento no planeta Terra, cerca de 80 bilhões de seres humanos já viveram em sua superfície. A Revolução Industrial melhorou as condições sanitárias nas cidades e permitiu o desenvolvimento de novos remédios, vacinas e anestesias. A descoberta da penicilina (1928), a vacina contra a poliomielite, contra a rubéola, contra o sarampo, contra a hepatite aprimoraram a medicina. Os estudos do genoma humano fez com que os males genéticos passassem a ser combatidos antes mesmo do aparecimento dos sintomas. Vacinas contra a malária, e contra a aids, a medicina genética, pode aprimorar tratamentos contra o câncer. Uma pesquisa da consultoria americana Pew Research mostrou que 69% das pessoas dizem preferir morrer entre 79 e 100 anos, a sobreviver até mais de 120 anos,  mas, decrépitos e descrentes, desesperados, e, inevitavelmente chegariam a um estágio em que prefeririam a morte. (Reportagem da Veja)
As perdas nos dão a exata dimensão dos ganhos, sendo a morte, a perda maior que podemos sofrer, que nos faz valorizar a vida. “As perdas que se acumulam ao longo da vida podem ser distribuídas em : doenças crônicas e limitações físicas em si próprio;  morte de parentes e amigos; morte de um animal de estimação; perdas materiais significativas. Tendo em vista que a vida é o dom maior que recebemos, não devemos pensar que a morte deva ser procurada. Devemos, sim, viver a vida em plenitude, no tempo que nos for dado viver. Devemos respeitar a vida, desde a concepção até a morte, cuidando dela, tornando-a a melhor possível, para nós e para todos os seres vivos ao redor de nós, enquanto vida tivermos. Qualquer pessoa de bom senso com certeza gostará de deixar uma recordação, por menor que seja, de alguém que deu bons frutos, que justificou sua passagem por esta vida. Não necessariamente por grandes obras, quase sempre de importância duvidosa, mas essencialmente pelas pequeninas coisas boas que fez no dia a dia, pelo comportamento ético e respeitoso. “
O medo de morrer é inerente a nossa vida. “É por causa dele que nos encontramos vivos até hoje. Trata-se de uma reação instintiva que nos  afasta das situações de perigo. É pelo medo de morrer que não pulamos no mar, se não sabemos nadar. Enquanto dentro de certos limites, este medo é saudável e desejável. Contudo, se ele os ultrapassa, pode tornar-se um entrave para a qualidade de vida, impedindo a pessoa de realizar coisas normais. Temos medo da dor, do sofrimento, da dependência de terceiros, de situações degradantes que possamos enfrentar, enfim, de qualquer desconforto mais acentuado. Com o avanço dos conhecimentos e, sobretudo da tecnologia, o ser humano foi se tornando a cada dia, mais distante do ciclo vital universal da vida e da morte, que para ele se tornou um terror”.
Destaques do Manual do Fabricante (DEUS mesmo):
- “porque tu és pó e ao pó tornarás”(Gênesis 3:19)
- Porque mil anos são aos teus olhos como o dia de ontem que passou, e como a vigília da noite (Salmos 90:4)
Tu os levas como uma corrente de água; são como um sono; de manhã são como a erva que cresce. De madrugada floresce e cresce; à tarde corta-se e seca (Salmos 90:5-6)
...passamos os nossos anos como um conto que se conta (Salmos 90:9)
Os dias da nossa vida chegam a setenta anos, e se alguns, pela sua robustez, chegam a oitenta anos, o orgulho deles é canseira e enfado, pois cedo se corta e vamos voando (Salmos 90:10)
Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sábios (Salmos 90:12)
Comentando este Salmos 90, o Rabbi Joshua Haberman, pondera: “A vida é cheia de contradições: é um presente – que é tomado à frente. É crescimento – e declínio; oferece prazeres – e pânico. Entre os muitos bilhões de pessoas, não existem dois iguais, mas todos compartilham o mesmo fim. Tudo que nós somos desaparece na morte, ou pelo menos assim parece para nós. Dois mistérios envolvem a vida: onde estávamos antes de nascer e o que seremos depois da morte. O salmo fala para nós acerca de realidades da vida. Nossa breve manhã da vida começa com um espantoso poder para crescer (v 6). Mas breve nós começamos a declinar (v 6). O salmista dimensiona nosso período curto normal de vida normal (v 10). Mas mesmo quando vivemos até seus limites, a vida é um mero lampejo da eternidade (v 10). Porque nosso tempo é tão curto, não podemos nesciamente desperdiçá-lo. Para fazer uso próprio de nosso tempo de vida, nós precisamos de sabedoria (v 12). Mas independentemente de como vivemos nossas vidas, sábia ou nesciamente, o que permanece quando tudo se foi é como sem substancia (v 9). Isto, todavia, não é a história completa. O homem tem um lugar com o Eterno. Na presença de Deus, tempo não tem significado. (v 4).  
- “Tragada foi a morte na vitória”.1 Coríntios 15:54. A boa noticia da Páscoa, e que é o suporte de todo o Evangelho, é a morte da própria morte. Doravante é vida eterna, com a promessa de ressurreição envolvendo corpo e alma. “A ressurreição de Jesus Cristo (no passado) e a ressurreição de nosso corpo (que ainda é futuro), estão ambas relacionadas, por Jesus Que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas”. Filipenses 3:21. Isto é fantástico ! muito além do que poderíamos imaginar !

