domingo, 19 de abril de 2015

“ENSINA-NOS A CONTAR OS NOSSOS DIAS”





“MEMENTO MORI” é um pensamento cristão, usado como saudação entre os monges trapistas, e significa, “lembra-te que hás de morrer”; também empregado em inscrições tumulares” tais como “Memento homo qui a pulvis est et in pulvere revertere” (lembra-te homem, que és pó, e ao pó retornarás), longe de ser um pensamento mórbido ou depressivo, trata-se de uma expressão de sabedoria conforme empregada pelo salmista no título acima.
A imprevisibilidade e a brevidade, são duas características inerentes à vida, e, que esporadicamente são acentuadas em determinadas circunstâncias críticas: como em cada parente e amigo que “se vai”, é como que um eloquente sinal de atenção, para se parar e refletir sobre o dom (presente) da vida. Assim vamos acumulando lembranças bem guardadas, com muito carinho, de pais e outros familiares, e, de amigos, que hoje já encerraram suas jornadas neste lado da vida (saudades da minha turma de engenharia de 1970, o primeiro passo para uma vida que se anunciava plena de desafios e vitórias no campo profissional; quantos sonhos foram realizados, quantos interrompidos ?). E o pensamento recorrente de que poderia também não estar mais deste lado da vida! E o que estaria (estariam) fazendo  agora? Por oportuno, considerar a “aposta de Pascal” (1). É quando na imaginação, ultrapassamos as barreiras do tempo e do espaço, para vislumbrar um instante da eternidade, trazendo de volta à vida, lembranças adormecidas com o sabor de emoções vividas. Também nas tragédias, como a ocorrida com o voo da Lufthansa, em um passado recente (dentre as vítimas, uma jovem doutora que era nossa amiga), e mais recente com o avião da Germanwings (2), de grande comoção mundial, são como que outdoors iluminados, com “Memento Mori”. Noticias de terríveis catástrofes, massacres, assassinatos nos chegam todos os dias, e, aparentemente, já não mais nos abalam mais, pois de tão continuados virou quase uma rotina trágica.
“Calcula-se que, desde seu aparecimento no planeta Terra, cerca de 80 bilhões de seres humanos já viveram em sua superfície. A Revolução Industrial melhorou as condições sanitárias nas cidades e permitiu o desenvolvimento de novos remédios, vacinas e anestesias. A descoberta da penicilina (1928), a vacina contra a poliomielite, contra a rubéola, contra o sarampo, contra a hepatite aprimoraram a medicina. Os estudos do genoma humano fez com que os males genéticos passassem a ser combatidos antes mesmo do aparecimento dos sintomas. Vacinas contra a malária, e contra a aids, a medicina genética, pode aprimorar tratamentos contra o câncer. Uma pesquisa da consultoria americana Pew Research mostrou que 69% das pessoas dizem preferir morrer entre 79 e 100 anos, a sobreviver até mais de 120 anos,  mas, decrépitos e descrentes, desesperados, e, inevitavelmente chegariam a um estágio em que prefeririam a morte. (Reportagem da Veja)
As perdas nos dão a exata dimensão dos ganhos, sendo a morte, a perda maior que podemos sofrer, que nos faz valorizar a vida. “As perdas que se acumulam ao longo da vida podem ser distribuídas em : doenças crônicas e limitações físicas em si próprio;  morte de parentes e amigos; morte de um animal de estimação; perdas materiais significativas. Tendo em vista que a vida é o dom maior que recebemos, não devemos pensar que a morte deva ser procurada. Devemos, sim, viver a vida em plenitude, no tempo que nos for dado viver. Devemos respeitar a vida, desde a concepção até a morte, cuidando dela, tornando-a a melhor possível, para nós e para todos os seres vivos ao redor de nós, enquanto vida tivermos. Qualquer pessoa de bom senso com certeza gostará de deixar uma recordação, por menor que seja, de alguém que deu bons frutos, que justificou sua passagem por esta vida. Não necessariamente por grandes obras, quase sempre de importância duvidosa, mas essencialmente pelas pequeninas coisas boas que fez no dia a dia, pelo comportamento ético e respeitoso. “
O medo de morrer é inerente a nossa vida. “É por causa dele que nos encontramos vivos até hoje. Trata-se de uma reação instintiva que nos  afasta das situações de perigo. É pelo medo de morrer que não pulamos no mar, se não sabemos nadar. Enquanto dentro de certos limites, este medo é saudável e desejável. Contudo, se ele os ultrapassa, pode tornar-se um entrave para a qualidade de vida, impedindo a pessoa de realizar coisas normais. Temos medo da dor, do sofrimento, da dependência de terceiros, de situações degradantes que possamos enfrentar, enfim, de qualquer desconforto mais acentuado. Com o avanço dos conhecimentos e, sobretudo da tecnologia, o ser humano foi se tornando a cada dia, mais distante do ciclo vital universal da vida e da morte, que para ele se tornou um terror”.
Destaques do Manual do Fabricante (DEUS mesmo):
- “porque tu és pó e ao pó tornarás”(Gênesis 3:19)
- Porque mil anos são aos teus olhos como o dia de ontem que passou, e como a vigília da noite (Salmos 90:4)
Tu os levas como uma corrente de água; são como um sono; de manhã são como a erva que cresce. De madrugada floresce e cresce; à tarde corta-se e seca (Salmos 90:5-6)
...passamos os nossos anos como um conto que se conta (Salmos 90:9)
Os dias da nossa vida chegam a setenta anos, e se alguns, pela sua robustez, chegam a oitenta anos, o orgulho deles é canseira e enfado, pois cedo se corta e vamos voando (Salmos 90:10)
Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sábios (Salmos 90:12)
Comentando este Salmos 90, o Rabbi Joshua Haberman, pondera: “A vida é cheia de contradições: é um presente – que é tomado à frente. É crescimento – e declínio; oferece prazeres – e pânico. Entre os muitos bilhões de pessoas, não existem dois iguais, mas todos compartilham o mesmo fim. Tudo que nós somos desaparece na morte, ou pelo menos assim parece para nós. Dois mistérios envolvem a vida: onde estávamos antes de nascer e o que seremos depois da morte. O salmo fala para nós acerca de realidades da vida. Nossa breve manhã da vida começa com um espantoso poder para crescer (v 6). Mas breve nós começamos a declinar (v 6). O salmista dimensiona nosso período curto normal de vida normal (v 10). Mas mesmo quando vivemos até seus limites, a vida é um mero lampejo da eternidade (v 10). Porque nosso tempo é tão curto, não podemos nesciamente desperdiçá-lo. Para fazer uso próprio de nosso tempo de vida, nós precisamos de sabedoria (v 12). Mas independentemente de como vivemos nossas vidas, sábia ou nesciamente, o que permanece quando tudo se foi é como sem substancia (v 9). Isto, todavia, não é a história completa. O homem tem um lugar com o Eterno. Na presença de Deus, tempo não tem significado. (v 4).  
- “Tragada foi a morte na vitória”.1 Coríntios 15:54. A boa noticia da Páscoa, e que é o suporte de todo o Evangelho, é a morte da própria morte. Doravante é vida eterna, com a promessa de ressurreição envolvendo corpo e alma. “A ressurreição de Jesus Cristo (no passado) e a ressurreição de nosso corpo (que ainda é futuro), estão ambas relacionadas, por Jesus Que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas”. Filipenses 3:21. Isto é fantástico ! muito além do que poderíamos imaginar !

