segunda-feira, 19 de outubro de 2015

PESSOAS INESQUECÍVEIS



Sobre pessoas inesquecíveis, compartilho o pensamento do meu caro amigo e médico, Dr. José Luiz Pires (*): Penso que cada ser humano é uma síntese constituída de milhares de pessoas que passam a fazer parte dele. Desses milhares, um certo número tem uma parte mais significativa nesse universo-síntese. Entre os que são contados nesse certo número, estão alguns que, por uma razão ou outra, nos alcançaram de modo mais direto. E nestes, que nos alcançaram de um modo mais direto, estão os que atuaram em diferentes áreas, épocas e aspectos da nossa vida.”
Somos em grande parte, moldados pelas interações com outras pessoas, desde a família, amigos, colegas de trabalho, professores, líderes espirituais, etc. isto sem contar de que desfrutamos crescentemente dos avanços tecnológicos propiciados por muitos outros, ao longo da história; em resumo nossa interdependência, mostra o quanto somos devedores a tantos,  em meios aos quais naturalmente destacamos aquelas pessoas inesquecíveis, que nos tocaram de forma diferenciada e marcante.
Esta multiplicidade de influências converge então para uma singularidade, que é a vida de cada ser humano consciente. Na composição de cada um entram ingredientes comuns, mas que, em medidas e condições diferenciadas, em função de circunstancias e do próprio desenvolvimento de cada um, no seu conjunto enseja um ser único; ninguém é exatamente igual ao outro. “Cada homem traz algo de novo ao mundo, algo que ainda não existia, algo sério e único. A obrigação de cada homem... é saber refletir sobre seu caráter único em seu modo de ser e sobre o fato de nunca ter existido ninguém igual sobre a terra. Se alguém igual já tivesse habitado a terra, não precisaria estar aqui.” Para Viktor Frankl, sábio criador da Logoterapia (corrente da Psicologia centrado na busca de sentido, põe ainda em evidência a importancia de cada um: “O ser humano é um acontecimento único em todo o cosmo, por esse motivo ele mesmo se constituiria como um valor em si mesmo e também seria portador de uma dignidade inalienável. Como um ser irrepetível, nescessita encontrar e realizar um sentido para a sua vida.”
Por sua vez, a singularidade desenvolve-se não de forma autocentrada, mas antes pela orientação para o outro: ainda Viktor Frankl,compreeende que a meta mais nobre do ser humano seria a autotranscedência, fenômeno especificamente humano que significa que quanto mais a pessoa encontra-se voltada para algo ou alguém, mais humana será”.  Frankl cita os ensinamentos de Hillel, que sintetizou uma profunda sabedoria de vida por meio de três perguntas: se eu não o faço, quem o fará? e se eu não o faço agora, quando se fará? e se só para mim o faço, o que é que eu sou afinal? Para ele, a primeira pergunta se remeteria à unicidade do sentido e da pessoa humana. Assim o sentido é intransferível, pois seria dado para um determinado sujeito. Já a segunda pergunta se relacionaria com a transitoriedade do sentido; se o ser o humano o realiza, realiza para sempre, salvando na perenidade do passado. Por fim, a última pergunta despertaria a autotranscedência do ser humano, desviando o olhar de qualquer vantagem pessoal”.
Isto destaca a insensatez do egoísta, que se imagina no centro de tudo, em detrimento dos demais, como um poço que só recebesse água. É típico do egoísta, o pensamento de que “tudo que tenho é meu, me pertence por direito, e, afinal não devo nada a ninguém.
Ser, ou, tornar-se também inesquecível para outros, faz parte afinal de nossa vocação comum, aquilo para o qual fomos feitos. Aponta para a transcendência de nossas ações, onde tudo afinal se resume no amor: “Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes.” Marcos 12:30,31. Neste resumo do próprio Deus, criador de tudo, podemos encontrar aqueles para os quais devemos nos tornar pessoas inesquecíveis: Deus, em primeiro lugar; em seguida, para com o nosso próximo, na mesma medida de nós mesmos.

(*) escreveu “Sob a Mão de Deus”, “um relato de casos vividos por um médico numa região pioneira do País. Tabalhando em condições precaríssimas, esse cristão no seu labor profissional, foi levado a experimentar, de modo muito real, a mão de Deus – sábia, poderosa e cheia de amor, repousando sobre a sua”.


Fonte: A presença não ignorada de Deus na obra de Viktor Frankl, de Thiago Antonio Avellar de Aquino.

sábado, 19 de setembro de 2015

O QUE HÁ DE ERRADO COM O MUNDO ?




