terça-feira, 20 de agosto de 2013

CRESCIMENTO SUSTENTADO PELA RENOVAÇÃO DA MENTE




Tudo que é vivo tende a crescer, e a se desenvolver. Isto é o natural, e, no caso do ser humano, motivo de alegria. De uma forma geral, podemos dizer que, crescemos fisicamente até os 25 anos, profissionalmente até os 60 anos, por ocasião da aposentadoria, conquanto nas faculdades da alma - do intelecto, da emoção e da vontade - este crescimento, dito espiritual, possa ocorrer de forma sustentada, e, como tal não ter fim. Um dos fatores deste crescimento sustentado é pela renovação da mente, e a mente é renovada aplicando-se a ela as coisas que a transformarão.
Segundo Richard Foster, em “Celebração da Disciplina”, “podemos renovar a mente aplicando a Disciplina do Estudo. “Estudo é um tipo específico de experiências em que mediante cuidadosa observação de estruturas objetivas, levamos os processos de pensamento a se moverem numa determinada direção. Por exemplo, tomemos o estudo de um livro. Nós o vemos e o sentimos, e à medida que o estudamos, nossos processos de pensamento assumem uma ordem que se conforma à do livro. Quando feito com concentração, percepção e repetição, formam-se hábitos arraigados de pensamento. Os arraigados hábitos de pensamento que se formam, conformar-se-ão à ordem da coisa que está sendo estudada. O que estudamos determina que tipos de hábitos devem ser formados”. Também o apostolo Paulo diz que o modo de sermos transformados é mediante a renovação da mente, e por isso insistia em que nos ocupássemos das coisas que são verdadeiras, respeitáveis, justas, amáveis e de boa fama.
Duas condições paradigmáticas do crescimento:
·        pró-crescimento – Diligência
·        anti-crescimento - Preguiça.
Diligência, “em ética, encontramos que é a virtude humana de seguir um objetivo de vida, até chegar ao fim do objetivo. A palavra diligência vem do verbo latino diligere, que significa amar; diligens (diligente) significa aquele que ama. Remédio para a preguiça, a virtude da diligência consiste no carinho, alegria e prontidão (diferente de pressa) com que pensamos no bem e nos dispomos a realizá-lo da melhor forma possível”.
Preguiça, “comumente associada com a lei do menor esforço, o caminho mais fácil, não se resume na preguiça física, mas também na preguiça de pensar, sentir e agir. A crença básica da preguiça é “não necessito aprender nada”, levando a um movimento limitador das idéias e ações no cotidiano e traduzido pelo “deixa para depois”. A origem da palavra vem do hebraico “atséi”, que pode ser traduzido por lentidão ou indolência.”
Insights sobre o crescimento (do renomado psiquiatra e escritor M. Scott Peck):
“O processo de crescimento espiritual é difícil e trabalhoso. O obstáculo maior a essa evolução espiritual, em última análise é a preguiça. A preguiça é vista como a tentativa de evitar o esforço e eventual sofrimento inerente ao processo de crescimento espiritual. A natureza da preguiça, é que ela é a força de entropia (enquanto decaimento das formas mais organizadas para a mesmice, e o caos) se manifestando em nossas vidas. A preguiça assume várias formas, e uma dessas formas é o medo. Grande parte do nosso medo é o temor de uma mudança no status-quo, de perdermos o que temos se tentarmos ir mais longe.”