P. S.
(1)A Aposta de Pascal “é uma proposta argumentativa de filosofia criada pelo filósofomatemático e físico francês do século XVII Blaise Pascal. Ela postula que há mais a ser ganho pela suposição da existência de Deus do que pelo ateísmo, e que uma pessoa racional deveria pautar sua existência como se Deus existisse, mesmo que a veracidade da questão não possa ser conhecida de fato. Historicamente, foi um trabalho pioneiro no campo da teoria das probabilidades, marcou o primeiro uso formal da teoria da decisão, e antecipou filosofias futuras como existencialismopragmatismo e voluntarismo.
Este argumento tem o formato que se segue:
  • se você acredita em Deus e estiver certo, você terá um ganho infinito;
  • se você acredita em Deus e estiver errado, você terá uma perda finita;
  • se você não acredita em Deus e estiver certo, você terá um ganho finito;
  • se você não acredita em Deus e estiver errado, você terá uma perda infinita.
Pascal referenciou a dificuldade da razão posta para a crença genuína propondo que "agir como se acreditar" pudesse "curar da descrença". (Wikipédia)


(2)“Entre os 150 mortos do vôo da Germanwings havia 16 adolescentes de 15 a 16 anos de um mesmo colégio da cidade ... de apenas 38.000 habitantes... Os estudantes alemães eram vistos na escola como privilegiados. Eles haviam sido sorteados, entre 40 alunos, para um intercâmbio de uma semana em Barcelona, na Espanha, com o intuito de aprender espanhol morando em casas de família. Duas professoras acompanhavam o grupo na viagem sem volta. Uma das alunas por pouco não escapou. Ela havia esquecido seu passaporte e, evidentemente, não poderia embarcar. Mas a família que a acolheu em Barcelona percorreu os 50 km até o aeroporto para lhe entregar o documento, e ela finalmente embarcou com os companheiros de estudo e sorrisos. O desastre nos Alpes matou cidadãos de 18 países, incluindo outros adolescentes, uma criança e 2 bebês, um de apenas 7 meses.” (Reportagem da Veja).