Uma foto que pesou mais do que milhões de palavras e discursos, mostra de forma inequívoca, que há algo de muito errado no mundo. A foto mostra o corpo sem vida de uma criança, boiando numa praia, após uma tentativa frustrada de sua família de fugir da morte, e das atrocidades de terroristas que assolam o País, e que impactou meio mundo, derretendo corações até então insensíveis, protegidos dentro das fronteiras de seus respectivos países, mais ou menos distantes do cenário onde se desenrola o drama dos refugiados sírios. Valeu a comoção pública mundial, ainda que tardia, pois revela que, por baixo desta camada de aparente insensibilidade e pragmatismo personalista, ainda há corações capazes de irem além das lágrimas!
Poderia ter sido mais um flash que acompanha as tristes estatísticas, infelizmente comuns e crescentes em nossos dias, objeto de noticiários que diariamente nos invadem a atenção e, que de tão frequentes, chegam quase a insensibilizar consciências, com o argumento que é mais um problema de outros, e, já temos os nossos. Neste contexto a reportagem da Veja destaca que somente neste ano, cerca de 2.600 pessoas morreram tentando chegar à Europa pelo mar, das mais de 300.000 que encararam a travessia. Nos últimos dias, as multidões atravessando fronteiras com pouco mais do que a roupa do corpo em trens,  a pé ou de bicicleta...” (1). Também a revista Ultimato, em sua edição de setembro/outubro de 2015, mostra o nº expressivo de pessoas deslocadas com guerra no Mundo, que, elevou-se de 37,5 milhões em 2005, para 43,7 milhões em 2010, 59,5 milhões em 2014.
Do outro lado, a recepção beligerante de alguns, nos países de destino almejado pelos refugiados, fruto de um raciocínio pragmático e frio: “Os que sobreviveram à travessia não são bem-vindos na Europa. Eles são muitos. São pobres. Muito diferentes. São até vistos como ameaça: “Os que estão chegando cresceram em outra religião e representam um cultura radicalmente diferente. A maioria deles não é cristã, mas muçulmana. A Europa tem uma identidade enraizada no cristianismo” (Viktor Orban, Primeiro-Ministro da Hungria) (1). Por oportuno, uma das bandeiras de um candidato em evidência nas pesquisas, para a próxima eleição presidencial nos EUA, é ostensivamente restritiva em relação aos imigrantes ditos ilegais, e que, se eleito, já “deixou claro que rescindirá as ordens executivas ... que impedem a expulsão tanto dos jovens imigrantes ilegais que chegaram ao país sendo crianças (os chamados "dreamers", ou "sonhadores"), como os pais de cidadãos americanos ou de filhos com status legal”.
Por fim uma ponderação nua e crua, do articulista, na referida revista: “Os europeus têm boas razões para reagir defensivamente. Os imigrantes não têm alternativa. A situação em que os dois lados de um conflito possuem razões legítimas e lutam para impô-las à força tem o nome de tragédia” (1). E aqui, complementamos, nesta situação onde aparentemente todos têm razão, e, por outro lado, ninguém é indesculpável, o Mal encontra terreno propício onde deita raízes.
A questão de fundo, que procura envolver Deus, e que também foi destaque na Capa da citada revista - “Deus, sendo bom, fez todas as coisas boas. De onde então vem o mal? (Santo Agostinho, nas Confissões). O mal (e o bem) vem do homem? (Czeslaw Milosz, Poeta Polonês ganhador do Nobel de Literatura) (1)
Teodiceia, palavra que se deriva de dois vocábulos gregos que significam “divindade” e “justiça”, diz respeito à discussão do problema da existência do  e de sua relação com a bondade de Deus. Ele pode ser expresso num dilema famoso: ou Deus é capaz de impedir o mal e não o quer, ou Ele quer impedi-lo e não é capaz. Se o anterior for verdade, Deus não é misericordioso; se o último, Ele não é onipotente. Outra versão similar: Se Deus é perfeitamente bom, Ele tem a vontade de remover o mal. Se Deus é perfeitamente poderoso, Ele é capaz de remover o mal. Mas, como o mal não tem sido removido, ou Deus não tem vontade ou é incapaz de remover o mal. Portanto, ou Deus não é perfeitamente bom, ou Ele não é perfeitamente poderoso”.
Alinhado com esta última, destacamos a concepção do escritor consagrado Harold Kushner, que “servindo como rabino de uma pequena cidade, sempre envolvido em levar consolo às pessoas visitadas pela dor e pelo sofrimento, no instante, em que soube que seu filho Aaron, de três anos de idade, morreria de uma doença rara no início da adolescência, ele se deparou com a mais importante e mais terrível questão que alguém pode enfrentar: “Por que coisas ruins acontecem às pessoas boas?”, e que ensejou seu livro bestseller (2). O que ele propõe é que, “Não é Deus que causa a tragédia, a doença, o sofrimento. Existe uma “aleatoriedade” no universo e a natureza é moralmente cega. Um terremoto não distingue entre pessoas boas e ruins. Nem o câncer. Nem o derrame cerebral. Nem a progéria. Não são “atos de Deus”.  Deus nos dá força, coragem e paciência para enfrentarmos os golpes da vida. Deus não é nosso adversário, mas sim nosso aliado. Deus é a fonte do nosso poder de suportar, nossa capacidade de superar e nossa determinação de continuar” (2).
Uma resposta fundamentada na Biblia, e que compartilhamos, tem como postulados: “Deus é absolutamente bom; Deus é absolutamente soberano; O Mal é absolutamente mau.
De onde vem então o mal? Como veio a existir o mal? Quais são suas origens primeiras? Porque existe o mal? tudo não poderia ser feito sem a possibilidade do mal? As respostas para tais questões não são encontradas na Biblia. O mistério permanece oculto. O mal não está lá para ser entendido, mas para ser resistido e, no final, expulso. O livro de Genesis (cap. 3) não nos fala sobre a origem do mal em si. Em vez disso, descreve a entrada do mal na vida e na experiência humana. O mal parece irromper na narrativa bíblica já estabelecido, sem explicações ou racionalização.
A Biblia nos compele então a aceitar o mistério da existência do Mal, um mistério que nós, seres humanos não podemos entender ou explicar. Temos que nos habituar com o entendimento de que Deus escolheu não explicar a origem do mal; em vez disso, escolheu chamar minha atenção para aquilo que Ele tem feito para lutar contra o mal e destrui-lo.
Será que devemos então simplesmente engolir perguntas desesperadas, aceitar que o mal é um mistério e calar a boca? Certamente que faremos mais do que isso:
  • Nós nos afligiremos; prantearemos, lamentaremos, protestaremos, gritaremos de dor e raiva, e clamaremos “até quando esse tipo de coisa vai continuar?
  • Lutaremos contra ele com lamento, aflição, raiva, desgosto, e protesto.
A Biblia permite que lamentemos, protestemos e fiquemos irados diante da ofensividade do mal. A Biblia nos determina a combatermos o mal, rejeitarmos o mal e resistirmos a ele. A Biblia nos ensina a orarmos para que Deus nos livre do mal.”
Se a causa primária, a origem do mal, não está ao nosso alcance conhecer já, não obstante, é bem conhecida a causa imediata dos males morais, isto é, daqueles que decorrem do mal uso do livre arbítrio (liberdade de fazer a nossa vontade):o pecado ou a rebelião contra Deus; pecado é essencialmente fazer algo em detrimento da vontade de Deus. Neste sentido, a maioria do sofrimento é resultado do pecado e da maldade humanos. Esta é a dimensão moral do mal, em que os seres humanos sofrem em termos e circunstâncias amplas porque são pecadores. O mal moral seria o sofrimento e a dor que encontramos no mundo, e que está de alguma forma relacionado com a maldade dos seres humanos, direta ou indiretamente. Esse é o mal visto em coisas que são ditas e feitas, coisas que são perpetradas, causadas ou empreendidas pela ação (ou falta de ação) no contexto da vida e da história da humanidade.” (3)
“Quando o jornal London Times solicitou a diversos escritores que mandassem ensaios sobre o assunto “O que há de errado com o mundo?”, Chesterton (4) respondeu mandando a carta mais curta e direta de todas:
“Prezados Senhores
Eu.
Atenciosamente G.K. Chesterton