“O que torna difícil a vida é que o processo de enfrentar e resolver problemas é penoso. Segundo sua natureza, podem causar sentimentos de frustração, pesar, mágoa, tristeza, solidão, culpa, ira, medo, angustia ou desespero. Mas, é no processo de enfrentar e resolver problemas que a vida adquire seu valor. São eles a lâmina cortante que separa o êxito do fracasso; criam a coragem e a sabedoria; através deles, nos desenvolvemos mental e espiritualmente. Agora bem, o único modo de resolver um problema é encontrar  a solução. Problemas não examinados plantam-se como barreiras”.
“Com um mapa ultrapassado. No processo de enfrentar problemas, nossa percepção da realidade funciona como um mapa. Com um mapa exato e verdadeiro, saberemos onde estamos, poderemos decidir para onde ir, e geralmente lá chegaremos; com um mapa confuso e inexato estaremos perdidos. Isto coloca desde logo a questão de que é necessário e constante a revisão desses mapas para levar em conta novos aspectos da realidade. A maioria das pessoas, porém, considera excessivo este esforço... aferram-se a estes referenciais do passado e lutam em todas as etapas do novo roteiro. Por isso quase sempre lutam contra uma nova informação ao invés de incorporá-la. Sua resistência é motivada pelo medo, cuja base é a preguiça; o medo do trabalho que teriam de realizar.
“A força do Amor. A força que nos impulsiona, como indivíduos e como espécie, a crescer, apesar da resistência, natural da nossa própria letargia, é o amor. O amor pode ser definido também como a vontade de se esforçar para nutrir o próprio crescimento espiritual ou o de outra pessoa. A preguiça ordinária é o não-amor; o não amor como a recusa de esforçar-se. O mal é o anti-amor.”
Testemunhos: Com saudades, relembro da mestra Estrella Bohadana, Filosofa, Professora de Mestrado em Educação e Cultura Contemporânea. Depois de uma militância política intensa,  tornou-se uma filosofa na acepção da palavra, com uma entrega amorosa pela matéria. Para um grupo de aprendizes, a quem ministrava ensinamentos informais de Filosofia, do qual eu fazia parte, confidenciava que, doravante, seguia uma  disciplina com dedicação exclusiva e intensiva no estudo, ensino e compartilhamento da Filosofia, para o que tinha aberto mão mesmo, de qualquer diversão que pudesse ocupar seu tempo.
Com aplausos de admiração destaco ainda nossa Primeira bailarina  Ana Botafogo, que em entrevista recente, ao ser indagada sobre o segredo do seu sucesso, pontificava: “determinação, disciplina e muito trabalho. Minha rotina é a mesma de 32 anos atrás. Começo o meu dia com uma primeira aula de 1h30m. Depois sigo com muitas horas de ensaio.... a vida de bailarina é treinar e ensaiar sempre”.
Concluimos com o pensamento de que, de uma forma geral, a vida pode ser comparada com uma corrida de obstáculos, que exige esforços, tendo como prêmios: ter+ (p. ex. prosperidade); ser+ (consciente, solidário, realizado, feliz,...); conhecer+ (crescimento espiritual). No meio desta corrida são repetitivos os obstáculos a ultrapassar, e, aos 65 anos de idade, destaco como meus desafios recorrentes, as barreiras da preguiça e do medo, requerendo maior esforço e atenção na busca de  conhecer mais. E, a reflexão de Scott Peck de que na minha luta pessoal pela maturidade, pouco a pouco estou me tornando mais consciente de novos insights, que tendem a querer fugir de mim.” 