quinta-feira, 19 de março de 2015

O PEDIDO DE SALOMÃO



O famoso rei Salomão, o terceiro rei de Israel, governando durante cerca de quarenta anos (segundo algumas cronologias bíblicas, de 1009 a 922 a.C. ) passou à história por sua notória sabedoria. Sua fama chegou tão longe que abalou até à rainha da distante Sabá  - a localização deste reino pode ter incluído os atuais territórios da Etiópia e do Iêmen - a empreender uma longa viagem para comprovar a veracidade dos fatos. Ocorre que a origem desta sabedoria, consoante registro bíblico, foi uma resposta de Deus a um pedido acertado de Salomão, por ocasião de sua elevação ao trono, quando, durante à noite, em sonhos, Deus lhe fala: “pede-me o que queres que eu te dê ”, e, Salomão pede então sabedoria para governar bem o povo. Isto é fato, mas não é toda a verdade. Na realidade, o pedido de Salomão foi: “dá, pois, a teu servo coração compreensivo para julgar o teu povo, para que prudentemente discirna entre o bem e o mal.
“A palavra traduzida comumente por sabedoria, é, antes, um coração compreensivo. “A palavra compreensivo, em hebraico, é “shama”, que significa ouvir, escutar, obedecer. Shama é um conceito muito diferente de sabedoria e é uma das mais belas atitudes e que mais agradam a Deus. Sabedoria consiste de um acúmulo de conhecimentos e experiências reunidos dentro de um ser humano. Para exercitar sabedoria, a pessoa precisa vasculhar seu interior à busca de respostas, extraindo do seu reservatório fatos, valores, sistemas, abordagens e ensinamentos recebidos de outrem, além dos frutos de sua própria educação, prática, percepções e experiências de vida armazenados ao longo de sua vida. Sabedoria, de acordo com a bíblia, tem a ver com habilidade, sagacidade e prudência; é a correta aplicação do conhecimento. A memória de ocasiões em que fomos tolos ou vítimas de tolice, resultando em grande prejuízo pessoal, faz-nos prestar profundo respeito à sabedoria, dando-lhe o lugar de honra que merece. A sabedoria é um valioso recurso,... entretanto, em hipótese alguma serve como substituto para um coração que ouve e, sozinha, a sabedoria pode até ser um empecilho...” vide um coração soberbo, inchado de conhecimentos adquiridos.
O coração que ouve, que Salomão pediu, envolve humildade e dependência de Deus:  “sou um menino pequeno que não sabe como sair, nem como entrar”. Com humildade, o coração “shama” confessa ignorância e busca resposta, não a partir dos recursos pessoais de sabedoria, mas, sim, com base num relacionamento dinâmico de dependência com o próprio Senhor Jesus, como o Deus Vivo. A sabedoria, num certo sentido, é estática, completa em si mesma e autoconfiante; um coração que ouve é dinâmico e dependente de Deus”.
(Fonte: Um Coração que Ouve, artigo de Eric Mumford, publicado na Revista “Impacto” nov/dez 2005).
Um exemplo de julgamento de Salomão encontramos no relato bíblico da disputa entre duas mães, uma das quais o filho tinha nascido morto, e o da outra vivo. No julgamento, Salomão vivencia um espirito de empatia com a mãe verdadeira, a qual, até então desconhecia. Assim, ao invés de arrazoar com base em um questionamento e provas, baseado em seu cabedal de conhecimentos e experiências pessoal, o rei Salomão transfere o foco da decisão para ouvir a reação de cada mãe ante uma proposta que poria em risco a vida da criança, teste que a verdadeira mãe jamais aceitaria passar, mesmo em detrimento da perda do filho para a outra mãe impostora. 
Com Salomão, considerado um dos homens mais sábios que já existiu,  aprendemos a lição de que ter um coração que ouve, humildade (“a verdadeira humildade significa respeito aos demais”), e dependência de Deus (não implica que o governo deve ter uma religião, antes professamos a fé reformada que faz separação entre Igreja e Estado), estão entre as principais qualidades de um governante que faz história, para o bem de todos e felicidade geral da Nação.

P.S. uma lição atual sobre a oportunidade de ouvidos que ouçam, os clamores dos movimentos sociais em curso em nosso País, com destaque para as manifestações recentes em praça pública.

Registros tal como estão na Biblia:
O PEDIDO DE SALOMÃO. “E em Gibeom apareceu o Senhor a Salomão de noite em sonhos; e disse-lhe Deus: Pede o que queres que eu te dê. E disse Salomão: De grande beneficência usaste tu com teu servo Davi, meu pai, como também ele andou contigo em verdade, e em justiça, e em retidão de coração, perante a tua face; e guardaste-lhe esta grande beneficência, e lhe deste um filho que se assentasse no seu trono, como se vê neste dia. Agora, pois, ó Senhor meu Deus, tu fizeste reinar a teu servo em lugar de Davi meu pai; e sou apenas um menino pequeno; não sei como sair, nem como entrar. E teu servo está no meio do teu povo que elegeste; povo grande, que nem se pode contar, nem numerar, pela sua multidão. A teu servo, pois, dá um coração entendido para julgar a teu povo, para que prudentemente discirna entre o bem e o mal; porque quem poderia julgar a este teu tão grande povo? E esta palavra pareceu boa aos olhos do Senhor, de que Salomão pedisse isso. E disse-lhe Deus: Porquanto pediste isso, e não pediste para ti muitos dias, nem pediste para ti riquezas, nem pediste a vida de teus inimigos; mas pediste para ti entendimento, para discernires o que é justo; Eis que fiz segundo as tuas palavras; eis que te dei um coração tão sábio e entendido, que antes de ti igual não houve, e depois de ti igual não se levantará. E também até o que não pediste te dei, assim riquezas como glória; de modo que não haverá um igual entre os reis, por todos os teus dias”.1 Reis 3:5-13
UM JULGAMENTO DE SALOMÃO. “Então vieram duas mulheres prostitutas ao rei, e se puseram perante ele.E disse-lhe uma das mulheres: Ah! senhor meu, eu e esta mulher moramos numa casa; e tive um filho, estando com ela naquela casa. E sucedeu que, ao terceiro dia, depois do meu parto, teve um filho também esta mulher; estávamos juntas; nenhum estranho estava conosco na casa; somente nós duas naquela casa. E de noite morreu o filho desta mulher, porquanto se deitara sobre ele. E levantou-se à meia-noite, e tirou o meu filho do meu lado, enquanto dormia a tua serva, e o deitou no seu seio; e a seu filho morto deitou no meu seio. E, levantando-me eu pela manhã, para dar de mamar a meu filho, eis que estava morto; mas, atentando pela manhã para ele, eis que não era meu filho, que eu havia tido. Então disse a outra mulher: Não, mas o vivo é meu filho, e teu filho o morto. Porém esta disse: Não, por certo, o morto é teu filho, e meu filho o vivo. Assim falaram perante o rei. Então disse o rei: Esta diz: Este que vive é meu filho, e teu filho o morto; e esta outra diz: Não, por certo, o morto é teu filho e meu filho o vivo. Disse mais o rei: Trazei-me uma espada. E trouxeram uma espada diante do rei. E disse o rei: Dividi em duas partes o menino vivo; e dai metade a uma, e metade a outra. Mas a mulher, cujo filho era o vivo, falou ao rei (porque as suas entranhas se lhe enterneceram por seu filho), e disse: Ah! senhor meu, dai-lhe o menino vivo, e de modo nenhum o mateis. Porém a outra dizia: Nem teu nem meu seja; dividi-o. Então respondeu o rei, e disse: Dai a esta o menino vivo, e de maneira nenhuma o mateis, porque esta é sua mãe. E todo o Israel ouviu o juízo que havia dado o rei, e temeu ao rei; porque viram que havia nele a sabedoria de Deus, para fazer justiça”. 1 Reis 3:16-28