(1) Veja, de 09 de setembro de 2015
(2) “Quando coisas ruins acontecem às pessoas boas”, de Harold Kushner.
(3) “O Deus que eu não entendo”, de Christopher J.H. Wright
(4) Chesterton, 1874-1936, renomado escritor, poeta, narrador, ensaísta, jornalista, historiador, biógrafo, teólogo, filósofo, desenhista e conferencista britânico



sexta-feira, 21 de agosto de 2015

INDO MAIS ALÉM DA INDIGNAÇÃO!



Motivação. Uma das realidades mais gritantes na sociedade brasileira, na atualidade, são as descobertas de sucessivos  casos de corrupção, conforme denunciados pelo Ministério Público Federal, minando um patrimônio público de referência mundial, seja pelos prejuízos substanciais causados pelas compras superfaturadas de equipamentos e serviços, de grande monta, seja pelas compras tempestivas, propositalmente fora de um planejamento que as otimizasse, seja pelos prejuízos para a imagem da Empresa – correntemente objeto de ações indenizatórias de acionistas no exterior - e, coroando tudo isso, pelas perdas substanciais com a brutal  desvalorização decorrente, no valor das ações em Bolsas.
O que chama, também, a atenção são os patamares de valores desviados envolvendo cada denunciado/operação, atingindo centenas de milhões de dólares, até então inimagináveis, comprovando a máxima de que a ganância não tem limites, assim como, as formas cada vez mais sofisticadas -  envolvendo os mesmos e outros personagens - usadas para burlar a Lei, não obstante,  ainda beneficiários de uma defesa contratada em meio a uma elite de profissionais.
Nesta oportunidade, compartilhamos fragmentos colhidos de pensamentos e iniciativas de reação, de repúdio e censura, a este estado de coisas. Destacamos ainda o papel responsável de cada um cidadão, numa Democracia, em agir solidariamente no apoio às iniciativas de combate à corrupção que assola o País, um mal, que já foi diagnosticado como quase endêmico, e, aqui comparado a um câncer em metástase, e que está na ordem do dia há mais de um ano e meio, alimentando noticiários que se enquadrariam melhor em páginas policiais. Enfatizamos mais particularmente a oportunidade de se ir mais além da indignação pessoal e pública.
Corrupção é roubo qualificado, e inscreve-se como injustiça social.O corrupto, sem apontar a arma para ninguém, mas apenas com uma caneta ou maços de dinheiro, mata mais do que os outros criminosos. O dinheiro público, objeto de corrupção, deixou de construir hospitais e unidades básicas de saúde. Desta forma, pessoas sofrem e morrem todo dia, sem o atendimento que necessitam. O corrupto, portanto, é um assassino serial, insensível ao padecimento e morte alheios”. (Corrupção é injustiça socialMaria de Fátima, na coluna do Correio Popular, 12/08/2014)
Responsabilidade social  é um dever cristão, e que também implica denunciar o mal e a injustiça. Faço referência ao “Pacto de Lausanne”, firmado no Congresso Internacional de Evangelização Mundial em Lausannne, Suiça com representantes de mais de 150 Nações, ocorrido de 16 a 25 de julho de 1974, do qual destaco no tópico “Responsabilidade Social Cristã”: “Afirmamos que Deus é o Criador e o Juiz de todos os homens. Portanto, devemos partilhar o seu interesse pela justiça e pela reconciliação em toda a sociedade humana, e pela libertação dos homens de todo tipo de opressão. Porque a humanidade foi feita à imagem de Deus, toda pessoa, sem distinção de raça, religião, cor, cultura, classe social, sexo ou idade possui uma dignidade intrínseca em razão da qual deve ser respeitada e servida, e  não explorada. Aqui também nos arrependemos de nossa negligência e de termos algumas vezes considerado a evangelização e a atividade social mutuamente exclusivas. Embora a reconciliação com  o homem não seja reconciliação com Deus, nem a ação social evangelização, nem a libertação política salvação, afirmamos que a evangelização e o envolvimento sócio-politico são ambos parte do nosso dever cristão. Pois ambos são necessárias expressões de nossas doutrinas acerca de Deus e do homem, de nosso amor por nosso próximo e de nossa obediência a Jesus Cristo. A mensagem da salvação implica também uma mensagem de juízo sobre toda forma de alienação, de opressão e de discriminação, e não devemos ter medo de denunciar o mal e a injustiça onde quer que existam. Quando as pessoas recebem Cristo, nascem de novo em seu reino e devem procurar não só evidenciar mas também divulgar a retidão do reino em meio a um mundo injusto. A salvação que alegamos possuir deve estar nos transformando na totalidade de nossas responsabilidades pessoais e sociais.“
As ações têm um peso que vai além da indignação e das intenções. É nas ações que o homem toma consciência sobre o que sua vida é verdadeiramente. É quando usa a sua vontade, e não a reflexão, que ele encontra seu próprio ser, como ele é, não como gostaria que fosse”.
“Não qualquer coisa, mas o correto deve ser feito e arriscado; não se deve flutuar no possível, mas agarrar valentemente o real; a liberdade não está no vôo dos pensamentos, mas tão somente na  ação. Saí da medrosa hesitação para a tempestade dos acontecimentos, sustentado apenas pelo mandamento divino e pela tua fé, e a liberdade acolherá teu espírito com júbilo”. (Dietrich Bonhoeffer, mártir do nazismo, em Estações no Caminho para a Liberdade).
Os Protestos. Podemos ir mais além da indignação, participando de manifestações pacíficas de protesto. Alicerçadas na “liberdade de expressão” (direito de qualquer indivíduo se manifestar livremente opiniões, ideias e pensamentos, sem a prática de qualquer delito que possa pôr em causa o direito do outro), num dos avanços da Democracia, os protestos têm sido cada vez mais reconhecidos como formas legítimas de participação na vida pública, sendo objeto de novos estudos e teses visando compreender melhor este seu papel na atualidade:”... protesto enquanto forma de ação coletiva ... enquanto espaços de participação cidadã na definição de políticas públicas ... Apesar da possibilidade, inerente aos sistemas democráticos, de podermos eleger quem nos represente politicamente, não temos que estar sempre de acordo com os nossos representantes em todas a matérias. O desacordo e a oposição são elementos constituintes do processo político e uma condição necessária ao bom funcionamento da democracia.” 
Indo mais além da indignação, aqui e agora, no apoio, e, esperança, na implementação das “10 MEDIDAS CONTRA A CORRUPÇÃO”, conforme elaboradas pelos qualificados representantes do Ministério Público Federal, em sua cruzada nacional, aplaudida na Operação Lavajato, e que foi também objeto de endosso em Carta Pastoral, da Aliança Evangélica: “Com o apoio da população brasileira essas propostas podem ser encaminhadas ao Congresso brasileiro na forma de um Projeto de Lei por Iniciativa Popular”.
São elas: 1) Criminalização do enriquecimento ilícito de agentes públicos; 2) Responsabilização dos partidos políticos e criminalização do caixa 2; 3) Reforma no sistema de prescrição penal; 4) Aumento da eficiência e da justiça dos recursos no processo penal; 5) Prisão preventiva para assegurar a devolução do dinheiro desviado; 6) Prevenção à corrupção, transparência e proteção à fonte de informação; 7) Aumento das penas e crime hediondo para a corrupção de altos valores; 8) Celeridade nas ações de improbidade administrativa; 9) Ajustes nas nulidades penais; 10) Recuperação do lucro derivado do crime. (visite o site http://www.combateacorrupcao.mpf.mp.br/10-medidas).