quinta-feira, 18 de julho de 2013

NÃO POSSO PARAR DE LUTAR...


Estamos vivenciando em nosso País, um momento diferente, provocado pelos movimentos pacíficos das ruas, em protesto contra uma situação injusta que nos assola desde há muito, e, que chegou a limites que já não dá mais para agüentar calados, no contexto sócio-econômico-político atual do País. Certamente que faz parte da luta de cada um, apoiar reivindicações justas contra quem de direito, repudiar a prática contumaz da corrupção desavergonhada, escancarada pelos desmazelos dos serviços públicos de baixa qualidade, quando não ausentes, pela falência de instituições políticas absurdamente corruptas, e, que mais do que uma simples onda do momento, são um grito de basta! Para esta luta, também sinto-me convocado.
Fortalece-nos lembrar que a luta, e não o descanso, é a nossa condição básica, em um mundo onde há dor e sofrimento. Onde ainda nos assombra a prepotência dos maus – que, não obstante, prosperam, e ensejou que um autor de salmos bíblicos elevasse seu questionamento ao próprio Deus - bem como as doenças e privações, e, os reveses coletivos provocados pelos desastres naturais que, não raro, culminam na morte, mormente dos desafortunados.
Destacamos aqui, a luta no âmbito das estruturas viciadas da  sociedade, onde prolifera a erva daninha da corrupção. Por oportuno, a revista Ultimato em sua edição de julh-ago 2013, traz como artigo de capa “Corrupção ...”, do qual destaco: “um índice mundial para medir o nível de corrupção de uma nação, fornecido pela ONG Transparência Internacional, que indica o grau de corrupção entre os funcionários públicos e políticos, em 2012, dava ao Brasil o 69º lugar, com o índice 43, em que 100 indica ausência de corrupção.” E, “por volta do ano 60 da era cristã, um homem chamado Tiago (um dos discípulos), que se apresenta como servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo”, escreveu uma carta a “todo o povo de Deus espalhado pelo mundo inteiro”. A braveza com que ele trata os ricos corruptos é visível. ... A acusação de Tiago naturalmente inclui os inocentes que são mortos por falta de socorro da parte dos mais ricos e poderosos, por falta de consciência social e da ação prática e urgente do governo, da sociedade e da igreja. Por causa da ganância dos ricos e da omissão das instituições, as crianças morrem de fome e frio, os jovens morrem jovens e não na meia-idade, os de meia-idade morrem na maioridade e não na velhice. Os ricos corruptos sempre diminuem a longevidade dos mais pobres por absoluta ausência de consciência social!.
Cabe lembrar, que, na realidade, nossa frente de luta é muito mais ampla; compartilho da crença de que nossa batalha, diária, desenvolve-se: no mundo (contra as ameaças do meio em que se vive, onde se incluem a opressão das estruturas viciadas da sociedade, e as catástrofes na Natureza); na dimensão pessoal, interior (contra a carne enquanto inclinação natural de nosso ego corrompido, cujas obras mais evidentes são, imoralidade sexual, impureza e libertinagem, idolatria e feitiçaria, ódio, discórdia, ciúmes, ira, egoísmo, dissensões, facções e inveja, embriaguez, orgia e coisas semelhantes); e, na dimensão do mundo espiritual (contra as investidas das potestades do ar, personalizadas no Diabo e seus Anjos caídos, no campo de batalha pelo controle da nossa mente, e a ameaça da morte como o último destes inimigos a ser vencido).
Há que se considerar ainda a dimensão transcendental do mal. Significa dizer que existe uma raiz mais profunda, comum a todas as frentes de luta, anteriormente mencionadas, e assim, subjacente também às situações de opressão e injustiça, e, que se consubstancia na realidade do mal. E, para nós cristãos, se coloca o questionamento, de que, se o Criador é tão bom e poderoso, como então se explica a existência deste mal enraizado e disseminado por toda a Sua Criação? Sabemos pelos relatos bíblicos que tudo foi originalmente criado bom ! assim o homem, o mundo natural, e, podemos deduzir, os seres celestiais. Somos informados também de uma revolta envolvendo alguns Anjos, e, que oportunamente, seduziu, enganou, e fez o homem pecar (a palavra “Pecado” é um termo comumente utilizado em contexto religioso, descrevendo qualquer desobediência à vontade de Deus; em especial, qualquer desconsideração deliberada das Leis Divinas) introduzindo em nosso meio o mal, que contaminou também o mundo natural. Remanesce a questão: porque existe então o mal? qual é afinal a origem primeira do mal? Refletindo sobre o assunto, o consagrado autor Christopher Wright, em seu livro “O Deus que eu não entendo”, pondera, de forma bem fundamentada, que “Deus revelou a nós uma grande quantidade de verdades na Bíblia – sobre si mesmo, sobre a criação, sobre nós, nosso pecado, o plano da salvação, o Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, o destino futuro do mundo e assim por diante.” Mas, constata que ocorre “o silêncio da Bíblia sobre a origem definitiva do mal... A verdade é que Deus escolheu, em sua sabedoria, não nos dar respostas para nossas perguntas sobre a origem definitiva do mal dentro da criação... Então, quero me habituar com o entendimento de que o Deus que eu não entendo, escolheu não explicar a origem do mal; em vez disso, escolheu chamar minha atenção para aquilo que Ele tem feito para lutar contra o mal e destrui-lo”. Não obstante,” há algo sobre o mal moral e espiritual que pode ser explicado – isto é, que muito dele está, de alguma forma, relacionado (direto ou indiretamente) com a maldade e a corrupção humana.”
Concluímos com a letra da canção inspirada da Pastora Ludmila Ferber,
Nunca pare de lutar
O que vem pra tentar ferir
O valente de Deus
Em meio às suas guerras?
Que ataque é capaz
De fazê-lo olhar pra trás
E querer desistir ?
Que terrível arma é
Usada pra tentar paralisar sua fé?
Cansaço, desânimo
Logo após uma vitória
A mistura de um desgaste com um contra-ataque do mal
A dor de uma perda, ou a dor da traição
Uma quebra de aliança, que é raiz da ingratidão
Se alguém está assim, preste muita atenção
Ouça o que vem do coração de Deus:
Em tempos de guerra, nunca pare de lutar
Não baixe a guarda, nunca pare de lutar
Em tempos de guerra, nunca pare de adorar
Libera a Palavra, profetiza sem parar
O escape, o descanso, a cura
A recompensa vem sem demora”