P. S.
(1)A Aposta de Pascal “é uma proposta argumentativa de filosofia criada pelo filósofomatemático e físico francês do século XVII Blaise Pascal. Ela postula que há mais a ser ganho pela suposição da existência de Deus do que pelo ateísmo, e que uma pessoa racional deveria pautar sua existência como se Deus existisse, mesmo que a veracidade da questão não possa ser conhecida de fato. Historicamente, foi um trabalho pioneiro no campo da teoria das probabilidades, marcou o primeiro uso formal da teoria da decisão, e antecipou filosofias futuras como existencialismopragmatismo e voluntarismo.
Este argumento tem o formato que se segue:
  • se você acredita em Deus e estiver certo, você terá um ganho infinito;
  • se você acredita em Deus e estiver errado, você terá uma perda finita;
  • se você não acredita em Deus e estiver certo, você terá um ganho finito;
  • se você não acredita em Deus e estiver errado, você terá uma perda infinita.
Pascal referenciou a dificuldade da razão posta para a crença genuína propondo que "agir como se acreditar" pudesse "curar da descrença". (Wikipédia)


(2)“Entre os 150 mortos do vôo da Germanwings havia 16 adolescentes de 15 a 16 anos de um mesmo colégio da cidade ... de apenas 38.000 habitantes... Os estudantes alemães eram vistos na escola como privilegiados. Eles haviam sido sorteados, entre 40 alunos, para um intercâmbio de uma semana em Barcelona, na Espanha, com o intuito de aprender espanhol morando em casas de família. Duas professoras acompanhavam o grupo na viagem sem volta. Uma das alunas por pouco não escapou. Ela havia esquecido seu passaporte e, evidentemente, não poderia embarcar. Mas a família que a acolheu em Barcelona percorreu os 50 km até o aeroporto para lhe entregar o documento, e ela finalmente embarcou com os companheiros de estudo e sorrisos. O desastre nos Alpes matou cidadãos de 18 países, incluindo outros adolescentes, uma criança e 2 bebês, um de apenas 7 meses.” (Reportagem da Veja).