domingo, 19 de julho de 2015

SOBRE CORRUPÇÃO E ÂNSIA DE VISIBILIDADE




Uma previsão feita há mais de 2.000 anos, descreve assim nossos dias: haverá  homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, traidores, obstinados, orgulhosos...”.
Eventualmente alguns, com estas disposições bem latentes na alma, encontrando oportunidades propícias, tornam-se corruptos, com destaque para as instâncias onde ocorre maior concentração de poder, envolvendo, dentre outros, o meio político,  a alta administração pública, e o seleto grupo do alto empresariado do País, como aqueles tristemente famosos da “Operação Lava-jato”.
Na mesma linha, “na cultura midiática brasileira, a Lei da Vantagem ou Lei de Gérson é um princípio em que determinada pessoa ou empresa deve obter vantagens de forma indiscriminada, sem se importar com questões éticas ou morais (princípio seguido por uma parcela de agências e publicitários, que recebem pagamento por anúncios ou premiações pelo trabalho realizado, mas não querem se responsabilizar caso o efeito da divulgação cause transtornos ou danos, eximindo-se de culpa e a transferindo para o anunciante ou para o público). A "Lei de Gérson" acabou sendo usada para exprimir traços bastante característicos e pouco lisonjeiros do caráter midiático nacional que passa a ser interpretado como caráter da população, associados à disseminação da corrupção e ao desrespeito a regras de convívio para a obtenção de vantagens.”
Também aquilo que se apelidou de “ética de conveniência”, muito em uso entre políticos conhecidos por “ficar em cima do muro”, e deliberadamente relativizar a verdade. Olhando por esta ótica parece não haver remédio, e, a corrupção é mesmo endêmica, apenas uma questão de chance.
Em artigo publicado na Ultimato jul-ago 2013, intitulado “A corrupção: causas e reações”, o renomado sociólogo cristão Paul Freston, comenta algumas causas da corrupção e como mitigá-las, do qual destacamos: “A corrupção do pecado é um estado teológico geral: está em todos nós e em todas as instituições... A corrupção se relaciona com as instituições, mas também com a cultura e as características das lideranças.... É impossível chegar à “corrupção zero”, porque existe a corrupção por necessidade e a corrupção por ganância. O governo pode combater a corrupção por necessidade com salários mais altos, porém o corrupto por ganância continuará corrupto mesmo com o salário mais alto do mundo (vide nossos Dirigentes corruptos da Estatal)... A corrupção quase nunca tem causa única. Por isso é necessário combatê-la em várias frentes ao mesmo tempo e durante muito tempo. Algumas medidas anticorrupção afetam as políticas e as prioridades do Estado... Algumas medidas que são aconselháveis no combate à corrupção são consideradas desaconselháveis por causa da ideologia do governo ou de outras prioridades adotadas por ele. Nem sempre a escolha é simples. Às vezes é necessário negociar para se adotar uma medida que reduza a corrupção, mas que, ao mesmo tempo, pode trazer prejuízos políticos.
Em outro artigo da mesma revista Ultimato, de julho/agosto 2015, a ex-senadora Marina Silva,  pondera sobre o sentimento afim, de ânsia por visibilidade, e destaca “reconhecer o trabalho e a atitude de pessoas que atuam sem alarde e persistem na integridade, no respeito, no compromisso é um importante aprendizado... Ansiosa busca por visibilidade e status é marcante em todos os ambientes de vida social em nossos dias. Na política e na gestão públicas essa ansiedade tóxica obscurece os fundamentos de todo serviço: a humildade e a disponibilidade para o outro. É nas menores transformações, nas melhorias de pequenas parcelas cumulativas, que podemos pacientemente produzir um resultado significativo ... Precisamos não de visibilidade espetacular, mas de firmeza de propósito e fidelidade a valores por parte dos que trabalham no serviço público em favor do bem comum, em lugar do querer se dar bem. É importante que aprendamos a reconhecer e a dar sequência ao trabalho e à atitude das pessoas que, em diversas posições na sociedade, trabalham sem alarde e persistem na integridade, no respeito ao outro, no compromisso ao que foi decidido. Desses singelos frutos colhidos no cotidiano de pessoas e povos é que nascerão as mudanças sociais, políticas, culturais e econômicas das nações. A dignidade espiritual desde as pequenas coisas, na humildade do serviço mais simples, é a base da elevação de todos.”
Na escala das realizações individuais, são muitos os exemplos cotidianos, de anônimos, sem quase visibilidade, que mostram uma outra realidade, do dia-a-dia do homem comum, vocacionado para o trabalho honesto, que lhe rende o pão de cada dia, seja no emprego com carteira assinada, seja na prestação de serviço avulso, desde o mais simples trabalhador ambulante pedindo por algum serviço que possa realizar - em vez de pedir esmolas – ou o professor abnegado de uma longínqua escola pública no interior, improvisando com parcos recursos, facilidades didáticas para quem não tem acesso, e, bem assim, as mais diversas iniciativas de voluntários engajados na promoção do próximo, etc.