P.S. uma das principais formas de luta dos profetas é a denuncia do mal.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

NOSSAS AÇÕES DE CADA DIA


A idéia de ação. “Uma ação é um certo tipo de coisa que uma pessoa pode fazer. Em geral, não se considera que haja ações feitas por objetos inanimados, como o sol, que brilha, mas sem intenção. Por outro lado, pode-se considerar que um ser humano age, mesmo quando não tem uma intenção específica”. A tragédia de uma ação repetitiva e sem sentido. “Sísifo, é uma personagem da mitologia grega, condenado a repetir sempre a mesma tarefa de empurrar uma pedra de uma montanha até o topo, sendo que, toda vez que estava quase alcançando o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo, até o ponto de partida, por meio de uma força irresistível”. A imagem trágica que podemos formar evoca o inferno em que pode se encerrar uma vida circunscrita a uma ação repetitiva, sem sentido.
Um sentido para nossas ações de cada dia – renovação e progresso. Renovar é fazer nova cada oportunidade, e, neste sentido, não existe, a mera repetição; e, progresso indica a existência de um sentido de melhorar, a cada dia. A busca, de renovação e de progresso dá  sabor e qualidade de vida, e, são como bussolas para orientar nossas ações. Diz o sábio que vivemos mais plenamente, na medida em que caminhamos voltados para o dia de amanhã. Cada dia que passa, somos os mesmos; mas é estupendo pensar que estamos chamados a estreiar algo cada manhã. É o fato da novidade o que depara ao futuro seu fascinante atrativo; o que carrega de ilusões as baterias de nosso espírito. E, sem embargo, não basta com querer ou desejar o novo; é mister mostrar que o novo é possível e que tem um fator capaz de produzi-lo. Mais ainda, para que o novo apareça, há que trabalhá-lo. Não cruzar-se os braços e esperá-lo passivamente. A evolução tem suas próprias leis, mas talvez, a mais importante seja a do trabalho e a do progresso. Somos chamados a progredir, trabalhando; isto é, Deus nos pôs aqui com inteligência e duas mãos, para irmos transformando a nós mesmos, e  ir, pouco a pouco, transformando o mundo em que vivemos. E à medida que construímos o mundo, o empurramos para o futuro.” Por oportuno, aprendemos, com a Revelação de Deus nas Escrituras, que também no Céu também haverá progresso, em conhecimento, em amor, e em alegria. Em cada estágio do desenvolvimento espiritual encontramos uma glória mais profunda. Assim pois, vamo-nos tornando mais e mais gloriosos em nossos próprios seres. Um bom ingrediente para nossas ações: temperá-las com bom humor. Afinal, “a vida é bela”, e, mesmo nas piores circunstâncias, “o humor ainda pode encontrar motivo para sorrir, que é a mensagem do comovente filme de mesmo nome. Já se disse que o humor é o revés do amor. Graças a este humor, que sempre podemos converter em amor, a vida pode desfrutar-se e até, em ocasiões, suportar-se. Há anciãos alegres, otimistas, que distribuem generosamente sabedoria e bom humor. E, há jovens, que levam a vida como velhos com as ilusões congeladas, a esperança abaixo de zero, e a alma enrugada.
O valor transcendental das nossas ações. Um dos pensamentos que muito me impactou  desde a juventude, e, que sempre trago à memória, é o comentário do padre e paleontólogo Teilhard Chardin, à recomendação do Apostolo Paulo de que “tudo que fizerdes, fazei-o em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo”; o que implica dizer, fazei-o muito bem feito, com todo o coração. Ele então considera uma solução incompleta a interpretação de que “a ação humana vale, e só vale pela intenção com que é feita!. E pondera: “no seio do nosso Universo, toda a alma é para Deus, em Nosso Senhor. Mas, por outra parte, toda a realidade, mesmo material, à volta de cada um de nós, é para a nossa alma. E, agora, ajuntamos nós, no nosso Universo, onde todo o espírito vai para Deus, em Nosso Senhor, todo o sensível, por sua vez, é para o Espírito”.
Quando chega a terceira idade, e, a aposentadoria. O assunto torna-se mais objeto de atenção por ocasião da chegada da terceira idade, e da esperada aposentadoria. Uma das ameaças/oportunidades na perspectiva da aposentadoria, é sobre o que vamos fazer doravante. E, um cenário comum é a falsa idéia de que já não se tenha o que fazer, que pode também estar associado com o medo de que venha a faltar meios de manter um padrão de vida salutar. Equacionado esta questão, remanesce o problema do ócio compulsório, indesejado. São conhecidos as estatísticas dos que adoecem, e, não raro, podem ter a vida encurtada, pelo sentimento de inutilidade, de mesmice, quando suas ações já não têm qualquer valor de mercado, por assim dizer. Fomos assim ultrapassados e substituídos no jogo da vida. A questão de fundo, é que não existiria mais perspectiva de progresso doravante, este sim um grande mal. Voltando ao autor inspirado em quem nos baseamos: A vida é uma realidade continua, na qual vamos acumulando saberes, experiências, habilidades. E também, virtudes e vícios. Há jovens velhos, e há anciões muito jovens. Cada instante vivido com intensidade é um presente de Deus. Teríamos que dar graças por cada dia que amanhece, pelo cansaço acumulado e pelo sono reparador de cada noite. Viver  a vida, em cada instante e em cada momento, com a ilusão de que sempre tem algo que estreiar. Fazer planos para o amanhã, ainda que já se tenha mais de 90 anos. E dar sempre graças a Deus,  já que a vida é um dom. Urge, não obstante, ir reparando as goteiras que vão aparecendo no edifício de nosso corpo; e, também, do nosso espírito, que as vezes tanto descuidamos.” E, finalmente, envelhecer é ir-se desprendendo lentamente de toda carga inútil; é aprender a viver com pouco; é submergir-se no essencial; é quedar-se com o imprescindível atuando. Envelhecer é volver a viver na recordação do já vivido; é mostrar com um sorriso as cicatrizes do passado. Envelhecer é voltar a desfrutar com um livro já lido, e reler e reler, sempre com renovado entusiasmo, os quatro ou cinco livros que sempre nos tocaram mais. Envelhecer é reconciliar-se com  tudo: com o corpo que dói, com a alma insatisfeita, com a cruz de cada dia.  Envelhecer é gritar menos, deter a pressa,... é toda uma escola de vida. Envelhecer é dar graças por haver chegado.
(textos de “El arbol de La cruz”, de Eduardo de La Hera)

