sábado, 16 de agosto de 2014

CONHECER DEUS EM 1º LUGAR


Um propósito que se renova a cada manhã: Conhecer a Deus, mais e mais, em uma caminhada diária, desfrutando dos prazeres da Sua companhia.
Criados com um propósito: não fomos criados apenas para viver por viver, mas, antes viver para conhecer Aquele que nos criou. (Porque nenhum de nós vive para si, e nenhum morre para si. Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. De sorte que, ou vivamos ou morramos, somos do Senhor. Porque foi para isto que morreu Cristo, e ressurgiu, e tornou a viver, para ser Senhor, tanto dos mortos, como os vivos”, Romanos 14:6-9). O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus ao gozar de Sua companhia plena e eternamente. (“Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém”. Romanos 11:36).
Alguém já destacou que a coisa mais importante a fazer, é fazer aquilo que é  mais importante, aquilo para o que somos feitos? para conhecer Deus. Que alvo deveríamos estabelecer para nós na vida? conhecer Deus. Qual é a melhor coisa na vida, que poderia trazer mais alegria, prazer e satisfação do que qualquer outra coisa? o conhecimento de Deus. (Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma”, Salmo 42:1). Isto oferece ao mesmo tempo um fundamento, uma forma e uma meta para nossa vida, e também um princípio de prioridades e uma escala de valores.
Conhecer Deus, pessoalmente, é muito diferente de conhecer apenas sobre Deus, que claramente é insuficiente num conhecimento entre pessoas.  A regra para transformar nosso conhecimento sobre Deus em conhecimento de Deus manda que transformemos cada verdade aprendida sobre Deus em assunto de meditação diante de Deus, conduzindo-nos à oração e ao louvor a Deus. Meditação é o ato de trazer à mente as várias coisas que se conhece sobre as atividades, os modos, os propósitos e as promessas de Deus; pensar em tudo isso, refletir sobre essas coisas e aplica-las à própria vida.
O conhecimento de Deus é por conaturalidade, uma forma de conhecimento que somente é alcançado através de um relacionamento pessoal. Naturalmente nos envolvemos em diferentes graus de relacionamentos: pessoa → coisa inanimada (Eu – isso), é impessoal, e envolve manipulação; pessoa → animal irracional, envolve analisar hábitos, comumente repetitivos, e, alguma manipulação; pessoa → pessoa (Eu – Tu), é pessoal, e envolve mudanças não repetitivas; é um encontro de pessoas vivas se relacionando de modo a se conhecerem melhor, umas às outras ; eu me deixo influenciar através do dialogo; ela se torna um tu. Minhas próprias mudanças dependem deste relacionamento. Assim também o relacionamento com Deus é de pessoa a pessoa.
Conhecer  Deus envolve uma relação emocional, bem como intelectual e volitiva e, de fato se não for assim, é impossível haver um relacionamento profundo entre duas pessoas. Um conhecimento de coração a coração, pautado pelo amor. (“E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento”, Mateus 22:37). Porque o que ama conhece Deus. O que não ama não conhece Deus. E nosso amor é uma resposta a Deus que nos amou primeiro; o amor de Deus é então derramado em nossos corações pelo Espírito Santo. Este amor é ao mesmo tempo humano e divino; é muito distinto do que normalmente entendemos por amor; na verdade o chamamos de amor por analogia. É um estado dinâmico que origina e conforma todos nossos pensamentos e sentimentos, todos nossos juízos e decisões. Assim como a capacidade de transcender se faz efetiva quando nos enamoramos - então nosso ser se converte em ser enamorado – ficamos  completamente possuídos por um amor que tudo envolve.
Neste conhecimento algo muito maior está implícito – Deus me conhece. Eu estou gravado nas palmas de Suas mãos. Nunca sou esquecido por Ele. Ele me conhece como meu melhor amigo, alguém que me ama. Não há um único momento em que Ele tira seus olhos de mim ou que se distrai e me esquece; portanto, não há um momento sequer em que Ele deixa de cuidar de mim. Este é um conhecimento extremamente significativo. Há um indizível conforto – o tipo de conforto que nos dá poder, isto e, não nos enfraquece – em conhecer este Deus que está constantemente consciente de mim em amor e cuidando de mim para o meu bem.
Observadores e caminhantes, conformam  dois tipos de pessoas em relação ao conhecimento de Deus. Uns são aqueles que se sentam na sacada e apenas olham para aqueles que passam diante dele. Eles podem escutar a conversa dos caminhantes e até falar com eles, mas são apenas observadores. Os caminhantes, ao contrário, enfrentam problemas que, embora tenham sua dimensão teórica, são essencialmente práticos – problemas do tipo “qual caminho seguir” ou “como fazer isto”, problemas que não requerem apenas compreensão, mas decisão e ação”. Com relação a Deus, enquanto os observadores da sacada estão tendo um conhecimento apenas superficial sobre como pode ser Deus, os caminhantes estão dia a dia aumentando o conhecimento pessoal, e, que decorre de um relacionamento entre duas pessoas, mesmo que uma destas seja o próprio Deus. Remanesce a pergunta: em relação ao conhecimento de Deus, estou na sacada ou no caminho? Sou apenas um observador ou um caminhante?.
Uma constatação, e, um propósito, que se renova a cada fim de dia: Senhor meu Deus, conheço-te hoje mais do que ontem, e menos do que amanhã.