sábado, 21 de fevereiro de 2015

PORTADORES DA IMAGEM



Portadores da imagem dos pais. Uma das grandes alegrias da paternidade e maternidade, é que, doravante, em condições normais, os filhos são portadores da imagem dos pais. Como tal algumas conquistas destes, são até mais gratificantes que uma realização pessoal. Um testemunho pessoal, neste sentido, comemoramos muito quando nosso filho passou no ITA, uma experiência que havíamos intentado muitos anos atrás, sem todavia ter tido êxito. Também o mestrado em engenharia na  PUC de nossa filha, completou, de certa forma, nosso mestrado em área afim, inconcluso à época por razões de preciosismo e postergação na defesa da tese.
Esta imagem dos pais, é o primeiro referencial no desenvolvimento da personalidade dos filhos. Do ponto de vista dos filhos, a imagem dos pais provê um verdadeiro porto seguro em meio às descobertas e desafios do dia-a-dia, mormente na etapa inicial da vida, e, um fundamento sólido em que se apoiar doravante. Fomentada pela desvalorização da família, a perda do referencial paterno/materno tem se revelado uma das grandes tragédias da modernidade. Na sua falta, outros referenciais, não tão confiáveis, como a televisão e o mundo, vão monopolizando e conformando pessoas.
Portadores da imagem de Deus, que também é Pai nosso. Do ponto de vista da Bíblia, o significado da vida está vinculado ao fato de sermos criados por Deus, à Sua imagem, e para Deus, com um destino eterno. Isso muda radicalmente nossa percepção do que os seres humanos são. Do contrário, andamos em direção ao que um filosofo chamou de “incoerência autoreferencial.” O que ele pretendia dizer com essa expressão é que nos comparamos a  nós mesmos. Não temos padrões externos pelos quais alguma coisa deva ser julgada; não podemos achar uma âncora para nosso ser, em nenhum lugar. Por isso, mergulhamos em prazeres temporários, ou na busca de dinheiro, ou na autopromoção, mas não temos uma âncora que nos firma e nos dá um significado que esteja além de nós mesmos. Não há nenhuma escala. Os seres humanos foram criados à imagem de Deus, e, como portadores dessa imagem, devem ser abundantemente centrados em Deus”.
A falta que esses referenciais fazem. “O  Mundo hoje está cheio de pessoas que sofrem de uma doença devastadora que Albert Camus chamou de absurdismo ( a vida é uma piada sem graça), e , de um mal que poderíamos chamar de febre de Maria Antonieta, que disse que nada tem gosto. Estes males destroem tudo na vida: tudo se torna ao mesmo tempo um problema e um enfado, porque parece que nada vale a pena”. Também o “niilismo é a opinião de que a vida não tem significado intrínseco ou objetivo. Muitos caminhos serpenteiam em direção ao niilismo, mas nenhum é mais sedutor do que aquele que diz que os seres humanos não são nada além de uma coleção de moléculas arranjadas de modo útil, seres que surtiram por puro acaso da sopa primordial. Onde está o significado em seres desse tipo?”
O que faz a vida valer a pena.  Para responder esta questão abrangente, cabe refletir antes: para que fomos feitos? que alvo devemos estabelecer para nós mesmos na vida? qual é a melhor coisa na vida, que traz mais alegria, prazer e contentamento que qualquer outra?”  Só assim podemos então responder de forma conclusiva: “o que faz a vida valer a pena é ter um objetivo suficientemente elevado, algo que prenda a nossa imaginação e ao qual nos dedicaremos fielmente, e, para o cristão não existe objetivo maior, mais alto e mais motivador do que conhecer a Deus”. Ser feito à imagem e semelhança de Deus, ser portador da imagem de Deus, inclui a capacidade de conhecer a Deus, deleitar-se nEle. Conhecer Deus deve ser o objetivo de todo cristão, um conhecimento pessoal, que vai muito além de um conhecimento bom mas insuficiente sobre Deus. Este conhecimento se dá dentro de um relacionamento que o filosofo Martin Buber consagrou com a expressão: “EU-TU”. Deus nos criou para sermos Seus companheiros, alguém com quem  se relacionar, conversando - falando e escutando - como é próprio e natural entre pessoas. “Fizeste-nos, Senhor, para ti, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em ti”. Santo Agostinho


Fontes: “O Deus Presente”, de D. A. Carson, e, “O conhecimento de Deus”, de J. I. Packer.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

ANO NOVO, O QUE MUDA? AFINAL, TUDO PASSA... E, O QUE PODEMOS LEVAR DO ANO QUE PASSOU ?