quinta-feira, 23 de maio de 2013

A VONTADE DE PODER E O CHAMADO PARA SERVIR


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“Não professo religião alguma, mas rezo todos os dias. Acredito no poder da oração. Mas as instituições religiosas, e incluo todas as ordens, estão preocupadas com política e poder”, Gilberto Gil, ex. Ministro da Cultura. A expressão não passaria de um lugar comum sobre as benesses e o apego ao poder, apenas destacada pelo brilho dos holofotes que cercam as celebridades. Publicada na Revista Ultimato (edição mai-junho 2013), que traz também um artigo sobre o “pecado da simonia”, onde se aponta o surgimento no País, de uma “teologia duvidosa, resultando de uma interpretação tendenciosa e altamente seletiva da Bíblia, consoante a qual, os principais lideres desses movimentos vêm demonstrando uma atitude em relação ao dinheiro que em nada difere do velho pecado da simonia (tráfico de poder que derivou o seu nome de Simão, o mágico, um personagem bíblico que tentou comprar dos apóstolos o poder de conceder o poder do Espírito Santo àqueles sobre os quais ele impusesse as mãos). Também podemos encontrar o vírus da vontade de poder, mesmo num pedido aparentemente inocente de dois dos mais próximos Discípulos de Jesus, para que, por ocasião da chegada do seu “Reino de Deus”, que um se sentasse à sua direita e outro à esquerda.  Na base destes, e de muitos outros registros afins, está um velho e arraigado anseio humano de “vontade de poder”, e, que conforma uma cultura, dominante na atualidade, onde a autoridade do mundo é exercida pelos detentores de poder, ensejando, o modo de raciocínio do presente século que impõe sobre o homem, o reino do mando: “manda quem pode, obedece que tem juízo”. Um dos filósofos de maior influência no mundo moderno, Nietzsche, foi um dos maiores apologistas desta cultura, sendo a vontade de potência a ferramenta que utilizou para analisar a motivação humana. Por esta ótica, ele via a “civilização, como tendo sido  criada pelos fortes, pelos inteligentes, pelos homens competentes, os líderes que se destacaram da massa. Moralistas como Sócrates e Jesus, porém, ao propagaram uma moral que protegia os fracos dos fortes, os mansos dos ousados, que valorizava a justiça em vez da força, inverteram os processos pelos quais o homem se elevou acima dos animais e exaltaram como virtudes, características típicas de escravos: abnegação, auto-sacrifício, colocar a vida a serviço dos outros. Mas, segundo Nietzsche, é a vontade de poder que permite ao indivíduo desenvolver seu potencial máximo de modo a se tornar-se um super-homem ou um ser além do homem - isto é, que se coloca acima da massa”. Levado aos seus extremos, este modo de pensar encontrou eco no nazismo que tanto mal trouxe à humanidade. Voltando ao articulista da citada revista, “a forma desse desejo de potência se modificou ao longo dos séculos, mas sua fonte é ainda o mesmo vulcão.. O que antes fazíamos “por amor a Deus” fazemos agora “por amor ao dinheiro”... É isso que no momento confere a mais elevada sensação de potência”.
Na direção oposta desta cultura do poder, destaca-se a genuína “contracultura cristã” alicerçada na vida e nos ensinamentos de Jesus Cristo, dos quais destacamos as motivações que devem embalar seus seguidores: felizes são os humildes de espírito, os que choram, os que têm fome e sede de justiça, os perseguidos por causa da justiça, os mansos, os misericordiosos, os pacificadores, os limpos de coração. Neste sentido, precisamos mesmo ter uma mentalidade diferente da que o mundo tem: a autoridade do mundo provém da posição que se ocupa, a do Reino de Deus vem do serviço que se presta. O modo de raciocínio do mando: “manda quem pode, obedece quem tem juízo” deve ser substituído pelo “manda quem serve, lidera quem dá o exemplo da disponibilidade para servir”.
Finalmente desejo salientar duas situações neste contexto: a primeira diz respeito à tentação, quando não inveja ocasional, em relação àqueles que aparentemente têm o poder. Neste caso podemos encontrar, um insuspeito autor de salmos da Biblia, quando confessava a tentação, que “sem dúvida, Deus é bom – bom para os bons, bom para os de bom coração. Mas quase o deixei escapar; quase deixei de ver sua bondade. Porque eu estava olhando para o outro lado, observando as pessoas que alcançaram o topo, invejando os ímpios que tinham sucesso, que não têm com o que se preocupar e nenhum problema a resolver... Os ímpios estão com tudo: alcançam o sucesso e ajuntam riquezas... Até que entrei no santuário de Deus...e compreendi”. Na segunda situação, destaco, os muitos registros históricos, de uma animosidade dos transtornados pela cultura do poder, em relação àqueles que se orientam pela contracultura cristã. Aparentemente, pelos valores que defendem, de paz e amor ao próximo, o senso comum é de que estes pacifistas, seriam no mínimo objeto de admiração. A realidade é bem outra, e a história mostra as perseguições movidas contra tais, com destaque para os mártires do cristianismo. Não é por outra que, entre os bem-aventurados, Jesus adverte, “considerem-se abençoados sempre que forem agredidos, expulsos ou caluniados para me desacreditar...”.
P.S. por oportuno, acabo de ler, e, recomendo, o romance “O cristo recrucificado”, de Nikos  Kazantzakis (mesmo autor de Zorba, o grego), que mostra um quadro bem composto desta conjuntura hostil, aqui dirigida contra homens simples,  escalados para participarem na encenação da “Paixão de Cristo”, e, que passam a vivenciar os valores da contracultura cristã, sendo doravante objeto da hostilidade e perseguição de sua gente.


Comentário do mano, Pr. Carlos Alberto: Parabens !
Muito bem colocado e muito oportuno. A INVEJA é o pecado mais antigo. Esteve na base da rebelião de Lucifer e o fez tornar-se Diabo(queria o trono de Deus). Esteve na base do pecado de Adão e Eva(queriam o conhecimento de Deus) e está por traz de adultérios, assassinatos, roubos, maledicencia, entre outros. Enviado via iPhone