P.S. Fontes: Biblia e “O Conhecimento de Deus”, de J.I. Packer

quarta-feira, 23 de julho de 2014

DO DEVER AO PRAZER


Muitas motivações nos impelem às ações, e, dentre estas, o hábito, a necessidade, o interesse, o dever, e o prazer; destacamos aqui estas duas últimas, com as quais fazemos as seguintes associações imediatas: com o dever, o trabalho, e de uma forma geral todas as atividades ditas produtivas; e, com o prazer, o sexo, o lazer, e de uma forma geral as atividades lúdicas. Se buscarmos no dicionário popular, encontramos que dever é ter de..., estar obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa, imposta por lei, pela moral, pelos usos e costumes ou pela própria consciência. “Na vida cotidiana, a palavra dever geralmente significa uma obrigação pouco bem-vinda, como pagar impostos; logo, o nosso deleite é, comumente, encontrado em algo diferente daquilo em que pensamos como sendo o cumprimento do nosso dever.” Já prazer é uma sensação de bem-estar; e, que, normalmente ensejam que as pessoas demonstrem alegria ao sentir prazer. Comumente julgamos, não obstante, que o dever é uma motivação maior, e o prazer conquanto naturalmente desejado, alguma coisa menos digna. Mas isto nem sempre é assim.
John Piper em seu livro “Teologia da Alegria”, discorrendo sobre o prazer, ilustra situações comuns, quando o dever como motivação pode ser até uma afronta, e o prazer o motivo acertado, e, que faz toda a diferença: “Pense na analogia do aniversário de casamento. Imagine que nesse dia eu traga para casa uma dúzia de rosas vermelhas de cabos longos para a esposa. Quando ela abre a porta para mim, eu lhe estendo as rosas, e ela diz: Oh, amor, são tão lindas. Obrigada!, e me dá um forte abraço. Imagine que eu levante minha mão e diga, como quem não quer nada: não foi nada. É minha obrigação. Qual é o problema aqui? O exercício do dever não é algo nobre? Não honramos aqueles que são fiéis cumpridores do dever? Não muito. Não se não estiverem com o coração na coisa. Rosas por obrigação são uma contradição de termos. Se eu não for movido por um afeto espontâneo por ela como pessoa, as flores não a honram. Na verdade, a diminuem. São uma tentativa inútil de encobrir o fato de que ela não tem valor ou beleza aos meus olhos para despertar afeto. Tudo o que eu consigo produzir é uma expressão calculada de dever matrimonial. Ou imagine um marido perguntando à sua esposa se tem de beijá-la antes de ir dormir. Ela responderá: você tem, mas não por obrigação. O que ela quer dizer é isto: - se não for motivado por um afeto espontâneo por mim, suas propostas estarão despidas de qualquer valor moral”. Como terceiro exemplo, se eu levo a minha esposa para jantar fora no dia do nosso aniversário de casamento, e ela me pergunta: por que você está fazendo isso? A resposta que mais a honra será esta: porque nada me deixaria mais feliz esta noite do que estar com você. É minha obrigação é uma desonra para ela. É meu prazer é para ela uma honra. É exatamente isso como devemos honrar a Deus na adoração? Dizendo é minha obrigação ou é meu prazer?” O que estas situações têm em comum é o prazer de dar prazer, que vai muito além do prazer egoísta, e, como tal deseja ser considerado.
A religião também costumamos associar com o dever, nem sempre prazeroso, o que é um grave equívoco. A obra de Deus até pode ser encarada por alguns como um dever, pois de fato somos mesmos devedores a Deus, e neste sentido jamais poderíamos pagar a nossa dívida que levou Jesus Cristo ao sacrifício vicário na cruz, símbolo maior de vergonha e dor; mas esse ainda não é o real motivo que o Senhor almeja encontrar no nosso coração. Gratidão seria o termo mais adequado para caracterizar qual deveria ser nossa resposta ao amor com que “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito para que todo aquele que nEle crê não pereça mais tenha a vida eterna.” Gratidão que desperta o maior prazer. O prazer cristão, não quer dizer que Deus se torna um meio de ajudar-nos a conseguir prazeres mundanos. O prazer cristão é o próprio Deus. O objetivo do prazer cristão é ter o maior prazer no único Deus, evitando assim o pecado da cobiça, que é idolatria. Esse é o sentimento que Deus procura em nós, que nos faz concluir com excelência e convicção a nossa chamada para sermos seguidores de Jesus Cristo, o que respondemos alegremente por prazer em o ser. Deus também espera que tenhamos prazer em servir uns aos outros, situação que é quase um lugar comum na vida dos santos.
Gratidão que desperta o prazer na adoração a Deus. Prossegue John Piper: “Sim, temos de adorá-lo, e, o principal propósito do ser humano é mesmo glorificar a Deus, ao alegrar-se nEle para sempre. Mas não por obrigação”.  O verdadeiro adorador é aquele que atendeu ao convite do salmista: “Alegrai-vos no Senhor e regozijai-vos”. A razão de esse ser o verdadeiro ato de adoração é que ele honra a Deus, o que não acontece com a realização vazia de um ritual... Eu não digo que amar a Deus é bom porque traz alegria. Eu digo que Deus ordena que encontremos alegria amando a Deus (“Deleita-te também no Senhor, e te concederá os desejos do teu coração”). Eu não digo que amar as pessoas é bom porque traz alegria; eu digo que Deus nos ordena que encontremos alegria em amar as pessoas.
Prazer que qualifica a fé que agrada a Deus, a saber, a certeza de que, se nos voltamos para ele, encontramos a pérola de grande valor pela qual damos tudo que temos. A fé salvadora é a convicção sentida pelo coração de que Cristo não é somente confiável, mas também desejável. Na conversão encontramos o tesouro oculto do Reino de Deus. Arriscamos tudo nele. E, ano após ano, nas lutas da vida, comprovamos repetidamente o valor do tesouro e descobrimos novas profundidades de riquezas que não conhecíamos. Assim, a alegria da fé cresce. Quando Cristo nos chama para um novo ato de obediência que nos custe algum prazer temporal, lembramo-nos do valor insuperável que é segui-Lo e, pela fé no seu valor provado, esquecemos o prazer mundano. E assim avançamos de alegria em alegria, de fé em fé. Por trás do arrependimento que dá as costas ao pecado e por trás da fé que se entrega a Cristo, está o nascimento de um novo gosto, de um novo anseio, de uma nova paixão pelo prazer da presença de Deus. Essa é a raiz da conversão. Achamos o prazer eterno do nosso coração. Implica que sob e por trás do ato de fé que agrada a Deus foi criado um novo gosto. Um gosto pela glória de Deus e pela beleza de Cristo. Antes não tínhamos prazer em Deus e Cristo era apenas uma vaga personagem histórica. O que apreciávamos era comida, amizades, produtividade, investimentos, férias, lazer, jogos, leituras, compras, sexo, esportes, arte, tv, viagens, mas não Deus. Ele era uma idéia; mas não era um tesouro de prazer.
Poderíamos concluir, acrescentando, que a intensidade e a regularidade do prazer com que seguimos a Cristo poderia ser um indicador da verdadeira religião, isto é, daquela que agrada a Deus.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