quinta-feira, 19 de março de 2015

O PEDIDO DE SALOMÃO



O famoso rei Salomão, o terceiro rei de Israel, governando durante cerca de quarenta anos (segundo algumas cronologias bíblicas, de 1009 a 922 a.C. ) passou à história por sua notória sabedoria. Sua fama chegou tão longe que abalou até à rainha da distante Sabá  - a localização deste reino pode ter incluído os atuais territórios da Etiópia e do Iêmen - a empreender uma longa viagem para comprovar a veracidade dos fatos. Ocorre que a origem desta sabedoria, consoante registro bíblico, foi uma resposta de Deus a um pedido acertado de Salomão, por ocasião de sua elevação ao trono, quando, durante à noite, em sonhos, Deus lhe fala: “pede-me o que queres que eu te dê ”, e, Salomão pede então sabedoria para governar bem o povo. Isto é fato, mas não é toda a verdade. Na realidade, o pedido de Salomão foi: “dá, pois, a teu servo coração compreensivo para julgar o teu povo, para que prudentemente discirna entre o bem e o mal.
“A palavra traduzida comumente por sabedoria, é, antes, um coração compreensivo. “A palavra compreensivo, em hebraico, é “shama”, que significa ouvir, escutar, obedecer. Shama é um conceito muito diferente de sabedoria e é uma das mais belas atitudes e que mais agradam a Deus. Sabedoria consiste de um acúmulo de conhecimentos e experiências reunidos dentro de um ser humano. Para exercitar sabedoria, a pessoa precisa vasculhar seu interior à busca de respostas, extraindo do seu reservatório fatos, valores, sistemas, abordagens e ensinamentos recebidos de outrem, além dos frutos de sua própria educação, prática, percepções e experiências de vida armazenados ao longo de sua vida. Sabedoria, de acordo com a bíblia, tem a ver com habilidade, sagacidade e prudência; é a correta aplicação do conhecimento. A memória de ocasiões em que fomos tolos ou vítimas de tolice, resultando em grande prejuízo pessoal, faz-nos prestar profundo respeito à sabedoria, dando-lhe o lugar de honra que merece. A sabedoria é um valioso recurso,... entretanto, em hipótese alguma serve como substituto para um coração que ouve e, sozinha, a sabedoria pode até ser um empecilho...” vide um coração soberbo, inchado de conhecimentos adquiridos.
O coração que ouve, que Salomão pediu, envolve humildade e dependência de Deus:  “sou um menino pequeno que não sabe como sair, nem como entrar”. Com humildade, o coração “shama” confessa ignorância e busca resposta, não a partir dos recursos pessoais de sabedoria, mas, sim, com base num relacionamento dinâmico de dependência com o próprio Senhor Jesus, como o Deus Vivo. A sabedoria, num certo sentido, é estática, completa em si mesma e autoconfiante; um coração que ouve é dinâmico e dependente de Deus”.
(Fonte: Um Coração que Ouve, artigo de Eric Mumford, publicado na Revista “Impacto” nov/dez 2005).
Um exemplo de julgamento de Salomão encontramos no relato bíblico da disputa entre duas mães, uma das quais o filho tinha nascido morto, e o da outra vivo. No julgamento, Salomão vivencia um espirito de empatia com a mãe verdadeira, a qual, até então desconhecia. Assim, ao invés de arrazoar com base em um questionamento e provas, baseado em seu cabedal de conhecimentos e experiências pessoal, o rei Salomão transfere o foco da decisão para ouvir a reação de cada mãe ante uma proposta que poria em risco a vida da criança, teste que a verdadeira mãe jamais aceitaria passar, mesmo em detrimento da perda do filho para a outra mãe impostora. 
Com Salomão, considerado um dos homens mais sábios que já existiu,  aprendemos a lição de que ter um coração que ouve, humildade (“a verdadeira humildade significa respeito aos demais”), e dependência de Deus (não implica que o governo deve ter uma religião, antes professamos a fé reformada que faz separação entre Igreja e Estado), estão entre as principais qualidades de um governante que faz história, para o bem de todos e felicidade geral da Nação.

P.S. uma lição atual sobre a oportunidade de ouvidos que ouçam, os clamores dos movimentos sociais em curso em nosso País, com destaque para as manifestações recentes em praça pública.