Com os primeiros dias de 2015 em curso, e os votos de boas festas de final de 2014, quase já deixados para trás, é oportuno também fazer um balanço sobre o que muda, com mais um ano de existência, mormente como membro da terceira idade, quando o tempo parece voar. Neste sentido anotei duas avaliações afins, publicadas na mídia recente, das quais destaco:
Da revista VEJA : “Envelhecer é uma arte?” (de Claudio de Moura Castro) – “Amadurecemos com a idade? Ou acumulamos azedumes e rabugices? Ficamos cada vez mais impacientes com a burrice humana? Ou mais bem blindados contra ela? Cada um é cada um. Entre 40 e 50 anos, bate um pessimismo, uma insegurança difusa. Caminhando pelas ruas, vemos logo que tem jeito de aposentado. Falta chispa nos olhos e o andar sugere que não quer chegar a parte alguma. Maslow percebia uma perda progressiva da motivação para fazer as coisas e lidar com desafios. Mais e mais empreitadas deixavam de valer a pena. Paulo Freire ponderou que envelhecer é perder a curiosidade. É o ocaso das faculdades mentais: degrada-se a memória, sobretudo a de curto prazo e a dos nomes e datas; o raciocínio matemático começa a derrapar. A boa notícia é que a capacidade de julgamento, a sabedoria , o espirito de finesse, mencionado por Pascal, não apenas sobrevivem, mas progridem. Comprovou-se que os velhos precisam ter menos para decidir sobre algum assunto, com igual competência. Sabemos também que a inteligência reage como um músculo. A qualquer idade, é fortalecida com exercícios e evapora com a inação. A letargia intelectual mata.”
Da revista ULTIMATO : “2015 – O primeiro ano do resto da sua vida” (Rubem Amorese). “Recém-aposentado, tenho pensado sobre como viver melhor os anos que me restam. E o que quer que eu decida, gostaria de começar em janeiro de 2015. Podemos reduzir os compromissos, as metas de produtividade, as avaliação de rendimento e coisas assim. Como viver melhor os anos que me restam? Aposentado, sem patrão, sem mais ter uma obrigação de trabalho, viver a vida que quisermos. Transformo minhas pesquisas, até aqui, em recomendações. Ainda genéricas, mas que têm guiado meus projetos para este ano: Pense em algo que você goste de fazer, ou que faria por amor. Ou por amar. Ou seja, não diretamente para ganhar dinheiro, prestigio ou coisa assim. Talvez para ganhar afeto e novas amizades. Pense em algo que beneficie, que abençoe pessoas. Individualmente ou em grupo. Algo que você doe a elas. Sem esperar retorno. Sem que elas possam lhe pagar. Pense em algo que promova a união entre todos, por laços afetivos, incluindo você. E que essa união seja gostosa e esperançosa...”
Há poucos dias de comemorar 67 anos, tais registros, me subsidiam, ao fazer um balanço pessoal do ano que passou, no qual percebo, no lado das perdas, necessidades de reparar ameaças crescentes, e, no lado dos ganhos, oportunidades de ampliar benefícios:
DO LADO DAS PERDAS perda de amizades, esfriadas pela distância, ou falta de contato, com destaque para a turma de engenharia (de 1970), colegas de trabalho (de 1970/2006), e irmãos em Igrejas onde congregamos em Recife, Rio de Janeiro, Brasilia e Curitiba; de motivação e de iniciativa, que nos faria mais proativo naquilo que estiver ao alcance, e que seja de natureza “honesta, justa, pura, amável e de boa fama”, tornando a vida mais solidária; tempo desperdiçado (o tempo que realmente conta é o tempo interno, do coração, e que diferentemente do tempo externo, dito objetivo, onde cada minuto é igualzinho a todos os demais, neste tempo, subjetivo, o que vale é a intensidade com que é vivido. Sobre esta diferença Charles Baudelaire ponderou:Dizem que tenho trinta anos. Porém, se tivesse vivido três minutos em apenas um minuto, não teria agora noventa anos?”. É também o tempo da consciência, do espírito, e que não passa, só se acumula ao longo da vida. Em contraposição “o tempo que sentimos estar passando é tempo perdido”.)
DO LADO DOS GANHOS:  acúmulo de experiência que se transforma em sabedoria compartilhada, como o prazer das coisas simples, e curtidas num ritmo mais  devagar; de paciência, inclusive para abrir mão do controle, dando mais atenção às iniciativas que não as próprias; de restauração da capacidade de admirar-se (natural na infância), com a atenção também voltada para as dimensões subjetivas da imaginação, do sublime, e do inefável, vis a vis o monopólio árido da razão objetiva e utilitária; de ocorrências, durante os sonhos, de lembranças prazerosas, trazendo de certa forma à vida momentos alegres de um passado distante, e até então esquecidos; de resignação, nesta altura da vida, na corrida da prosperidade, em detrimento de mais “ajuntamento de tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam...”;  de significado, ganho pela ação solidária nas áreas de educação cristã (na Igreja), e secular (reforço escolar em Instituição afim, de abrigo à crianças carentes), com o beneficio extra de exercitar neurônios preguiçosos; do renascimento da esperança de maior justiça social no País,  despertada pela ação corajosa, e, com aparente liberdade, do Ministério Publico, no combate à corrupção endêmica no País.
Ainda no lucro, contabilizo momentos comuns de deleite, na convivência familiar (e nada como o chamamento irresistível das netas!)  e com amigos;  nas leituras com novos insights enriquecedores, que ampliam nossa visão; nos filmes que tocam o coração; nos quilômetros acumulados com caminhadas diárias no Parque Barigui, e, que contribui ainda na manutenção dos indicadores de saúde; nas viagens, curtas e esporádicas, sem a sofreguidão do turista compulsivo, em cada esquina compras e flashes, para exibição no whatsapp, sem tempo para admiração presencial.
Destaque especial para um maior sentido da Presença de Deus sobre a qual Frei Lawrence escreveu: “E considero minha tarefa exclusiva perseverar na santa presença de Deus, onde me mantenho mediante pequenino esforço de atenção e um amoroso olhar, estabelecendo uma constante, silenciosa e secreta conversa de minha alma com Ele, o que frequentemente produz em meu íntimo, bem como no meu exterior, tão grande alegrias e arrebatamentos, que sou forçado a moderá-los para evitar que outros os observem”.