CANDURA, UM SEGREDO PARA REENCANTAR A VIDA


Nossos relacionamentos, correntemente, são mais pautados pelo pragmatismo, restando pouco espaço para gestos de candura, de pureza, de inocência, de absoluta transparência, quase como pertencendo a um mundo encantado, hoje em dia, cada vez mais restrito, talvez, ao convívio das crianças. Candura, assim entendemos, é diferente de ser meramente bonzinhos; é mais do que sinceridade, tem a ver com pureza, com simplicidade de propósito. Candura se assemelha com lhaneza, diferente de fraqueza. Candura está mais ligado com a capacidade de admirar-se e, de se envolver. Candura é oposto de grosseria, cinismo, hipocrisia e malícia. Certamente é um artigo em falta na maioria dos relacionamentos humanos atuais, mais orientados pela praticidade, pelo jogo de interesses, pela dissimulação.
Destaco aqui, as vivências integradas da verdade e da bondade, que consubstanciam um gesto de candura. Com o passar do tempo, cada vez mais observa-se não obstante, a falta de uma ou outra destas, reduzindo-se ora a um transbordar de sinceridade desapiedada, ora, a um ser bonzinho  inconsequente, que são, respectivamente,  simulacros da verdade e da bondade. Neste interim, a cada dia, esgotados pela luta incessante movida mais pelo  oportunismo, muitos se ressentem da falta de candura, e, buscam, sem sucesso, fórmulas mágicas e exóticas de autoajuda, numa tentativa de reencantar a vida.
Na ficção a candura foi retratada no best-seller “O Pequeno Príncipe. O conto gira em torno de um principezinho de contos de fadas, que se encontra com um aviador em pleno deserto, após uma aterrissagem de emergência deste último. Nos contatos subsequentes, o aviador é surpreendido pelas perguntas do pequeno principe, que revelam uma candura estonteante, que desarmava todo seu modo de ver pragmático, e, que é um retrato de cada um de nós, já na fase dita adulta.  No referido texto, o narrador compartilha que desde o tempo de sua infância, carregava um ‘trauma’ causado pelos adultos, por não compreenderem suas idéias de quando criança, e, critica os adultos por só pensarem em cálculos, esquecendo certas essências da vida. E aquela criança vai transmitindo as mais sábias, questionadoras e interessantes lições de vida, como no seguinte diálogo com a raposa: “ Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste....- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.- Ah! desculpa, disse o principezinho. Após uma reflexão, acrescentou:- Que quer dizer "cativar"? - Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras? - Procuro os homens, disse o principezinho. Que quer dizer "cativar"? - Os homens, disse a raposa, têm fuzis e caçam. É bem incômodo! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que fazem. Tu procuras galinhas? - Não, disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços..."- Criar laços? - Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas." (de Antoine de Saint Exupéry). O livro é uma fábula moderna, e contém a mensagem da criança, da infância, da simplicidade, e, da candura perdida.
Na vida real, JESUS foi  o exemplo de candura por excelência, assim destacada pelo autor Oto Borchert, em seu livro “O Jesus Histórico”: “Uma nuvem negra de formas mentirosas de polidez sempre obscurece a nossa veracidade. Estamos acostumados a ser circunspectos, afirmamos que “certas coisas não se dizem”. Mas Jesus era cândido de maneira quase desapiedada, enfrentando com a verdade e a bondade, a hipocrisia, a falsidade e a injustiça, sem medo de ser verdadeiro. Dentre os muitos registros de seus relacionamentos, destacamos por oportuno aqui, quatro de Seus encontros de pura candura:
1. Com o jovem rico, a quem expôs a superficialidade de sua empolgação em segui-Lo, não obstante muito amá-Lo, deixou-o seguir sozinho seu caminho. Não alimentou as falsas esperanças daquele jovem barateando o custo de segui-Lo em detrimento do peso da verdade do que este caminho implicaria.
2. Com Nicodemos, uma respeitável autoridade religiosa, com fama de ter um grande conhecimento, e, membro de uma elite poderosa, ao compartilhar “que até então ele falhara em viver”; que ele não obstante toda sua erudição e imagem pública, estava no caminho errado, e, que assim, mais radical do que voltar a ser como uma criança, tornava-se necessário, como que “nascer de novo”. 
3. Noutra oportunidade Jesus, vendo uma pobre viúva ofertando umas  moedinhas, e ao lado dela os fariseus ricos e avarentos, ousadamente destacou a pequena oferta dela em detrimento das quiçá polpudas contribuições exibidas pelos ricos; aquela deu do pouco que lhe fazia falta, estes outros, se exibiam com a oferta de um pouco do muito que lhes abundava. Estes ofertavam sob a luz dos holofotes para serem enaltecidos, aquela o fazia discretamente, talvez até com vergonha pelo seu reduzido valor, debaixo do anonimato que normalmente encobre os pobrezinhos.
4. Também quando Jesus confronta seus ouvintes, e destaca como paradigma a ser imitado, os samaritanos, um povo vizinho, de outra forma discriminado, ao ponderar como creram em Suas palavras por si só, sem requererem ver milagres; outra vez, quando contou a parábola do bom samaritano, para responder à pergunta de um doutor da Lei sobre “quem era o meu próximo”, e,  a quem devo amar; e, ainda, para ilustrar a gratidão de apenas um entre dez que haviam sido milagrosamente curados por Jesus.
Sim, Ele era sincero em tudo, falando em voz alta de coisas que o mundo concorda em encobrir com o silêncio.” E, neste interím, “Ele contava parábolas, histórias tão bonitas, ricas de sabedoria divina. Acolhia as crianças, os marginalizados, os pobres, os doentes e os pecadores. Admirava as aves do céu, as campinas, as flores do campo, as montanhas, os rios e lagos”. Este é o outro lado da candura que pode reencantar o mundo, e, cuja falta no nosso quotidiano, pode ser melhor avaliada se nos permitirmos, em nossos relacionamentos diários, sair da superficialidade, para logo constatar o peso que nosso próximo carrega, em volta, levando em alguns casos a resultados trágicos só diagnosticados muito tardiamente, e, a diferença que um toque de candura, de verdade com bondade, ainda pode fazer. 