Finalmente, o conselho consequente do apostolo Paulo, numa carta ao seu discípulo Timóteo, em relação ao prognóstico mencionado no inicio: Sabe, porém, isto: que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos. Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, Sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, Traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus, Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te”. 2 Timóteo 3:1-5

sexta-feira, 19 de junho de 2015

AMOR QUE COMOVE



Amor que comove é uma forma de amor que move à ação consequente; eventualmente objetiva-se com – comoção, e  + ação. Diferentemente do amor piegas, voltado quase que exclusivamente para si mesmo, o amor que comove, mira no próximo (aquele que necessita urgente de ajuda, e, que está ao nosso alcance poder ajudá-lo). Envolve gestos de compaixão, dar atenção, oferecer ajuda, e, se envolver na recuperação daquele que está em situação crítica padecendo necessidade. O amor que comove distingue-se do amor puro sentimento, em poder até prescindir do sentimento de satisfação  pelo reconhecimento do próximo, ou até dos outros circunstantes, não estando também sob a pressão da obrigação, e, muito menos  na expectativa de desdobramentos favoráveis; é antes pura doação unilateral, e, isto também é amor em sua essência.
Ao abordar o assunto, pensamos, s.m.j., que duas posturas deveriam ser evitadas: aquela  inata a todos nós, sempre que nos vemos como justos, íntegros, sábios, e santos, salvo se estejamos convencidos que em princípio não somos melhores, em nossa inclinação natural para  o egoísmo, injustiça, e estupidez . De outra parte a vitimização do próximo, ou fantasiá-lo como um coitadinho indefeso, e injustiçado.
O cuidado com o próximo, foi imortalizado na figura bíblica do “bom samaritano” (transcrita ao final).  Respondendo à uma indagação de “quem é o meu próximo?”, Jesus conta uma história de um estrangeiro, pertencente a um povo hostilizado pelos habitantes locais, e, que circunstancialmente, vê um dessas pessoas abandonada ao ermo, em situação de extrema necessidade. Na atualidade, costuma ser romantizada através de pinturas retratando a figura de um viajante insuspeito, que fora assaltado por bandidos, e, abandonado à beira da estrada longínqua; nada que os primeiros cuidados, e um bom banho não pudesse logo corrigir. Deixamos de ver, entretanto, a face nua e crua da miséria, de alguém caído na sarjeta, imerso voluntariamente, ainda que por força das circunstâncias, em uma situação de degradação, às vezes até, causando asco, pelas condições de maltrapilho,  fedendo, sujo, bêbado, e incômodo.
Por oportuno, recém vivenciamos uma experiência bem comum, dentro de um ônibus cheio, na ocasião em que entra um rapaz, aparentemente drogado, mal vestido e com capuz escondendo em parte o rosto, barba longa e desgrenhada, repetindo em alta voz frases desconexas, deixando todos circunstantes irritados, e em estado de atenção, se não seria um assaltante potencial, ou mais um perturbador da ordem. O primeiro desejo, imaginamos, de todos nós em volta, era pedir ao motorista para retirá-lo antes de dar partida. Quatro paradas à frente, apenas um jovem que ia descer, percebendo que o mesmo já dormia no assento, tocou no seu ombro buscando alertá-lo se não estaria no ponto de destino.
O teólogo Julio de Andrade Ferreira compartilha uma interpretação livre da história bíblica citada acima, como “Parabola do Adolescente”, que transcrevemos: Certo adolescente caminhava pela estrada pedregosa que leva da infância à idade adulta, quando caiu nas mãos de exploradores. Estes tiraram dele a inocência e o induziram ao vício, deixando-o inseguro e insatisfeito. Casualmente encontrou-o um ministro de religião e afirmou não ter tempo de conversar, pois seu expediente estava muito apertado. Igualmente, o orientador educacional, vendo-o, alegou não poder atende-lo. Certo negociante, porém, um estrangeiro, viu-o com olhar inquieto e tristonho. Teve pena do rapaz e procurou acercar-se dele. Conversou com o garoto, deu-lhe interessante literatura, e, pondo-o no seu carro, convidou-o para ir até um acampamento para recuperação de viciados. No dia seguinte, disse ao encarregado: Preciso voltar às minhas tarefas; deixo aqui recursos para o custeio deste tratamento, por algum tempo. Peço que  o rapaz seja orientado e cuidado. Voltarei para acertar contas e conversar com ele. Quem dentre todos, te parece que se fez próximo do rapaz desorientado?”
Hoje em dia, ações coletivas desta natureza, são executadas por várias Igrejas, de diferentes credos, e entidades afins, que atuam neste difícil ministério, em paralelo com a ação governamental na execução de politicas públicas específicas.
O “Amor que Comove” também “é um dos principais ramos de ação social da I Igreja Presbiteriana de Curitiba voltado para alcançar e ajudar pessoas largadas nas ruas.  Pode ser descrito como “grupo evangelístico para pessoas em situação de rua, carrinheiros, alcoólatras e drogaditos de Curitiba, com entrega de alimentos, acompanhamentos, triagens para casas terapêuticas e principalmente, propagação da palavra de Deus. Tendo sido criado por membros no início do segundo semestre de 2012, o ministério tem como objetivo prestar auxílio a moradores de rua e formar a linha de frente no resgate social de dependentes químicos. A equipe é formada exclusivamente por voluntários, pessoas com muita energia e vontade de fazer a diferença em seu meio social. Embora o trabalho proposto tenha se provado bastante desafiador, o apoio extensivo da comunidade cristã possibilitou que o ministério crescesse com o tempo. Hoje, temos diversas frentes de atuação que abrangem desde saídas rotineiras às ruas para estabelecer novos contatos até a prestação de auxílio direto a dependentes sendo tratados em casas de acolhimento”. Dentre os casos assistidos por este ministério, registramos aqui a mobilização até a última hora, e o conforto final, testemunhado pela avó, única presença familiar por ocasião do enterro de um drogadito: “André vivia nas ruas desde os 16 anos de idade. Era dependente de drogas e álcool e seu lugar preferido de abrigo era a calçada da Igreja, onde mendigava e dormia ao relento. Expulso de casa pelos frequentes furtos e problemas que trazia para dentro do lar, André foi renegado pela família, que já não o aceitava mais e não o queria por perto. Ele vivia sozinho, sem ninguém para apoiá-lo, embora sempre encontrasse gente disposta a estender a mão. Ao final a cirrose e o câncer resultaram na sua morte no final de abril deste ano. Abandonado pela família, este morador de rua teve seu último desejo atendido pelo ministério Amor que Comove, “Ele não queria ser enterrado como indigente!”. Ainda sobre o caso, guardei a expressão de realização de minha colega, participante ativa deste ministério, pelo fato de que, pelo menos, o André tenha sido enterrado decentemente com um mínimo de honra que não teve enquanto vivo.
Comemoramos a existência destes  bons samaritanos da atualidade, ao ensejo em que convidamos para conhecerem e participarem, mesmo à distância, deste tocante ministério (www.amorquecomove.org). Destacamos  finalmente o reconhecimento do mérito (para aqueles que são salvos, assim cremos), feito por ninguém menos do que o próprio Jesus Cristo :  Então dirá ... : Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver. Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te? E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes”. Mateus 25:34-40