sábado, 20 de dezembro de 2014

O QUE JESUS PEDIU AO PAI



O que Jesus quer neste Natal?  Segundo John Piper, nós podemos ver a resposta em Suas orações. O que Ele pedia a Deus? A sua mais longa oração está em João capitulo 17. Vejamos o clímax do Seu desejo:
“Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um. Eu neles, e tu em mim, para que eles sejam perfeitos em unidade, e para que o mundo conheça que tu me enviaste a mim, e que os tens amado a eles como me tens amado a mim”.(João 17:20-23).
Mais do que uma relação do tipo “Eu-Tu”, entre duas pessoas, “A perfeita unidade ... inclui a comunhão mística especial com Deus Filho (... eu neles...), o que, ao mesmo tempo, é a comunhão mística com Deus Pai (... tu em mim...). Disso resulta uma comunhão perfeita, bem com uma unidade perfeita, tal como a união entre Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo é perfeita. Eles possuem a mesma natureza, os mesmos desígnios, os mesmos propósitos, os mesmos padrões morais e os mesmos alvos. Os cristãos estão sendo dirigidos por essa mesma natureza divina, para o exercício dos mesmos propósitos, para que sigam a mesma expressão moral, para que busquem os mesmos alvos, para que conheçam o mesmo amor”. (Novo Testamento interpretado, versículo a versículo).
“Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo”. Existem aqueles que Deus “deu para Jesus”. Esses são aqueles que o Pai atraiu para o Filho (Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. João 6:44); pessoas que “receberam” Jesus como o crucificado e ressurreto Salvador e Senhor e Tesouro de suas vidas (Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. João 3:17 Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome;João 1:12) .
Jesus pediu ao Pai que eles estejam com Ele. Noutra ocasião, ele já havia dito que Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar. E quando eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também” (João 14:2-3).
“ …para que vejam a minha glória que me [o Pai] deste; porque tu me amaste antes da fundação do mundo.” Ele e o Pai e o Espírito são profundamente satisfeitos na comunhão da Trindade... E o que Jesus deseja para o Natal é que nós experimentemos aquilo para a qual nós realmente fomos feitos – contemplar e experimentar [saborear] sua glória. Isso é o que Jesus pede por nós neste Natal: Pai, mostre a eles a minha glória e dê-lhes o mesmo deleite em mim que Tu tens por mim”. Que nós não apenas vejamos Sua glória, mas a experimentemos, nos satisfaçamos nela, nos deleitemos nela, façamos dela o nosso tesouro, e a amemos !
E eu lhes fiz conhecer o Teu nome, e lho farei conhecer mais, para que o amor com que me tens amado esteja neles, ...” Esse é o final da oração. ... que nós O amemos com o mesmo amor que o Pai tem por Ele: “para que o amor com que me [o Pai] tens amado esteja neles.” O anseio e propósito de Jesus é que nós vejamos Sua glória, e, então, que nós sejamos capazes de amar o que vemos, com o mesmo amor que o Pai tem pelo Filho. Ele quer dizer que o próprio Amor do Pai se torne o nosso amor pelo Filho; que nós amemos o Filho com o amor do Pai pelo Filho. Isso é o que o Espírito se torna, e derrama em nossas vidas: Amor ao Filho pelo Pai através do Espírito. O que Jesus mais quer para o Natal é que Seus eleitos estejam reunidos para contemplar Sua glória e então experimentá-la com o mesmo gosto do Pai pelo Filho.