terça-feira, 20 de maio de 2014

RAIVA QUE MATA E A DÁDIVA DA IRA


Por ira, neste texto, fazemos referência especificamente à emoção, puro sentimento, de desprazer, indignação, ou, exasperação, para com alguém, ou alguma coisa. Por raiva, circunscrevemos as manifestações de índole negativa, que consubstanciam as explosões de raiva, crises de fúria, expressões de cólera, etc. A raiva já foi descrita como “um sentimento de protesto, insegurança, ou frustração, contra alguém ou alguma coisa, que se exterioriza, quando o ego se sente ferido ou ameaçado; ou, como um sentimento de desprazer, hostilidade, indignação, ou exasperação extrema para com alguém ou alguma coisa”. Para o filósofo romano Sêneca, a ira e as frustrações ocorrem porque criamos uma expectativa de uma vida quase perfeita e nos surpreendemos tendo essas reações irracionais aos revezes. Ficaríamos mais tranquilos e preparados para a vida se fôssemos mais pessimistas, aceitando o mundo como ele é (com suas dificuldades inevitáveis), e não como gostaríamos que ele fosse”.
A praga da raiva. A raiva e o medo, que, frequentemente estão associadas, são, conjuntamente, responsáveis por grande parte daqueles momentos indesejáveis, que azedam o dia, ao se instalarem na consciência, monopolizando nossa atenção, levando cativo os pensamentos e as emoções, e obscurecendo a capacidade de julgamento da vontade. São momentos de agitação da alma, com a imaginação correndo solta, e, carregando nas tintas, fatos e fotos, ainda que distorcidos, que evocam situações de constrangimento. Especialistas “comparam com uma doença que vai corroendo de dentro para fora, e que causa diversos prejuízos físicos, mentais e espirituais para o próprio enfermo e para as pessoas que a este acompanham”. Também “a ira reprimida e conservada é uma emoção destrutiva e negativa que pode causar doenças físicas”. A duração da raiva, varia de uma irritação passageira, a um rancor prolongado; num termômetro imaginário da raiva, a temperatura vai num crescendo, de expressões como incomodado →  irritado → frustrado → exasperado →  desgostoso → ressentido → amargurado → oprimido. Os conflitos interpessoais e um ego inflado e contrariado, são os combustíveis mais comuns de uma crise de raiva, e, que pode ser provocada até por um amigo que nos contraria circunstancialmente. Ficamos também com raiva de nós mesmos, quando nossas expectativas se frustram. Ficamos com raiva da injustiça social à nossa volta, como também com as manifestações de violência da Natureza, como tsunamis, etc. Enfim, ficamos com raiva de Deus. Toda estas facetas caracterizam o que aqui chamamos  raiva (ira, cólera, e sentimentos afins) que mata.
A ira é essencialmente uma emoção, um sentimento, e, enquanto tal, não é  intrinsecamente nem má, nem boa. O que ocorre, é que esta emoção, frequentemente, é obscurecida e distorcida por causa da nossa velha natureza corrompida, ensejando desejos, exigências e expectativas egoístas (o que a Biblia chama de pecado). Também influem no modo como lidamos com a ira, os modelos de família que tivemos, os exemplos assimilados com outros, particularmente aqueles que estão mais próximos, e bem assim, nosso temperamento. Alimentadas e conformadas por este conjunto de influências, temos então  a gênese da raiva que mata, sendo a ira, a cólera e a fúria modulações desta raiva. Na Biblia usam-se três palavras para descrever a ira: thymos, orgé e parogismo. Thymos é um estado de grande agitação, uma explosão de indignação interior. Vem à tona rapidamente. Seu nome deriva do enfurecer-se e ferver da alma. O aspecto característico de thymos é que é muito violento, porém breve. Não é ira acumulada há muito tempo; é como fogo de palha, rapidamente aparece e rapidamente se vai. Thymos é uma palavra com potencial quase ilimitado para o bem e para o mal. Pode descrever uma qualidade sem a qual nenhum bom caráter pode florescer. Está também relacionado com a justa indignação diante do erro. É como a dinamite que pode ser bem usada para abrir caminho através de obstáculos por meio de explosões, ou para reduzir uma cidade a ruínas. Orgé é um estado mental definido ou permanente; aparece lentamente. Tem tendência vingativa e natureza duradoura, acalentando a lembrança do mal. Parogismo é uma forma mais forte de orgé. Traz a idéia de ressentimento justo e “tremer com forte emoção”. Irritação e exasperação.