P.S. Quem é meu próximo?

“... para testar Jesus, um líder religioso lhe perguntou: “Mestre, o que preciso fazer para ter a vida eterna?”. Ele responder: “O que está escrito na lei de Deus? Como você a interpreta?”. Ele disse: “Ame o Senhor seu Deus com toda a paixão, toda a fé, toda a inteligência e todas as forças; e ame o próximo como a você mesmo”. “Boa resposta!”, disse Jesus. “Faça isso e viverá.”. Querendo fugir da resposta, ele perguntou: ”Como saber que é o “próximo?”. Jesus respondeu com uma história: “Certa vez, um homem viajava de Jerusalém para Jericó. No caminho, foi atacado por ladrões. Eles o espancaram e fugiram com suas roupas, deixando-o quase morto. Pouco depois, um sacerdote passou por aquela estrada, mas, quando viu o homem, esquivou-se e simplesmente foi para o outro lado. Em seguida, surgiu um religioso levita. Ele também evitou o homem ferido. Um samaritano que viajava por aquela estrada aproximou-se do ferido. Quando viu o estado do homem, sentiu muita pena dele. Aplicou ao ferido os primeiros socorros, desinfetando os ferimentos e fazendo alguns curativos. Pôs o homem sobre o jumento em que viajava e levou-o até uma pensão. Na manhã seguinte, entregou duas moedas de prata ao dono da pensão e disse: “Cuide bem dele. Se custar mais, ponha na minha conta; pago quando voltar”. “O que você acha? Qual dos três é o próximo do homem atacado pelos ladrões”...Lucas 10:25-36. (Biblia em linguagem contemporânea)