quarta-feira, 19 de novembro de 2014

RELAÇÕES NOTÁVEIS


Ter e Ser como dois modos diferentes de existir, juntamente com “Eu-Tu e Eu-Isso como duas formas de relacionamentos entre duas pessoas, e entre uma pessoa e uma coisa, respectivamente, são relações notáveis, pelo poder de síntese em expressar aspectos vitais da condição humana.
O psicanalista, sociólogo, e filosofo, Erich Fromm em seu livro “Ter e Ser” apresenta estas, como duas formas fundamentais de existência; são duas maneiras diversas de orientação de si mesmo, e, em relação ao mundo que nos rodeia; são duas diferentes espécies de estrutura de caráter cujas respectivas predominâncias determinam a totalidade do pensar, sentir e agir de uma pessoa.
No modo ser de existência domina a experiência viva que é inefável, e indefinivel. Esta não pode ser consumida, comprada ou adquirida como os objetos do ter, mas apenas praticada, exercitada, feita.
No modo ter de existência, meu relacionamento com o mundo é de pertença e posse, e quero ter cada vez mais; minha inclinação é voltada egoísticamente só para mim mesmo, meus interesses, meus desejos e necessidades, mesmo que se realizem em detrimento dos outros. Ter é uma função normal de nossa vida, e, a questão deixa de ser se a pessoa tem algo, mas se ela é dominada pelo desejo de posse, e se, se dedica de corpo e alma ao que tem ou não. E, não há quase nada que não possa vir a ser objeto do desejo de posse: coisas materiais, mas, também fixamos nossa vivência no modo ter, relacionado a virtudes e valores, como em ter honra, ter prestígio, ter determinada imagem, etc.
A diferença entre os modos ter e ser, pode ser ilustrada, por exemplo, em relação ao conhecimento, e, expressa-se em duas formulações: tenho conhecimento (substantivo, que indica algo perfeitamente definido) e conheço (verbo, que indica ação). Ter conhecimento é tomar e conservar posse de conhecimento disponível (informação); conhecer pelo contrário, significa penetrar através da superfície a fim de chegar às causas, significa ver a realidade em sua nudez. O conhecimento ideal no modo ser é conhecer mais profundamente; no modo ter é ter mais conhecimento. Diferentemente dos objetos do ter, cuja quantidade diminui quando utilizados, as realidades do modo ser, como o amor, crescem e aumentam quanto mais repartidos e empregados.
A inclinação dominante ao modo ter, em detrimento do ser, é característica da sociedade industrial ocidental, na qual a avidez por dinheiro, fama, e poder tornou-se o tema dominante da vida. Os consumidores modernos podem identificar-se pela fórmula: eu sou = o que tenho e o que consumo. É neste contexto atual, que o dinheiro, símbolo máximo de sucesso no modo ter de existir, assume as proporções de um deus, isto é, o foco onde  se põe o coração, e, que é a forma de idolatria mais comum na atualidade.
Outro filosofo, e rabino Martim Buber, deu ênfase à ideia de que não há existência sem comunicação e diálogo. “As palavras-princípio, Eu-Tu, Eu-Isso, demonstram as duas dimensões da filosofia do diálogo que, segundo Buber, dizem respeito à própria existência.
Eu-tu é um encontro de pessoas vivas se relacionando de modo a se conhecerem melhor, umas às outras; eu me deixo influenciar através do diálogo; ela se torna um tu. Minhas próprias mudanças dependem deste relacionamento.
Por outro lado, há diversos modos de existência caracterizada pela atitude Eu-Isso, que se resumem em dois conceitos: experiência  e a utilização ou uso. A experiência estabelece um contato na estrutura do relacionamento, de certo modo unidirecional entre um Eu, e um objeto manipulável; ao tomar a atitude Eu-Isso o Eu não se volta para o outro, mas encerra em si toda a iniciativa da ação. Por exemplo, "Eu considero uma árvore", diz Buber. Ela é meu objeto, um Isso. O relacionamento Eu-Isso, é indispensável para a vida humana. Sem ele, seria inviabilizada a possibilidade de se assegurar a continuidade da vida humana, suprindo as necessidades vitais por meio de toda uma variada gama de atividades técnicas, econômicas, institucionais, jurídicas, etc. A relação Eu-Isso não é nunca, em sí, um mal. Mas o mal pode residir na escravidão humana a essa atitude, apagando da face do homem a resposta responsável, a disponibilidade para o encontro com o outro. O homem precisa do mundo do Isso para viver, mas quem vive somente a relação Eu-Isso se desumaniza. Se analiso outra pessoa, ou a utilizo como objeto, para mim ela é um simples isso. Passo a querer manipulá-la como um objeto para o meu prazer. Em nossa época a relação eu/isso sobrepujou e dominou, de modo praticamente incontestado, a vida e as suas normas. Portanto, não existe mais dialogo. É este silêncio do dialogo eu-tu que constitui a tragédia do nosso mundo, a causa do fracasso da sociedade e da personalidade humana.”
Para Martim Buber, a relação Eu-Tu, deveria ser, a rigor, o relacionamento privilegiado, não só entre homem e homem, mas também, entre o homem e Deus: “O homem deve encontrá-Lo existencialmente, e não apenas intelectualmente...“. E, Santo Agostinho  pontifica:Tu me fizestes para ti mesmo e nossos corações não encontram paz até que descansem em Ti”.
Nós cristãos, cremos que fomos criados como imagem e semelhança de Deus, para sermos companheiros de Deus, numa jornada de vida, que é eterna, e, nesta condição, desfrutar de um relacionamento pessoal com Deus, do tipo Eu-Tu (a quem, reverentemente, chamamos, de Nosso Senhor e Pai Nosso), marcado pelo amor, que transborda para os outros, e, bem assim, empenhar-se pelo Reino de Deus.

Fontes: “Ter ou Ser”, de Erich Fromm, e, “Eu e Tu”, de Martin Buber.