A dádiva da ira. Nem toda ira é maligna, conforme evidencia-se da ira de Deus  que sempre é santa e pura, controlada e com um propósito justo, servindo antes para corrigir um erro, e que a Biblia também chama de pecado. Assim, podemos vislumbrar a ira santa de Jesus expulsando os vendilhões do Templo, ou, chamando os fariseus e seu discípulos de tolos. Nós também podemos sentir a ira justa. Expressões de ira santa na Biblia podemos encontrar no confronto entre Davi e Golias (Quem é, pois, este incircunciso filisteu, para afrontar os exércitos do Deus vivo?); ou, quando Moisés quebra as tábuas da Lei, em protesto contra a idolatria que se instalara entre o povo, enquanto o aguardavam; ou  Elias desafiando os falsos profetas de Baal. Este são alguns exemplos consubstanciando a dádiva da ira. Contudo, a Biblia nos adverte que, até mesmo a ira justa seja tardia em aparecer e rápida em desaparecer .
Todas nossa emoções, até mesmo a  ira, são dadas por Deus. Neste sentido, Ele nos deu a capacidade emocional para a ira. Mas, Deus não é responsável por nossas explosões de ira. Podemos escolher o que fazer com ela. Veja a pessoa que grita: você me deixa com tanta raiva que eu podia estrangulá-la!. Ela jamais diz: eu deixo a mim mesmo com tanta raiva que eu poderia estrangulá-la. Deus nos deu nossas emoções. Podemos usá-las para ajudar a nós mesmos e aos outros, ou, para magoar a nós mesmos e aos outros.
A necessidade de diferenciar entre ira (um sentimento) e raiva que mata (hostilidade, agressão, comportamento que se origina do sentimento). A Biblia nos adverte: Irai-vos, e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira”(Efesios 4.26). A ira tem o potencial para levar-nos a pecar. O ponto crítico ocorre quando transformamos os sentimentos de ira, em atos agressivos e hostis, o que nos leva ao pecado. A segunda parte nos adverte que a ira, quando vem, deve ir logo.
A gravidade da ira. O senso comum julga sem maior gravidade pensamentos e as palavras proferidas, reservando a condenação apenas para os atos. Mas não assim Jesus, que nos adverte Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; mas qualquer que matar será réu de juízo.Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e qualquer que disser a seu irmão: Raca, será réu do sinédrio; e qualquer que lhe disser: Louco, será réu do fogo do inferno” (Mateus 5.21-26).A referência de Jesus é à ira injusta, à ira do orgulho, da vaidade, do ódio, da malícia e da vingança. Os escribas e fariseus estavam procurando restringir a aplicação do 6º Mandamento (Não matarás) apenas ao ato do homicídio. Mas Jesus discordou deles. A verdadeira aplicação incluía pensamentos e palavras, além de atos; cólera e insultos, além de homicídio. Quem disser a seu irmão, você raca (= tolo, imprestável, miserável, insensato) seu estúpido! você não vale nada... quem chamar seu irmão de idiota, imbecil. Estas coisa, pensamentos coléricos e palavras insultuosas talvez não levem nunca à consumação do ato homicida. Mas, diante de Deus, são equivalentes ao homicídio”. Jesus não advoga que a ira seja punida com a morte, mas ilustra, com essas palavras, quão sério era para ele esse pecado. A presença da ira indica a falta de amor. O amor ao próximo foi classificado como 2º Mandamento na ordem de importância. E, sendo a ira e o insulto tão sérios e tão perigosos, então devemos fugir deles como se fossem praga e tomar precauções o mais rapidamente possível.
A praticidade disto é destacada por Jesus, que, na sequência, apresentou uma ilustração com a pessoa que vai ao templo oferecer sacrifícios a Deus. Traduzindo em palavras atuais: “Se você estiver na igreja, no meio de um culto de adoração, e de repente se lembrar de que seu irmão tem um ressentimento contra você, saia da igreja imediatamente e vá fazer as pazes com ele. Não espere que o culto termine. Procure seu irmão e peça-lhe perdão. Primeiro vá reconciliar-se com o seu irmão, depois venha e ofereça sua adoração a Deus”. Esta é a ordem certa das coisas, mas,” com que raridade atendemos à chamada de Cristo para a ação imediata! “