Registros tal como estão na Biblia:
O PEDIDO DE SALOMÃO. “E em Gibeom apareceu o Senhor a Salomão de noite em sonhos; e disse-lhe Deus: Pede o que queres que eu te dê. E disse Salomão: De grande beneficência usaste tu com teu servo Davi, meu pai, como também ele andou contigo em verdade, e em justiça, e em retidão de coração, perante a tua face; e guardaste-lhe esta grande beneficência, e lhe deste um filho que se assentasse no seu trono, como se vê neste dia. Agora, pois, ó Senhor meu Deus, tu fizeste reinar a teu servo em lugar de Davi meu pai; e sou apenas um menino pequeno; não sei como sair, nem como entrar. E teu servo está no meio do teu povo que elegeste; povo grande, que nem se pode contar, nem numerar, pela sua multidão. A teu servo, pois, dá um coração entendido para julgar a teu povo, para que prudentemente discirna entre o bem e o mal; porque quem poderia julgar a este teu tão grande povo? E esta palavra pareceu boa aos olhos do Senhor, de que Salomão pedisse isso. E disse-lhe Deus: Porquanto pediste isso, e não pediste para ti muitos dias, nem pediste para ti riquezas, nem pediste a vida de teus inimigos; mas pediste para ti entendimento, para discernires o que é justo; Eis que fiz segundo as tuas palavras; eis que te dei um coração tão sábio e entendido, que antes de ti igual não houve, e depois de ti igual não se levantará. E também até o que não pediste te dei, assim riquezas como glória; de modo que não haverá um igual entre os reis, por todos os teus dias”.1 Reis 3:5-13
UM JULGAMENTO DE SALOMÃO. “Então vieram duas mulheres prostitutas ao rei, e se puseram perante ele.E disse-lhe uma das mulheres: Ah! senhor meu, eu e esta mulher moramos numa casa; e tive um filho, estando com ela naquela casa. E sucedeu que, ao terceiro dia, depois do meu parto, teve um filho também esta mulher; estávamos juntas; nenhum estranho estava conosco na casa; somente nós duas naquela casa. E de noite morreu o filho desta mulher, porquanto se deitara sobre ele. E levantou-se à meia-noite, e tirou o meu filho do meu lado, enquanto dormia a tua serva, e o deitou no seu seio; e a seu filho morto deitou no meu seio. E, levantando-me eu pela manhã, para dar de mamar a meu filho, eis que estava morto; mas, atentando pela manhã para ele, eis que não era meu filho, que eu havia tido. Então disse a outra mulher: Não, mas o vivo é meu filho, e teu filho o morto. Porém esta disse: Não, por certo, o morto é teu filho, e meu filho o vivo. Assim falaram perante o rei. Então disse o rei: Esta diz: Este que vive é meu filho, e teu filho o morto; e esta outra diz: Não, por certo, o morto é teu filho e meu filho o vivo. Disse mais o rei: Trazei-me uma espada. E trouxeram uma espada diante do rei. E disse o rei: Dividi em duas partes o menino vivo; e dai metade a uma, e metade a outra. Mas a mulher, cujo filho era o vivo, falou ao rei (porque as suas entranhas se lhe enterneceram por seu filho), e disse: Ah! senhor meu, dai-lhe o menino vivo, e de modo nenhum o mateis. Porém a outra dizia: Nem teu nem meu seja; dividi-o. Então respondeu o rei, e disse: Dai a esta o menino vivo, e de maneira nenhuma o mateis, porque esta é sua mãe. E todo o Israel ouviu o juízo que havia dado o rei, e temeu ao rei; porque viram que havia nele a sabedoria de Deus, para fazer justiça”. 1 Reis 3:16-28