domingo, 5 de maio de 2013

TUDO SE RESUME NO AMOR



O amor pode ser entendido de diferentes formas, mas  é por si só, o sentimento primário e inicial de todo e cada ser humano. Todos carecem de amor e querem reconhecer esse sentimento em si e nos outros. O amor é vital para nossas vidas, assim como o ar, e, é notoriamente reconhecido que sem amor a criatura não sobrevive conquanto o amor equilibra e traz a paz de espírito quando é necessário”. Amor, também define o nível ou grau de responsabilidade, utilidade e prazer com que lidamos com as pessoas que conhecemos. 
A palavra amor presta-se a múltiplos significados na língua portuguesa; pode significar afeiçãocompaixão, misericórdia, ou ainda, inclinação, atração, apetite, paixão, querer bem, satisfação, conquista, desejo, libido, etc. O conceito mais popular de amor envolve, de modo geral, a formação de um vínculo emocional com alguém, ou com alguma coisa que seja capaz de receber este comportamento amoroso e enviar os estímulos sensoriais e psicológicos necessários para a sua manutenção e motivação. Alguns sentimentos que são frequentemente associados com o amor interpessoal são: carinho, atração,  altruísmo,  reciprocidade, compromisso,  amizade,  parentesco,  , intimidade física,  e, serviço. Destaques nas expressões de amor:  EROS - é sinônimo sensualidade que leva a atracção física e depois às relações sexuais. Eros é o amor que deseja ter ou tomar posse. Ao contrário vem a Psique, que representa o sentimento mais espiritual e profundo. PHILIA - em grego, significa altruísmo, generosidade.  A dedicação ao outro vem sempre antes do próprio interesse.  STORGE - é o nome que se traduz por amizade; o que conta é a confiança mútua e os valores compartilhados. PAIXÃO - é um forte sentimento que se pode tomar, até mesmo, como uma patologia provinda do amor. Manifestada a paixão em dada circunstância, o indivíduo tende a ser menos racional, priorizando o instinto de possuir o objeto que lhe causou o desejo. Na ATRAÇÃO FÍSICA - reside os nossos instintos atrelados ao nosso estado fisiológico como as necessidades sexuais, prazer e perpetuidade da espécie. “Na Teoria Triangular do Amor, os relacionamentos são caracterizados por três elementos : intimidadepaixão e compromisso. Cada um destes elementos e suas combinações entre si podem estar presente em um relacionamento, produzindo as seguintes definições: Amizade (intimidade); Limerence (paixão); Amor vazio (compromisso); Amor romântico (intimidade + paixão); Companheirismo amoroso (intimidade + compromisso); Amor fugaz (paixão + compromisso); Amor consumado (intimidade + paixão + compromisso).”
 O AMOR SEGUNDO OS FILOSOFOS. Na concepção de Platão o amor liberta o ser humano e o leva à verdade. Para ele, o amor (Eros) significa a disposição para elevar-se (superar as baixezas da vida material e da experiência sensível) rumo às alturas do mundo ideal, situado além do mundo físico, em busca do que é eterno, perfeito e imutável. O amor em Platão é falta. Ou seja, o amante busca no amado a Ideia - verdade essencial - que não possui. Nisto supre a falta e se torna pleno, de modo dialético, recíproco. Em contraposição ao conceito de Amor na filosofia de Platão está o conceito de paixão. A paixão seria o desejo voltado, exclusivamente, para o mundo das sombras, abandonando-se a busca da realidade essencial. No pensamento de Santo Agostinho o amor a Deus é o fundamento da ordem e da justiça. Só a partir do amor é possível distinguir duas realidades antagônicas: a cidade de Deus e a cidade exclusivamente terrena. Os habitantes da cidade de Deus amam o Senhor sobre todas as coisas, ao passo que , ao contrário o amor egoísta constitui o fundamento da cidade terrena. Na realidade, este tipo de amor coincide com o desejo desordenado das coisas e dos prazeres do mundo. Neste sentido, a ordem que é instituída através da prática do amor a Deus põe cada realidade no seu lugar certo, e, a mesma coisa acontece, também, a respeito da justiça. Quando amamos, amamos a Deus, afirma Santo Tomás, ao considerar que toda a realidade tende para Deus, tendo Nele a sua razão última de ser. Também, através do amor, o ser humano realiza plenamente a sua aspiração natural que o impele a querer assemelhar-se ao Criador, procurando se unir a ele e aos outros. No pensamente de Jacques Maritain, o amor divino e o amor humano se implicam e se integram mutuamente.
À guisa de conclusão: Deus dotou-nos de duas capacidades/ habilidades: capacidade de percepção para discernir, ver e julgar; isto se chama de entendimento, e, capacidade de inclinação na direção do que vê ou avalia; tanto pode ser de inclinação para aceitar quanto para rejeitar o que viu; esta habilidade se chama inclinação. Quando determina e governa as ações, esta inclinação se chama vontade; quando a mente entra no processo, a inclinação costuma ser chamada de coração. Há duas formas de exercitar a inclinação: a alma vê alguma coisa com aprovação, prazer e aceitação; ou, com oposição, desagrado e rejeição. O amor está na base de todos os sentimentos pertencentes à inclinação para a união. E, amar a Deus é tomar uma decisão fundamental – buscar o bem supremo, Deus. Trata-se antes, da escolha de um objetivo final, que nos dá a motivação suprema, ou propósito de vida, e, que é a grande ação moral; todas as outras decorrem dela. Essa decisão possui muitos atributos. Esses atributos do amor são as manifestações dele em nossos diversos relacionamento e situações de vida.
P.S. seleção de registros adaptados