Fonte: A ira, uma opção, Tim LaHaye; As obras da carne e o fruto do Espírito, William Barclay; Contracultura cristã, John Stott

segunda-feira, 21 de abril de 2014

CULTIVANDO A EXCELÊNCIA NOS RELACIONAMENTOS PESSOAIS


Nenhum homem é uma ilha” (John Donne). “O homem é por natureza um animal social”  (Marx).  Pensamentos como estes põem em destaque a importância dos relacionamentos. “Os vínculos com os outros constituem fonte de satisfação de necessidades fundamentais, como ser querido, bem cuidado e atendido. A sociabilidade é a propensão do homem para viver junto com os outros e comunicar-se com eles, torná-los participantes das próprias experiências e dos próprios desejos, conviver com eles as mesmas visões. Temos mesmo fome por relacionamentos; é como se nós tivéssemos sido feitos para encontrar nosso propósito e significado não simplesmente em nossas vidas interiores, mas no outro e nos significados e propósitos compartilhados”.
Viver não é tão difícil; conviver é que é”. Ocorre que, juntamente com a alegria num relacionamento, é comum ocorrerem conflitos. O conflito é muitas vezes inevitável nos relacionamentos humanos. O fator agravante, é caminhar na  seqüência mortal que vai de discordância → discussão → contenda → confronto → mágoa. Cinco são as formas de lidar com conflitos: afastamento (fugir do conflito, que não o elimina); acomodação (me submeto, mas não concordo); competição (um ganha e outro perde); colaboração e acordo (todos ganham). E, a sabedoria da ponderação: conflitos, se não podem ser evitados, mas podem ser administrados. 
Um dos fatores que muito influenciam nos relacionamentos, e, podem concorrer para os conflitos, é a realidade dos temperamentos. Assim o Criador, em sua infinita sabedoria, cuidou para que não fossemos uma uniformidade monótona, e sem graça, acrescentando então uma pitada de sabor que faz a riqueza dos relacionamentos. Neste sentido, o renomado psicólogo Jung identificou duas atitudes básicas no comportamento do homem que estão intrinsecamente ligadas ao temperamento. Estas atitudes são: Introversão e Extroversão. Na Introversão incluem-se os melancólicos e fleumáticos. Na extroversão incluem-se os sanguíneos e coléricos. Uma caricatura destes temperamentos conta-se na seguinte historinha: “Os quatro temperamentos foram amarrados dentro de um saco. Depois de tanta luta conseguiram sair. O primeiro foi o colérico cheio de ira, querendo saber quem tinha feito isso com ele (todo cheio de razão); o segundo foi o melancólico todo cabisbaixo achando que o culpado de todos estarem presos era ele (sempre se culpando); logo atrás vem o sanguíneo, todo serelepe, cantando e dançando dando graças a Deus por estar solto (todo feliz); e, por último o fleumático, quando saiu, logo que viu o saco no chão pensou com ele mesmo: por que não? Ajeitou o saco e dormiu”.  (autor desconhecido). O temperamento explica nosso comportamento, mas não deve servir de desculpas para ele. Sendo parte de nossa natureza humana, pode e deve ser controlado por nosso espírito, e , seus pontos negativos podem ser disciplinados, reorientados e até corrigidos, contando com o auxílio do Espírito Santo.
Como forma distorcida de relacionamentos, é triste observar que muitos preferem amar coisas e usar pessoas, quando deveriam amar as pessoas e usufruírem das coisas. Este comportamento foi estudado com profundidade pelo rabino e teólogo Martin Buber, que  identificou que o relacionamento homem-homem segue uma das duas possibilidades, que ele chamou de “eu/tu” e “eu/isso”. “Eu/tu é um encontro existencial, de pessoas vivas se relacionando de modo a se conhecerem melhor, umas às outras.; eu me deixo influenciar através do dialogo, e, assim, ela se torna um tu. No relacionamento do tipo eu-isso, o eu é um sujeito que se defronta com um objeto. Se analiso outra pessoa, ou a utilizo como objeto, para mim ela é um simples isso. Passo a querer manipulá-la como um objeto para o meu prazer. A relação eu-isso não é nunca, em si, um mal. Mas o mal pode residir na escravidão humana a essa atitude, apagando da face do homem a resposta responsável, a disponibilidade para o encontro com o outro. O homem precisa do mundo do Isso para viver, mas quem vive somente a relação eu-isso se desumaniza.”
Sinais de atenção, facilmente percebíveis, de iminência de conflitos: em algum momento, poderá ser necessário admitir que o outro está certo. Logicamente, não devemos aceitar o erro, mas muitas vezes não é isso que está em jogo. Comumente, em um conflito cada parte envolvida tem uma parcela de verdade: há uma parte no conflito que eu experimentei que é verdadeira, mas meu oponente tem sua perspectiva de como ele experimentou o conflito e ela também é verdadeira. Também, nossas discussões devem ser pautadas pelo respeito, e, pela cortesia. Palavras mansas e sadias podem desarmar o ânimo agressivo da outra parte. Podemos expor nossas opiniões, por mais divergentes que sejam, sem usar de agressividade. Todos perdemos com o uso de expressões de negatividade, que inclui desde um elogio interesseiro, quando não hipócrita, com gosto de fel, quando não, nos atingem como um sôco. Por outro lado que bálsamo que é, quando, somos tocados por alguma palavra ou gesto de cordialidade, como um reconhecimento, um elogio espontâneo, e, até mesmo num mero sorriso de reconhecimento.
O apostolo Paulo vai além, e orienta como os irmãos deveriam conviver uns com os outros, através de  relacionamentos fraternais, com a marca da excelência, e cujos traços dominantes incluem, dentre outras qualidades/virtudes: Autenticidade - sinceridade e verdade devem ser a marca da nosssa conviência (devendo ser sinceros em suas palavras e atitudes  sem dissimular sentimentos, se necessário, revelando o desconforto por algo que não havia ficado bem esclarecido). Cordialidade - nossa opção sempre será exaltar outrem e jamais diminui-lo (que de nossos lábios sempre saia uma palavra para trazer incentivo, para a edificação, e nunca uma mensagem derrotista, negativista e, acima de tudo, que a torpeza não saia de nossos lábios). Solidariedade - horas difíceis são oportunas para estreitar relacionamentos. Humildade - é importante resistir à nossa própria soberba. Sensibilidade (inclui polidez, delicadeza; é o oposto de grosseria, brutalidade, palavra ferina, e gesto que machuca) é bom saber discernir bem em quais momentos nos encontramos. Bondade e Benignidade - ser benigno significa ser bondoso, amável, gentil, atencioso; são expressões afins, a misericórdia e a generosidade. Aquele que possui essas qualidades é gracioso, e gentil para com seus semelhantes, não se mostrando inflexível e exigente. Tem doçura de temperamento, presdispondo-o a uma atitude afável e cortês. Benignidade é o pensamento de fazer o bem, e, a bondade é ação de fazer o bem. Benignidade é uma qualidade do coração e emoção. Bondade é uma qualidade da conduta e ação. Sentimentos e expressões afins de benignidade e bondade, ainda incluem cordialidade, gentileza. Seus opostos envolvem: crueldade , maldade, descortesiadeselegância,  indelicadeza, cinismo, hipocrisia, malícia, arrogância, aspereza, brutalidade. 
Concluindo, da família para as demais instâncias da sociedade, em toda parte, não podemos pensar que representamos uma ilha isolada, inacessível, no meio do oceano; o tempo todo estamos tangenciando uns nos outros. A questão é como isto se dá? O convívio é salutar? O relacionamento interpessoal é edificante? A convivência é benéfica? Se a resposta não é positiva é sinal de que estamos vivendo abaixo da linha de excelência.