domingo, 19 de outubro de 2014

BABEL COM MUITAS VOZES E MEDO DO SILENCIO




“O homem é um ser essencialmente social. Sozinho não pode vir a este mundo, não pode crescer, não pode educar-se; sozinho não pode nem ao menos satisfazer suas necessidades mais elementares nem realizar as suas aspirações mais elevadas. Ele pode obter tudo isso apenas em companhia dos outros.” Com os outros, temos, desde relações estreitas e pessoais, que o filosofo chama de “Eu-Tu” (por oposição à relação objetivante “Eu-Isso),  até relações impessoais, dinamizadas através da mídia. Neste interim, “os modernos meios de comunicação colocaram cada um de nós em contato com os acontecimentos (importantes ou insignificantes) que ocorrem em qualquer parte do mundo. A vida de cada um de nós, hoje pode ser abalada de alto a baixo por causa de fatos que acontecem em qualquer parte do mundo, parte onde não colocamos nunca o pé e de onde, talvez, façamos uma idéia muito vaga. O menor ato humano e, qualquer realidade, por menor que seja, são co-envoltas em um regime social, que os dirige e compenetra em cada parte”. (Batista Mondim).
Babel na atualidade !  Como um sinal dos tempos, vivemos como que inundados em meio a uma avalanche de vozes, muitas desencontradas,  disputando nossa atenção.  Muitas dessas vozes vão influindo na formação da nossa personalidade, e, passam a ter o peso e a força da autoridade e da experiência, razão pela qual nos deixamos conformar por elas.  Fontes dessas vozes são por exemplo, nossos parentes, amigos, professores, estranhos, imprensa, opinião popular, e,  o burburinho da rua.
O fato novo, na sociedade contemporânea, é a explosão da comunicação de massa, capaz de nos deixar desorientados, em meio a esta comunicação impessoal, pautada pela mídia, que tem o poder de transformar seus aditos, em meras estações repetidoras, de noticiários, refrãos, e, slogans de mercado. Alguém já disse mesmo que, na maior parte do tempo, a maior parte das pessoas, está apenas repetindo o que viu na mídia. Corremos mesmo o risco de sucumbir como meros objetos de interesses alheios, sendo manipulados dentro de uma relação impessoal, simulacro da comunicação proativa, “única que poderá elevar a raça humana para além do medo, da ignorância e do isolamento que atualmente a cercam”.
Sob o título Neurônios em modo padrão - nome que se dá a uma atividade neurológica caracterizada por oscilações neurológicas que ocorrem sempre que alguém fica sozinho consigo mesmo - Rubem Amorese comenta na revista Ultimato (set/out- 2014), uma pesquisa em que pessoas foram deixadas sozinhas, numa sala por 15 minutos, para meditar sobre qualquer assunto de sua escolha. O resultado foi que ficar sem fazer nada por apenas 15 minutos, é insuportável para a maioria das pessoas. Elas relataram que preferiam receber pequenos choques do que ficar sem fazer nada! Estamos tão acostumados com as muitas vozes que nos chegam desde um celular ligado, e, com ele a TV ou o rádio, que objetivamente levamos multidões para onde quer que estejamos, e, desta forma evitamos o temível “modo padrão”.
O medo de ficar em silêncio é um fator motivador dessa comunicação impessoal. “O medo de ficarem sozinhas petrifica as pessoas, e as impulsiona para o barulho e para as multidões. Conservamos uma constante torrente de palavras mesmo que sejam ocas. Compramos rádios que prendemos ao nosso pulso, ou ajustamos aos nossos ouvidos de sorte que, se não houver ninguém por perto, pelo menos não estamos condenados ao silêncio. Outro motivo de quase não aguentarmos permanecer em silêncio é que ele também nos faz sentir desamparados. Estamos muito acostumados a depender das palavras para manobrar e controlar os outros. Se estivermos em silêncio, quem assumirá o controle? O silêncio está intimamente relacionado com a confiança. A língua é nossa mais poderosa arma de manipulação. Uma frenética torrente de palavras flui de nós porque estamos num constante processo de ajustar nossa imagem pública. Tememos muito o que pensamos que as outras pessoas vêm em nós, de modo que falamos a fim de corrigir o entendimento delas. Se fiz alguma coisa errada e descubro que você sabe disso, serei muito tentado a ajudá-lo a entender minha ação!”
Para além do tumulto de muitas vozes, e, do medo do silêncio. Finalmente, considerando que não podemos simplesmente ignorar, ou modificar o ambiente saturado de comunicação, fazer o que?  
Usar filtros para selecionar dentre as muitas vozes que nos assediam , e, ter foco, para onde dirigir precipuamente a atenção, parece ser uma saída mais ou menos óbvia. Diz respeito à uma ocupação seletiva da mente, dentre as muitas vozes que nos chegam espontaneamente. No contexto tem a ver, por exemplo, com quantas vezes podemos perder tempo com atividades como de telespectador compulsivo, com ligações, e-mails, acesso a blogs de personalidades famosas, redes sociais e vídeos, que nada tem a ver com nossa atividade ou foco? Um exemplo: “Hoje ninguém pode se desgrudar da TV”, diz um conhecido apresentador de realities. Mas, é exatamente o contrário: precisamos manter a TV desligada, e, só ligar para ver algum programa previamente escolhido.
Steve Jobs, gênio da computação, e, ícone contemporâneo de prosperidade, que desenvolveu e comercializou uma das primeiras linhas de computadores pessoais de sucesso, pondera: “Algumas pessoas acham que foco significa dizer sim para as coisas em que você irá focar. Mas não é nada disso. Significa dizer não às centenas de outras boas idéias que existem. Você precisa selecionar cuidadosamente”.
Conselho de um sábio: “Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai. (Apostolo Paulo). Eis aí quatro filtros de primeira linha: só deve se tornar objeto de nossa atenção, o que passar nestes, a saber, o que é justo, puro, amável, e de boa fama.
Um paradigma: o foco e os filtros de Jesus Cristo. “Seu foco era unicamente conhecer e cumprir a vontade de Deus. Ele buscava transmitir esse princípio aos seus seguidores e lhes dizia: “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, e sim a vontade daquele que me enviou”. Seu grande conhecimento das Escrituras era o bastante para fornecer o conteúdo de seu foco; mas como Jesus foi capaz de evitar as distrações e se ater à vontade De Deus? Jesus passava tempo a só com Deus. Em busca de solidão e para ouvir a voz do Pai celestial. Ele jejuava para se lembrar de que seu foco era Deus. Ele se identificava com sua missão divina, promovia-a e tinha-a como a prioridade de sua vida. Jesus orava continuamente em busca de direção. Também Jesus tomou decisões bem diferentes do padrão porque filtrava informações por meio de um sistema de diretrizes mentais, emocionais e espirituais. Seu filtro eliminava suposições e expectativas em favor de uma análise precisa dos fatos e dos princípios das Escrituras. O sermão do monte contém um exemplo-chave de seu modo singular de pensar”. (George Barna).