sexta-feira, 12 de abril de 2013

LEIS DA FÍSICA E LEIS DA VIDA



Na vida estudantil, e já vão muitos anos, sempre tive fascinação pelas grandes sínteses, tais como as Leis da Física, poucas e supersintéticas, consistentes, e de aplicação geral, capazes de explicar uma infinidade de fenômenos que interagem, e, bem assim, interligam coisas aparentemente tão distintas, como força, movimento, matéria, energia, e consciência. É como estivesse atingindo o essencial, de cada coisa, de cada fenômeno. Assim, na Física temos as leis da Mecânica, de Newton, que explicam o movimento dos corpos,  e as relações destes com as forças, causas destes movimentos. Por estas leis, entendemos a dinâmica do Universo, e, em particular, o movimento do nosso sistema solar,  consoante a lei de atração entre dois corpos celestes, e que se traduz na gravidade, quando envolve nosso planeta  Terra. Posteriormente Einstein, relativizou alguma dessas leis, e estabeleceu, genialmente, a famosa relação entre matéria e energia. Destaco ainda o  princípio da conservação de energia (a energia pode ser transformada de uma forma em outra, mas não pode ser criada nem destruída), e, o princípio da entropia crescente (que mede a degradação natural das formas de energia em calor). Num Universo como tal, a ordem é o menos provável e o caos o mais provável.
Ocorre que “enquanto o Universo como um todo, tende a deteriorar-se, existem,entretanto, enclaves locais, cuja direção parece ser oposta, e nos quais há uma tendência limitada e temporária ao incremento da organização. A vida encontra seu habitat em alguns desses vínculos”. Para um cientista contemporâneo, expoente da Física Quântica, “a vida parece ser dotada de um comportamento bem ordenado e regrado, não exclusivamente baseado na tendência desta, de passar da ordem para a desordem, mas antes, baseado parcialmente em uma ordem existente que é mantida, e assim escapar do decaimento da entropia”. Este é também o pensamento compartilhado por Teilhard de Chardin ( 1881 — 1955),  padre jesuíta, teólogo, filósofo, e paleontólogo francês, que buscou construir uma visão integradora entre ciência e teologia. Para Chardin, a “consciência” substitui a entropia, no seu valor de função física essencial do cosmo, e, a “energia espiritual”, substitui a energia material. E formulou, então, uma relação entre esta  “energia espiritual” e a consciência, uma espécie de lei da vida: “o mundo desenvolve-se no sentido de uma crescente complexidade. Este aumento de complexidade externa associa-se, nas últimas fases do processo evolutivo, a um aumento correspondente da consciência.  E, ainda uma lei de socialização, segundo a qual, ocorre, no plano social e humano, a unificação e integração cada vez maior dos indivíduos, num panorama progressivo expresso por um movimento de socialização. Ainda na Física, temos o Princípio Antrópico, que estabelece  que "a natureza é primorosamente ajustada para a possibilidade de vida no planeta Terra: se a força gravitacional fosse reduzida ou aumentada em 1%, o Universo não se formaria; por uma minúscula alteração na força eletromagnética, as moléculas orgânicas não se uniriam. Nas palavras do físico Freeman Dyson, parece que o 'Universo sabia que estávamos chegando'. O Universo não se assemelha a um lance de dados aleatório. Parece pura e simplesmente proposital”
Finalmente, faço referência à Lei Moral, objeto de reflexão pelo consagrado autor C.S.Lewis, em seu livro “Mero Cristianismo”, onde registra que “há dois tipos de Lei em operação: Lei Física é a Lei da Ação, e, a Lei Moral é a que determina a ação. A Lei Física é a lei da seqüência, da força, da imperiosidade automática. É, apenas, uma questão de causa efeito. Exclusivamente o ser humano está sujeito ainda a uma outra lei, Moral, a Lei da natureza humana, mas com uma grande diferença: um corpo material não pode escolher se obedece ou não à lei da gravidade, ao passo que o homem pode escolher se obedece ou não à lei da natureza Humana. É a regra do certo e do errado: existe um certo e um errado, reais e objetivos. A Lei Moral opera, apenas, na área do livre-arbítrio,  expressão usada para significar a vontade livre de escolha, as decisões livres. É a Lei da inteligência, da liberdade, da escolha responsável. Opera com base na persuasão, e não na coerção. Ela não obriga ninguém a nada, mas apresenta à razão humana os valores que devem ser preferidos, e as conseqüências das opções feitas. Ela opera através de motivações e governa por meio da razão.”
Todas estas leis e princípios, ainda me fascinam, como modelos para explicar resumidamente, como os fatos da realidade se relacionam; “propiciam também um caminho pelo qual nos situamos, e definimos as nossas responsabilidades no mundo, em função daquilo em que cremos, e por quê”. Particularmente, vejo em todas estas sínteses, as marcas mais profundas, deixadas por um Criador, passíveis, então, de serem também encontradas sob as lentes competentes da Ciência, destacando ainda a singularidade e importância conferida a nossa criação.