De boletins da Igreja Presbiteriana de Curitiba

sábado, 5 de abril de 2014

SEGUIDORES E GUIAS


A moda atual entre internautas é ser, e, ter, seguidores numa rede social, tornando-se doravante, o número de seguidores, um critério para medir o sucesso desse alguém, travestido de guia. E, logo surge a possibilidade de uso desta facilidade como um instrumento de manipulação  para alavancar e/ou alimentar o ego de candidatos a celebridades, e, bem assim, para incrementar o mercado de consumo, que venha a se associar com a imagem do “guia”. Recentemente algumas destas figurinhas carimbadas da mídia, se gabavam de já ter ultrapassado de um milhão de seguidores, o que seria pitoresco, se não fosse verdade.
Ameaças e oportunidades. Os eventos recentes em nosso País, de contestação nas ruas, ilustram as oportunidades (voz popular de protesto contra a inoperância quando não, malversação dos serviços públicos), e as ameaças (atos de vandalismo, por contraventores infiltrados), fazendo uso da capilaridade das redes sociais. Neste ínterim, duas são aqui destacadas:
Por um lado a tentação que ficou conhecida como seguidores com mentalidade de rebanho. A expressão ficou associada com o filosofo Friedrich Nietzsche, diz respeito ao seu “protesto contra a ação do Estado, seu desagrado pelo negligente comportamento social da comunidade, depreciativamente chamado de “mentalidade de rebanho", sua desconfiança do efeito do mercado e do Estado na produção cultural, seu desejo por um "Übermensch" - isto é, por um homem novo que não fosse nem mestre nem escravo” (por ironia, esta crítica a um espírito de seguidor subserviente, foi associado, de forma distorcida, com o nazismo). Esta tentação é magistralmente explorada no filme “A Onda”, “onde um professor colegial  ministrando sobre autocracia, começa um experimento para mostrar o quão fácil é manipular as massas. “Ele começa exigindo que todos os alunos se refiram a ele como " Senhor”,  e muda as carteiras de lugar, de modo que todas elas fiquem de frente para ele. Além disso, todo aluno que queira fazer alguma colocação deverá se levantar e dar respostas curtas. O professor também mostra aos alunos como uma marcha executada com perfeita sincronia rítmica entre os alunos pode fazer com que se sintam parte de uma única entidade. Por fim o professor sugere que todos os alunos do grupo devem vestir uma camisa branca e calças jeans, para que não haja mais distinções entre os alunos e unir ainda mais todos eles. O grupo começa então a perceber mudanças em seu comportamento. Criam também um símbolo, que é espalhado na forma de adesivos ou pichações por toda a cidade. Além do nome, o grupo cria uma forma de saudação, que consiste em imitar o movimento de uma onda com o braço direito em frente. Criam também um símbolo, que é espalhado na forma de adesivos ou pichações por toda a cidade.  O filme mostra de forma contundente, como as massas podem ser manipuladas”, numa referencia clara aos movimentos autocráticos, que a História registra.
De outro lado, temos a tentação de guias cegos, que Anselmo Grün, falando sobre os demônios da vaidade e do orgulho, que também nos assediam, assim comenta: “consiste em assumirmos o papel de mestres , embora nós mesmos tenhamos ainda pouca experiência. É o perigo da inflação, como com tanta freqüência é descrita por Jung. Sentimo-nos como profetas ou como reformadores do mundo, achamos que nossas próprias idéias e palavras são de importância decisiva para a salvação do próximo”. Alguém já disse que todo mundo quer ser rei, e, todo rei quer ser deus. Aqui encontro na vida do Rei pastor Davi, mencionado na Biblia, um contra-exemplo para este vício, e, que o celebrado autor Eugene Peterson, em seu titulo “Transpondo Muralhas”, assim comenta: “A ascensão de Davi foi concluída; começa seu reinado. As palavras proferidas nesse inicio são bem significativas: “Tu hás de pastorear Israel, o meu povo, e serás o seu governante”. “Com estas palavras, Davi, o pequeno pastor de Belém se torna o grande rei pastor de Israel. A designação de rei é empregada à vontade por toda a narrativa bíblica, mas não aqui, onde é significativa a preferência pelas palavras pastor e governante ou príncipe. Príncipe (Nagib em hebraico), em vez de rei, porque Israel havia acabado de experimentar uma forma abusiva de governo com o rei Saul. Davi é identificado como alguém igual a eles, que simplesmente galgou maior posição: Somos sangue do teu sangue. Não seria um governo imposto de fora, mas desenvolvido interiormente. O pastor é alguém que vive junto ao rebanho e cuida dele; o príncipe é alguém que emerge da comunidade e a lidera. Espera-se que o governo de Davi se desenvolva mantendo seus instintos pastorais e sua capacidade de liderança quando jovem. Espera-se que o governo de Davi se desenvolva preservando a sensibilidade para com as necessidades da comunidade, o que ele cultivou no deserto. Ao assumir  Davi o seu reinado sobre Israel e Judá, o que os líderes estão lhe dizendo, na verdade, é: seja nosso príncipe: não se transforme num rei com ânsia de poder, que imponha sua vontade à força sobre o povo. Seja nosso pastor: não se transforme num rei levado pelo próprio ego, que use o povo como pasto para alimentar sua auto-importância. Davi fez o que lhe pediram. Uma das principais provas é o Salmo (do pastor) 23”.
O paradigma do verdadeiro Guia, que cuida dos seus seguidores, é apresentado na Biblia:”...Tornou, pois, Jesus a dizer-lhes...Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas.Mas o mercenário, e o que não é pastor, de quem não são as ovelhas, vê vir o lobo, e deixa as ovelhas, e foge; e o lobo as arrebata e dispersa as ovelhas.Ora, o mercenário foge, porque é mercenário, e não tem cuidado das ovelhas.Eu sou o bom Pastor, e conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido. Assim como o Pai me conhece a mim, também eu conheço o Pai, e dou a minha vida pelas ovelhas”. (Palavras de Jesus Cristo, conforme registradas no Evangelho de João). 

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

A DIFERENÇA QUEM FAZ ?