terça-feira, 19 de maio de 2015

GENEROSIDADE E SOSSEGO



A alma desassossegada é fruto da incerteza e da incredulidade; vê sempre a frente o perigo, sente-se permanentemente ameaçada; desconfia que o pior está por acontecer, custa a acreditar que o estado de coisas vai melhorar. Seu desassossego inquieta a todos em redor, carregando o ambiente de ansiedade e medo. Que remédio há para este cenário? É possível reverter o quadro?”.
São muitos, e, diuturnos, os contextos que podem ensejar inquietação na alma: a chegada e permanência de situações adversas; o medo do que pode vir a acontecer; a raiva pelo ocorrido – “isto não poderia ter acontecido, não devia acontecer!” - todos agravados pela sua recorrência estressante na tela da consciência; e, eventualmente, a busca infrutífera por culpados, que pode tornar-se opressiva. Levados aos extremos podem, eventualmente gerar opressão e dor.
Na gênese deste desassossego, estão as perdas, acumuladas ao longo dos embates da vida, e que funcionam como águas estagnadas e poluídas, focos de mosquitos carregados com o vírus do desassossego e da intranquilidade
A doação é o oposto da perda. Na perda há tristeza, diretamente proporcional ao apego. Na doação há alegria pela oferta voluntária e prazerosa, para todos os lados. Perda é privação compulsória, de algo que, assim julgamos, nos é tirado indevidamente; na doação há gratidão, uma comemoração. A lógica da doação, está contida nas palavras de São Francisco de Assis, “pois é dando que se recebe”.Altruísmo, e solidariedade correm desta mesma fonte.
Ao lado das ameaças das perdas, estão também as oportunidades da generosidade; ambas fundamentam-se na riqueza de nossa interdependência intrínseca. “O mundo é assim. Ele não faz exceções a nenhum de nós. Somos entregues às nossa famílias, aos nossos semelhantes, aos nossos amigos, aos nossos inimigos – às nações. É assim que a criação funciona. Alguns de nós tentamos, desesperadamente, nos agarrar a nós mesmos, viver por nós mesmos. Ficamos tão denegridos e patéticos agindo assim pendurados à agência morta de uma conta bancária em busca de vida, temerosos de nos arriscar sobre as asas não experimentadas da doação. Não pensamos poder viver, generosamente, porque nunca tentamos.”(Eugene Peterson ).
A generosidade é a qualidade daquele que demonstra largueza de espírito em ajudar, em cooperar, em socorrer, sempre está à busca de uma causa onde possa expressar seu coração profundamente doador. O generoso está atento às necessidades e pronto a ser colaborador da primeira hora. Generosidade, necessariamente, passa pela ideia de oferecer algo, de abrir mão de alguma coisa, de efetivamente promover uma dádiva. O espírito de avareza não consegue admitir a generosidade, pois, sua marca é a retenção, o guardar, o jamais doar qualquer coisa.
Comumente associamos generosidade com um estado de espírito raro, que depende de se estar em paz e sossegado, e, bem assim abonado de recursos, suficientes para poder dispor de um pouco para ajudar outros necessitados. Não obstante a verdadeira fonte da generosidade e do sossego é outra, e, que foi apontada pelo sábio, em Salmos 116 :“Volta, minha alma, ao teu sossego pois o Senhor tem sido generoso para contigo”. O salmista desenha a fisionomia generosa do Senhor, convidando sua alma a voltar à serenidade, a tranquilizar-se, a sossegar. A fonte de toda a generosidade é o próprio Deus. Nossa generosidade não começa em nós, e sim, em Deus. Somos alvos deste atributo divino, e o passamos adiante como expressão de gratidão. A maior prova da generosidade de Deus encontramos na proclamação das boas novas, que são os Evangelhos: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele” (João 3:16,17).
Se você tem se resignado a pensar que Deus o abandonou, desassossegado,  tal incredulidade pessimista desonra a Deus ou ignora a grandeza dEle. Salmos 116 revela não obstante um Deus que conhece nossa fraqueza e se inclina para nos ajudar, que é compassivo e misericordioso, que nos livra da morte eterna, que enxuga a lágrima de nossa face, que impede o nosso abatimento. Em meio a este reconhecimento do agir divino, nós também fomos conformados para agir com generosidade. Na realidade nossa vida é para os outros.
Aqui retornamos à indagação inicial: “Que remédio há, para a alma desassossegada ? É possível reverter o quadro?” Sim ! podemos assim falar com Deus: “Senhor, meu Deus. Inquieta é minha alma e não encontra paz e sossego. Restitui-me a paz e serenidade, para que segundo Tua promessa, na tranquilidade e  na confiança esteja a minha força, e que nada me pode separar do teu cuidado amoroso, que é a fonte do meu sossego. Que eu, não perca a vontade de ajudar as pessoas, num espírito de generosidade, como expressão de gratidão, mesmo sabendo que muitas delas são incapazes de ver, reconhecer e retribuir a ajuda. Amplia minha visão, e dá-me a certeza de que teu amor me envolve, que um propósito maravilhoso que não pode ser derrotado está sendo realizado em minha vida. Amém”.
Fonte: boletim da I Igreja Presbiteriana de Curitiba




domingo, 19 de abril de 2015

“ENSINA-NOS A CONTAR OS NOSSOS DIAS”