sábado, 21 de fevereiro de 2015

PORTADORES DA IMAGEM



Portadores da imagem dos pais. Uma das grandes alegrias da paternidade e maternidade, é que, doravante, em condições normais, os filhos são portadores da imagem dos pais. Como tal algumas conquistas destes, são até mais gratificantes que uma realização pessoal. Um testemunho pessoal, neste sentido, comemoramos muito quando nosso filho passou no ITA, uma experiência que havíamos intentado muitos anos atrás, sem todavia ter tido êxito. Também o mestrado em engenharia na  PUC de nossa filha, completou, de certa forma, nosso mestrado em área afim, inconcluso à época por razões de preciosismo e postergação na defesa da tese.
Esta imagem dos pais, é o primeiro referencial no desenvolvimento da personalidade dos filhos. Do ponto de vista dos filhos, a imagem dos pais provê um verdadeiro porto seguro em meio às descobertas e desafios do dia-a-dia, mormente na etapa inicial da vida, e, um fundamento sólido em que se apoiar doravante. Fomentada pela desvalorização da família, a perda do referencial paterno/materno tem se revelado uma das grandes tragédias da modernidade. Na sua falta, outros referenciais, não tão confiáveis, como a televisão e o mundo, vão monopolizando e conformando pessoas.
Portadores da imagem de Deus, que também é Pai nosso. Do ponto de vista da Bíblia, o significado da vida está vinculado ao fato de sermos criados por Deus, à Sua imagem, e para Deus, com um destino eterno. Isso muda radicalmente nossa percepção do que os seres humanos são. Do contrário, andamos em direção ao que um filosofo chamou de “incoerência autoreferencial.” O que ele pretendia dizer com essa expressão é que nos comparamos a  nós mesmos. Não temos padrões externos pelos quais alguma coisa deva ser julgada; não podemos achar uma âncora para nosso ser, em nenhum lugar. Por isso, mergulhamos em prazeres temporários, ou na busca de dinheiro, ou na autopromoção, mas não temos uma âncora que nos firma e nos dá um significado que esteja além de nós mesmos. Não há nenhuma escala. Os seres humanos foram criados à imagem de Deus, e, como portadores dessa imagem, devem ser abundantemente centrados em Deus”.
A falta que esses referenciais fazem. “O  Mundo hoje está cheio de pessoas que sofrem de uma doença devastadora que Albert Camus chamou de absurdismo ( a vida é uma piada sem graça), e , de um mal que poderíamos chamar de febre de Maria Antonieta, que disse que nada tem gosto. Estes males destroem tudo na vida: tudo se torna ao mesmo tempo um problema e um enfado, porque parece que nada vale a pena”. Também o “niilismo é a opinião de que a vida não tem significado intrínseco ou objetivo. Muitos caminhos serpenteiam em direção ao niilismo, mas nenhum é mais sedutor do que aquele que diz que os seres humanos não são nada além de uma coleção de moléculas arranjadas de modo útil, seres que surtiram por puro acaso da sopa primordial. Onde está o significado em seres desse tipo?”
O que faz a vida valer a pena.  Para responder esta questão abrangente, cabe refletir antes: para que fomos feitos? que alvo devemos estabelecer para nós mesmos na vida? qual é a melhor coisa na vida, que traz mais alegria, prazer e contentamento que qualquer outra?”  Só assim podemos então responder de forma conclusiva: “o que faz a vida valer a pena é ter um objetivo suficientemente elevado, algo que prenda a nossa imaginação e ao qual nos dedicaremos fielmente, e, para o cristão não existe objetivo maior, mais alto e mais motivador do que conhecer a Deus”. Ser feito à imagem e semelhança de Deus, ser portador da imagem de Deus, inclui a capacidade de conhecer a Deus, deleitar-se nEle. Conhecer Deus deve ser o objetivo de todo cristão, um conhecimento pessoal, que vai muito além de um conhecimento bom mas insuficiente sobre Deus. Este conhecimento se dá dentro de um relacionamento que o filosofo Martin Buber consagrou com a expressão: “EU-TU”. Deus nos criou para sermos Seus companheiros, alguém com quem  se relacionar, conversando - falando e escutando - como é próprio e natural entre pessoas. “Fizeste-nos, Senhor, para ti, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em ti”. Santo Agostinho


Fontes: “O Deus Presente”, de D. A. Carson, e, “O conhecimento de Deus”, de J. I. Packer.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

ANO NOVO, O QUE MUDA? AFINAL, TUDO PASSA... E, O QUE PODEMOS LEVAR DO ANO QUE PASSOU ?