Que diferença faz cada novo dia acrescentado à nossa existência? É uma pergunta que reiteradamente também me faço, mormente agora, tendo chegado aos 66 anos, e, relembrando, com pesar, quantos parentes e amigos, que já encerraram seu jornadear nesta vida. Neste sentido, identifico ainda, pelas biografias publicadas, alguns que fizeram a diferença durante uma existência até muito mais curta. A constatação também, de algumas vidas vazias e superficiais de quem, não obstante, pode ter feito algum sucesso efêmero, pelos padrões culturais correntes, mas visto na linha do tempo, não fizeram mesmo a diferença, positiva. E, os desfechos trágicos daqueles que sucumbiram ao apelo enganoso do suicídio ao abreviar seu tempo de vida.
O tempo de vida é o recurso verdadeiramente escasso, e, que não obstante pode variar de poucos anos, para alguns, a muitos anos, para outros. Alguém já disse que é este o recurso mais precioso que temos, e ao longo da vida, crescentemente escasso - até mais do que o dinheiro - e, sobre o qual, em última instância, não temos absoluto controle. Num boletim da Igreja recém, nosso pastor Juarez Marcondes, levanta a questão pertinente: “quanto custa o tempo? Num mundo que em tudo se coloca um preço, muitas vezes, olvidamos o valor do tempo. Só nos damos conta deste esquecimento quando reconhecemos que o tempo está passando depressa demais. Em outras palavras, não estamos usando o tempo como deveríamos”. Neste sentido, alguns vivem para acumular cada vez mais dinheiro, na ilusão que passarão assim a viver sem problemas, doravante; esquecem que a riqueza é passageira, e não nos torna totalmente imunes às doenças, e, à morte. Outros são do tipo que vivem correndo atrás dos prazeres, como se tudo se resumisse só em divertimento, esquecendo que a alegria é passageira, e, costuma acabar antes da festa terminar. Outros buscam desesperadamente se apoiar nas suas amizades, para logo se frustrarem, quando os conflitos naturais aparecem. Outros vivem sempre em estado de alerta, competindo de forma ininterrupta e desgastante, para no final serem suplantados. E, remanesce a questão: será que a vida é só isso? Por fim, numa avaliação de como estamos usando o tempo, podemos especular o que acharíamos de ter uma existência como esta, prolongada, indefinidamente à eternidade? muito provavelmente, uma resposta séria é que seria afinal indesejável como tal.
A diferença quem faz, aqui, mede-se pelo que se acrescenta de positivo ao patrimônio comum da humanidade, em termos de valores e realizações que verdadeiramente edificam. É limitada pela duração de uma vida, e geralmente se circunscreve a ações num período muito mais curto, mas cujos resultados transcendem em muito o tempo de sua realização. A diferença quem faz, diz respeito exatamente ao uso nobre que se faz do tempo de vida, na contramão do laissez faire, da acomodação, do lugar comum, da negatividade.
Quem não faz diferença: para o egoísta, tudo gira em torno dele mesmo; são amantes exclusivamente de si mesmos, em detrimento dos interesses alheios. Seu lema é “isto é meu, e eu não divido com ninguém”. São ainda presunçosos, arrogantes, jactanciosos, pedantes, soberbos - aquele que se julga melhor que os demais, e, dependentes  compulsivos dos prazeres (lascivos, pervertidos). Assim como na oração do fariseu: “Dois homens subiram ao templo, para orar; um, fariseu, e o outro, publicano. O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano.Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo.O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito,dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!” Lucas 18:10-13. Para os avarentos, tudo gira em torno do dinheiro que possam acumular. São amantes exclusivamente do dinheiro, a que idolatram. Jesus conta uma parábola do rico insensato: “E disse-lhes:  Acautelai-vos e guardai-vos da avareza; porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui. E propôs-lhe uma parábola, dizendo: A herdade de um homem rico tinha produzido com abundância; E arrazoava ele entre si, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos. E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens; E direi a minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga.Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus”. Lucas 12:15-21. O apostolo Paulo também dá algumas das características dos homens nos últimos tempos (que incluem os últimos 2.000 anos): ... avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons,traidores, obstinados, orgulhosos, ... tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela”. 2 Timóteo 3:1-5.
Quem faz a diferença, positivamente. Esta diferença pode ser motivada por um sentido de vocação, que enseja a oração sincera a Deus:De que me valerá ter vivido, a não ser que prolongues minha vida até que eu haja concluído a trajetória da minha vocação.” O sentido de vocação é objeto da “Teoria da semente de carvalho” ( “O Código do Ser”, de Hilmann) que propõe que “cada vida é formada por uma vocação que é a sua essência, que a leva para um determinado destino. Assim como o destino de um imenso carvalho já está escrito em sua pequena semente, do mesmo modo o ser humano traz, em si, as marcas do que há de desenvolver; um sentido de vocação pessoal, de que existe uma razão para eu estar vivo. Esta teoria sustenta que cada pessoa tem uma singularidade que pede para ser vivida e que já está presente antes de poder ser vivida”. Quando envolvido numa ação deste tipo, a pessoa sente-se engajada no desdobramento criativo de algo maior. Mais comumente, no sentido aqui compartilhado, esta diferença, não está necessariamente atrelada a um sentido de vocação, estando mais próximo de ações comuns, realizadas contra a corrente dos acontecimentos, mormente em ambientes bastante desfavoráveis. Neste contexto existem muitos anônimos enquanto vivos, mas que não obstante a posteridade confirma que sim, fizeram a diferença. Como Anne Frank, uma adolescente comum alemã, de origem judaica, vítima do Holocausto, e, que morreu aos quinze anos de idade, em um campo de concentração, durante o reinado de terror do nazismo. Ela permaneceu por dois anos escondida num sótão, até que, em 1944, um delator desconhecido revelou o esconderijo às autoridades nazistas. O grupo foi, então, levado para campos de concentração. Anne Frank e sua irmã Margot foram transferidas para o campo de concentração onde morreram de tifo, em março de 1945. Sua sobrevivência em condições extremamente críticas, uma criança de menos de quinze anos, vítima indefesa, em meio à brutalidade e a prepotência elevada ao máximo, mas sem se entregar ou desesperar, foi um testemunho gritante de alerta para a posteridade contra um regime absolutista, cultuador e fomentador do ódio, e que passou à história como o pesadelo nazista que assombrou à humanidade.
Os cristãos são vocacionados para fazerem a diferença, positivamente, conforme expresso nas metáforas de Jesus, comparando-os ao sal da Terra (que lhe dá sabor), e a Luz do Mundo (que ilumina o caminho para os outros). Também em seu brilhante sermão, identificou algumas características daqueles – a quem considerava  felizes – vocacionados, para fazerem a diferença: são reconhecidos pela humildade, pela simplicidade; são os pobres de espírito, os que choram, indefesos, vulneráveis. Assim, como na oração de São Francisco de Assis mencionada no inicio, que descreve bem a conduta de quem realmente faz a diferença.