sábado, 23 de março de 2013

O ESSENCIAL É INVISÍVEL; O MAIS ESSENCIAL É INEFÁVEL



Pelo Dicionário encontramos que: Essencial - a natureza primeira das coisas que se opõe ao que nelas seja acidental / Inefável – que não se pode exprimir por palavras/ Admiração - assombro, espanto, estranheza, pasmo, surpresa / Reverência - acatamento, respeito, veneração às coisas sagradas / - crença inabalável, que não tende a razões ou argumentos. Fé divina: crença que se apoia na revelação. Fé humana: a que se assenta na autoridade dos homens. Na vida quotidiana, vivemos absorvidos pelo que não é essencial, não temos muito tempo para a admiração, exercitamos pouco a fé, a reverência está em baixa,e, praticamente não temos contato com o inefável. Parece ser que nossa razão comum tem o viés do que é visível, e exprimível, e, marcadamente na atualidade, “a maior parte da nossa atenção vai para a utilidade, para aquilo que nos traz vantagens”. Na contramão dessa tendência evoco, a seguir, o pensamento de dois autores inspirados, e, que muito prezo, destacando a vivência do  essencial, conquanto invisível, e, do inefável, capazes de despertar nossa admiração, reverência e fé.
O ESSENCIAL É INVISÍVEL, COM DESTAQUE PARA O AMOR.Eis o meu segredo: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos/ Quem ama vê além da aparência física e é isto que ama: a essência/ Só os caminhos invisíveis do amor libertam os homens/  O verdadeiro amor nunca se desgasta. Quanto mais se dá, mais se tem”. Estas afirmações são do livroO Pequeno Príncipe”, que foi escrito e ilustrado por Antoine de Saint-Exupéry um ano antes de sua morte, em 1944. Piloto de avião, durante a Segunda Grande Guerra, o autor se fez o narrador da história, que começa com uma aventura vivida no deserto depois de uma pane no meio do Saara. Certa manhã, é acordado pelo Pequeno Príncipe, que lhe pede: "Desenha-me um carneiro"? É aí que começa o relato das fantasias de uma criança como as outras, que questiona as coisas mais simples da vida, com pureza e ingenuidade. Em suas andanças pela Galáxia, encontrou diversos personagens a quem perscrutava para descobrir o segredo do que é realmente importante na vida: um rei que pensava que todos eram seus súditos, apesar de não haver ninguém por perto; um homem de negócios que se dizia muito sério e ocupado, mas não tinha tempo para sonhar; ... Assim, cada personagem mostra o quanto as “pessoas grandes” se preocupam com coisas inúteis e não dão valor ao que merece. Exupéry via os adultos como pessoas incapazes de entender o sentido da vida, pois haviam deixado de ser a criança que um dia foram.
O MAIS ESSENCIAL É INEFÁVEL, ENQUANTO DESPERTA ADMIRAÇÃO. Abraham Joshua Heschel foi um dos mais importantes teólogos judeus contemporâneos. O que ele disse - Sobre a admiração - Há 3 aspectos da natureza que se impõem à atenção do homem: a força, a beleza e a grandeza. A força ele explora; a beleza é para seu gozo; e a grandeza enche-o de reverente admiração/ O que nos enche de maravilhado assombro não é o que compreendemos e somos capazes de comunicar, mas o que se situa dentro do nosso alcance e ao mesmo tempo está além da nossa compreensão/ A admiração é um estado da mente em que não olhamos a realidade através da treliça de nosso conhecimento memorizado; um estado em que nada se supõe conhecido/ A admiração é a bússola que pode dirigir-nos ao pólo do sentido das coisas . Sobre o inefável - A pureza sobre a qual nunca deixamos de sonhar, as coisas tácitas que amamos insaciavelmente, a visão do bem pelo qual morremos ou nos entregamos vivos – são realidades que nenhuma razão consegue dominar. É o inefável, do qual haurimos o gosto do sagrado, a felicidade do imperecível / O inefável habita naquilo que é maravilhoso como no que é comum, tanto nos fatos grandiosos, como nos insignificantes/ A música, a poesia, a religião, todas iniciam a alma no encontro com um aspecto da realidade para o qual a razão não tem conceitos e a língua não tem palavras/ O inefável é concebível apesar de ser incognoscível/. O conselho: Deixe de lado idéias preconcebidas; abandone sua tendência de repetir e de conhecer antes de ver; tente ver o mundo pela primeira vez com olhos não ofuscados pela memória ou pela volição. E, a constatação: “quando tentamos encontrar-nos com a realidade face a face, sem a ajuda de palavras nem de conceitos, percebemos que o que é inteligível à nossa mente é somente uma tênue superfície de uma realidade profundamente oculta”. O sobrenatural de Deus inscreve-se no essencial, e no inefável, e, desperta a reverência e a fé -  “Perscrutamos os fenômenos tangíveis com a razão, e com o sentido do inefável auscultamos o sagrado e indemonstrável/ A fé nasce naquele que suspira apaixonadamente pelo sentido supremo das coisas/  A existência de Deus nunca poderá ser provada por pensamento humano. Todas as provas são meras demonstrações da nossa sede dele. Acaso um homem com sede tem necessidade de uma prova de sua sede?/ Não ter fé é insensibilidade; ter fé sem discernimento é superstição”.
Contra a cultura da pressa, e o culto da velocidade, estou aderindo à filosofia do “devagar”, mais atento para escutar os ecos do essencial, e do inefável. Discernir entre o que é essencial e o acessório, é o meu propósito, mas não tem sido fácil; vêm muito misturados, o que requer atenção e oportuno distanciamento. Por outro lado, a experiência do inefável independe da minha vontade, é incontrolável. Posso apenas colocar-me em posições mais favoráveis à sua ocorrência. Imagino que sejam nichos apropriados, as expressões compartilhadas de valorização da vida, mais comuns no ambiente familiar, e dos amigos; as oportunidades aproveitadas de ajuda ao próximo; uma boa leitura seletiva com  insights edificantes; a emoção renovada trazida por um filme, preferencialmente em preto e branco, embalando uma história comum de amor, ou de superação; a escuta de uma canção popular melodiosa, que marcou época, e, o puro som da Natureza, dentre outros. Nestes contextos, coisas que, corriqueiramente, deixariam apenas impressões comuns, e, passariam desapercebidas, como irrelevâncias, não obstante, são passíveis de serem encantadas pelo toque do inefável. Finalmente, peço a Deus que me ajude a abrir os olhos da fé, para contemplar o sobrenatural, que, creio, possa estar tão próximo como a distância da palma da mão, e, em todo lugar.