Com os primeiros dias de 2015 em curso, e os votos de boas festas de final de 2014, quase já deixados para trás, é oportuno também fazer um balanço sobre o que muda, com mais um ano de existência, mormente como membro da terceira idade, quando o tempo parece voar. Neste sentido anotei duas avaliações afins, publicadas na mídia recente, das quais destaco:
Da revista VEJA : “Envelhecer é uma arte?” (de Claudio de Moura Castro) – “Amadurecemos com a idade? Ou acumulamos azedumes e rabugices? Ficamos cada vez mais impacientes com a burrice humana? Ou mais bem blindados contra ela? Cada um é cada um. Entre 40 e 50 anos, bate um pessimismo, uma insegurança difusa. Caminhando pelas ruas, vemos logo que tem jeito de aposentado. Falta chispa nos olhos e o andar sugere que não quer chegar a parte alguma. Maslow percebia uma perda progressiva da motivação para fazer as coisas e lidar com desafios. Mais e mais empreitadas deixavam de valer a pena. Paulo Freire ponderou que envelhecer é perder a curiosidade. É o ocaso das faculdades mentais: degrada-se a memória, sobretudo a de curto prazo e a dos nomes e datas; o raciocínio matemático começa a derrapar. A boa notícia é que a capacidade de julgamento, a sabedoria , o espirito de finesse, mencionado por Pascal, não apenas sobrevivem, mas progridem. Comprovou-se que os velhos precisam ter menos para decidir sobre algum assunto, com igual competência. Sabemos também que a inteligência reage como um músculo. A qualquer idade, é fortalecida com exercícios e evapora com a inação. A letargia intelectual mata.”
Da revista ULTIMATO : “2015 – O primeiro ano do resto da sua vida” (Rubem Amorese). “Recém-aposentado, tenho pensado sobre como viver melhor os anos que me restam. E o que quer que eu decida, gostaria de começar em janeiro de 2015. Podemos reduzir os compromissos, as metas de produtividade, as avaliação de rendimento e coisas assim. Como viver melhor os anos que me restam? Aposentado, sem patrão, sem mais ter uma obrigação de trabalho, viver a vida que quisermos. Transformo minhas pesquisas, até aqui, em recomendações. Ainda genéricas, mas que têm guiado meus projetos para este ano: Pense em algo que você goste de fazer, ou que faria por amor. Ou por amar. Ou seja, não diretamente para ganhar dinheiro, prestigio ou coisa assim. Talvez para ganhar afeto e novas amizades. Pense em algo que beneficie, que abençoe pessoas. Individualmente ou em grupo. Algo que você doe a elas. Sem esperar retorno. Sem que elas possam lhe pagar. Pense em algo que promova a união entre todos, por laços afetivos, incluindo você. E que essa união seja gostosa e esperançosa...”
Há poucos dias de comemorar 67 anos, tais registros, me subsidiam, ao fazer um balanço pessoal do ano que passou, no qual percebo, no lado das perdas, necessidades de reparar ameaças crescentes, e, no lado dos ganhos, oportunidades de ampliar benefícios:
DO LADO DAS PERDAS perda de amizades, esfriadas pela distância, ou falta de contato, com destaque para a turma de engenharia (de 1970), colegas de trabalho (de 1970/2006), e irmãos em Igrejas onde congregamos em Recife, Rio de Janeiro, Brasilia e Curitiba; de motivação e de iniciativa, que nos faria mais proativo naquilo que estiver ao alcance, e que seja de natureza “honesta, justa, pura, amável e de boa fama”, tornando a vida mais solidária; tempo desperdiçado (o tempo que realmente conta é o tempo interno, do coração, e que diferentemente do tempo externo, dito objetivo, onde cada minuto é igualzinho a todos os demais, neste tempo, subjetivo, o que vale é a intensidade com que é vivido. Sobre esta diferença Charles Baudelaire ponderou:Dizem que tenho trinta anos. Porém, se tivesse vivido três minutos em apenas um minuto, não teria agora noventa anos?”. É também o tempo da consciência, do espírito, e que não passa, só se acumula ao longo da vida. Em contraposição “o tempo que sentimos estar passando é tempo perdido”.)
DO LADO DOS GANHOS:  acúmulo de experiência que se transforma em sabedoria compartilhada, como o prazer das coisas simples, e curtidas num ritmo mais  devagar; de paciência, inclusive para abrir mão do controle, dando mais atenção às iniciativas que não as próprias; de restauração da capacidade de admirar-se (natural na infância), com a atenção também voltada para as dimensões subjetivas da imaginação, do sublime, e do inefável, vis a vis o monopólio árido da razão objetiva e utilitária; de ocorrências, durante os sonhos, de lembranças prazerosas, trazendo de certa forma à vida momentos alegres de um passado distante, e até então esquecidos; de resignação, nesta altura da vida, na corrida da prosperidade, em detrimento de mais “ajuntamento de tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam...”;  de significado, ganho pela ação solidária nas áreas de educação cristã (na Igreja), e secular (reforço escolar em Instituição afim, de abrigo à crianças carentes), com o beneficio extra de exercitar neurônios preguiçosos; do renascimento da esperança de maior justiça social no País,  despertada pela ação corajosa, e, com aparente liberdade, do Ministério Publico, no combate à corrupção endêmica no País.
Ainda no lucro, contabilizo momentos comuns de deleite, na convivência familiar (e nada como o chamamento irresistível das netas!)  e com amigos;  nas leituras com novos insights enriquecedores, que ampliam nossa visão; nos filmes que tocam o coração; nos quilômetros acumulados com caminhadas diárias no Parque Barigui, e, que contribui ainda na manutenção dos indicadores de saúde; nas viagens, curtas e esporádicas, sem a sofreguidão do turista compulsivo, em cada esquina compras e flashes, para exibição no whatsapp, sem tempo para admiração presencial.
Destaque especial para um maior sentido da Presença de Deus sobre a qual Frei Lawrence escreveu: “E considero minha tarefa exclusiva perseverar na santa presença de Deus, onde me mantenho mediante pequenino esforço de atenção e um amoroso olhar, estabelecendo uma constante, silenciosa e secreta conversa de minha alma com Ele, o que frequentemente produz em meu íntimo, bem como no meu exterior, tão grande alegrias e arrebatamentos, que sou forçado a moderá-los para evitar que outros os observem”.