“MEMENTO MORI” é um pensamento cristão, usado como saudação entre os monges trapistas, e significa, “lembra-te que hás de morrer”; também empregado em inscrições tumulares” tais como “Memento homo qui a pulvis est et in pulvere revertere” (lembra-te homem, que és pó, e ao pó retornarás), longe de ser um pensamento mórbido ou depressivo, trata-se de uma expressão de sabedoria conforme empregada pelo salmista no título acima.
A imprevisibilidade e a brevidade, são duas características inerentes à vida, e, que esporadicamente são acentuadas em determinadas circunstâncias críticas: como em cada parente e amigo que “se vai”, é como que um eloquente sinal de atenção, para se parar e refletir sobre o dom (presente) da vida. Assim vamos acumulando lembranças bem guardadas, com muito carinho, de pais e outros familiares, e, de amigos, que hoje já encerraram suas jornadas neste lado da vida (saudades da minha turma de engenharia de 1970, o primeiro passo para uma vida que se anunciava plena de desafios e vitórias no campo profissional; quantos sonhos foram realizados, quantos interrompidos ?). E o pensamento recorrente de que poderia também não estar mais deste lado da vida! E o que estaria (estariam) fazendo  agora? Por oportuno, considerar a “aposta de Pascal” (1). É quando na imaginação, ultrapassamos as barreiras do tempo e do espaço, para vislumbrar um instante da eternidade, trazendo de volta à vida, lembranças adormecidas com o sabor de emoções vividas. Também nas tragédias, como a ocorrida com o voo da Lufthansa, em um passado recente (dentre as vítimas, uma jovem doutora que era nossa amiga), e mais recente com o avião da Germanwings (2), de grande comoção mundial, são como que outdoors iluminados, com “Memento Mori”. Noticias de terríveis catástrofes, massacres, assassinatos nos chegam todos os dias, e, aparentemente, já não mais nos abalam mais, pois de tão continuados virou quase uma rotina trágica.
“Calcula-se que, desde seu aparecimento no planeta Terra, cerca de 80 bilhões de seres humanos já viveram em sua superfície. A Revolução Industrial melhorou as condições sanitárias nas cidades e permitiu o desenvolvimento de novos remédios, vacinas e anestesias. A descoberta da penicilina (1928), a vacina contra a poliomielite, contra a rubéola, contra o sarampo, contra a hepatite aprimoraram a medicina. Os estudos do genoma humano fez com que os males genéticos passassem a ser combatidos antes mesmo do aparecimento dos sintomas. Vacinas contra a malária, e contra a aids, a medicina genética, pode aprimorar tratamentos contra o câncer. Uma pesquisa da consultoria americana Pew Research mostrou que 69% das pessoas dizem preferir morrer entre 79 e 100 anos, a sobreviver até mais de 120 anos,  mas, decrépitos e descrentes, desesperados, e, inevitavelmente chegariam a um estágio em que prefeririam a morte. (Reportagem da Veja)
As perdas nos dão a exata dimensão dos ganhos, sendo a morte, a perda maior que podemos sofrer, que nos faz valorizar a vida. “As perdas que se acumulam ao longo da vida podem ser distribuídas em : doenças crônicas e limitações físicas em si próprio;  morte de parentes e amigos; morte de um animal de estimação; perdas materiais significativas. Tendo em vista que a vida é o dom maior que recebemos, não devemos pensar que a morte deva ser procurada. Devemos, sim, viver a vida em plenitude, no tempo que nos for dado viver. Devemos respeitar a vida, desde a concepção até a morte, cuidando dela, tornando-a a melhor possível, para nós e para todos os seres vivos ao redor de nós, enquanto vida tivermos. Qualquer pessoa de bom senso com certeza gostará de deixar uma recordação, por menor que seja, de alguém que deu bons frutos, que justificou sua passagem por esta vida. Não necessariamente por grandes obras, quase sempre de importância duvidosa, mas essencialmente pelas pequeninas coisas boas que fez no dia a dia, pelo comportamento ético e respeitoso. “
O medo de morrer é inerente a nossa vida. “É por causa dele que nos encontramos vivos até hoje. Trata-se de uma reação instintiva que nos  afasta das situações de perigo. É pelo medo de morrer que não pulamos no mar, se não sabemos nadar. Enquanto dentro de certos limites, este medo é saudável e desejável. Contudo, se ele os ultrapassa, pode tornar-se um entrave para a qualidade de vida, impedindo a pessoa de realizar coisas normais. Temos medo da dor, do sofrimento, da dependência de terceiros, de situações degradantes que possamos enfrentar, enfim, de qualquer desconforto mais acentuado. Com o avanço dos conhecimentos e, sobretudo da tecnologia, o ser humano foi se tornando a cada dia, mais distante do ciclo vital universal da vida e da morte, que para ele se tornou um terror”.
Destaques do Manual do Fabricante (DEUS mesmo):
- “porque tu és pó e ao pó tornarás”(Gênesis 3:19)
- Porque mil anos são aos teus olhos como o dia de ontem que passou, e como a vigília da noite (Salmos 90:4)
Tu os levas como uma corrente de água; são como um sono; de manhã são como a erva que cresce. De madrugada floresce e cresce; à tarde corta-se e seca (Salmos 90:5-6)
...passamos os nossos anos como um conto que se conta (Salmos 90:9)
Os dias da nossa vida chegam a setenta anos, e se alguns, pela sua robustez, chegam a oitenta anos, o orgulho deles é canseira e enfado, pois cedo se corta e vamos voando (Salmos 90:10)
Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sábios (Salmos 90:12)
Comentando este Salmos 90, o Rabbi Joshua Haberman, pondera: “A vida é cheia de contradições: é um presente – que é tomado à frente. É crescimento – e declínio; oferece prazeres – e pânico. Entre os muitos bilhões de pessoas, não existem dois iguais, mas todos compartilham o mesmo fim. Tudo que nós somos desaparece na morte, ou pelo menos assim parece para nós. Dois mistérios envolvem a vida: onde estávamos antes de nascer e o que seremos depois da morte. O salmo fala para nós acerca de realidades da vida. Nossa breve manhã da vida começa com um espantoso poder para crescer (v 6). Mas breve nós começamos a declinar (v 6). O salmista dimensiona nosso período curto normal de vida normal (v 10). Mas mesmo quando vivemos até seus limites, a vida é um mero lampejo da eternidade (v 10). Porque nosso tempo é tão curto, não podemos nesciamente desperdiçá-lo. Para fazer uso próprio de nosso tempo de vida, nós precisamos de sabedoria (v 12). Mas independentemente de como vivemos nossas vidas, sábia ou nesciamente, o que permanece quando tudo se foi é como sem substancia (v 9). Isto, todavia, não é a história completa. O homem tem um lugar com o Eterno. Na presença de Deus, tempo não tem significado. (v 4).  
- “Tragada foi a morte na vitória”.1 Coríntios 15:54. A boa noticia da Páscoa, e que é o suporte de todo o Evangelho, é a morte da própria morte. Doravante é vida eterna, com a promessa de ressurreição envolvendo corpo e alma. “A ressurreição de Jesus Cristo (no passado) e a ressurreição de nosso corpo (que ainda é futuro), estão ambas relacionadas, por Jesus Que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas”. Filipenses 3:21. Isto é fantástico ! muito além do que poderíamos imaginar !

P. S.
(1)A Aposta de Pascal “é uma proposta argumentativa de filosofia criada pelo filósofomatemático e físico francês do século XVII Blaise Pascal. Ela postula que há mais a ser ganho pela suposição da existência de Deus do que pelo ateísmo, e que uma pessoa racional deveria pautar sua existência como se Deus existisse, mesmo que a veracidade da questão não possa ser conhecida de fato. Historicamente, foi um trabalho pioneiro no campo da teoria das probabilidades, marcou o primeiro uso formal da teoria da decisão, e antecipou filosofias futuras como existencialismopragmatismo e voluntarismo.
Este argumento tem o formato que se segue:
  • se você acredita em Deus e estiver certo, você terá um ganho infinito;
  • se você acredita em Deus e estiver errado, você terá uma perda finita;
  • se você não acredita em Deus e estiver certo, você terá um ganho finito;
  • se você não acredita em Deus e estiver errado, você terá uma perda infinita.
Pascal referenciou a dificuldade da razão posta para a crença genuína propondo que "agir como se acreditar" pudesse "curar da descrença". (Wikipédia)


(2)“Entre os 150 mortos do vôo da Germanwings havia 16 adolescentes de 15 a 16 anos de um mesmo colégio da cidade ... de apenas 38.000 habitantes... Os estudantes alemães eram vistos na escola como privilegiados. Eles haviam sido sorteados, entre 40 alunos, para um intercâmbio de uma semana em Barcelona, na Espanha, com o intuito de aprender espanhol morando em casas de família. Duas professoras acompanhavam o grupo na viagem sem volta. Uma das alunas por pouco não escapou. Ela havia esquecido seu passaporte e, evidentemente, não poderia embarcar. Mas a família que a acolheu em Barcelona percorreu os 50 km até o aeroporto para lhe entregar o documento, e ela finalmente embarcou com os companheiros de estudo e sorrisos. O desastre nos Alpes matou cidadãos de 18 países, incluindo outros adolescentes, uma criança e 2 bebês, um de apenas 7 meses.” (Reportagem da Veja).